quinta-feira, 16 de julho de 2009

"Urubus comedores de carniça..."

“Yellow journalism is a type of journalism that downplays legitimate news in favor of eye-catching headlines that sell more newspapers. It may feature exaggerations of news events, scandal-mongering, sensationalism, or unprofessional practices by news media organizations or journalists” - Wikipedia gringa sobre yellow journalism, o equivalente a imprensa marrom.

A imprensa brasileira, mais uma vez, nos presenteia com um show de horrores, transformando a tragédia pessoal de alguns num espetáculo de todos. O que se assiste na televisão, nos portais e nos jornais é um caldo de notícias desencontradas, não-confirmadas e cruelmente manipuladas para dar um toque de sensacionalismo barato. O blog Salve a Rainha teceu ontem um comentário mirando nas headlines sobre o acidente aéreo que ocorreu nesta segunda-feira de uma maneira que não concordo, mas acabou acertando em cheio nos despropósitos daqueles que deveriam informar em favor da verdade.

A verdade é que o acidente com o voo da Air France deve ter uma explicação, tem que ter investigação e informações oficiais sobre esforços de buscas afim de um desfecho devem ser noticiadas. Só isso? Trata-se de algo que já daria muito trabalho a jornalistas sérios para pesquisar e informar. Entretanto, não é este o único esforço de enormes equipes, que dizem praticar jornalismo sério. É tanta pauta que sobra até para uma Ana Maria Braga entrevistar especialistas sobre aviação e engenharia aeronáutica.

Como o referido post do blog Salve a Rainha insiste, o que adianta noticiar que havia um casal em lua de mel no voo? De que vale para a busca dos fatos saber que um dos passageiros tinha medo de voar? Por trás desta humanização de uma notícia, afim de torná-la mais próxima de nós, reles mortais que poderiam estar num voo com um trágico e igual fim, o jornalismo marrom praticado pela imprensa brasileira exibe cada detalhe de carniça sensacionalista para ávidos leitores, hipnotizados pelo mistério e pela esperança de um desfecho milagroso.

Duas coisas devem ser comentadas sobre o que está ocorrendo neste momento em uma série de redações canarinhas:

1. Nesta busca pela headline mais impactante, quanto esforço está sendo colocado para cutucar a ferida daqueles que estão num momento difícil? Será o mesmo esforço que o jornalista está fazendo para entender laudos técnicos que virão a seguir para não ficar repetindo termos como grooving, reversor ou transponder, entre outros repetidos de maneira vazia no passado, em um infográfico para leigos?

2. Vale mesmo a pena correr atrás da melhor headline em detrimento de dar a notícia corretamente? Se valer, o que impede um jornalista destes de tentar comprar, por exemplo, um assessor de imprensa para que ele forneça comunicados oficiais vazios apenas para que sua equipe tenha um “furo”? Aqui vai uma notícia para vocês: não impede e eu tenho convicção que alguns colegas assessores de imprensa que já passaram por um gerenciamento de crise sério como este já receberam assédios semelhantes.

Há algo muito mais podre do que toda a coleção de discussão sobre ética em blogs elevada ao quadrado nestas fábricas de notícias. E onde há podridão, não podem faltar os urubus de plantão. Eu não desejo uma tragédia pessoal que alardeie a opinião pública na vida de ninguém, pois só quem já viu de perto sabe como lambe o beiço (ou o bico) um jornalista marrom louco pela notícia. Parafraseando os Racionais MCs, urubus filhos da puta, comedores de carniça.

Mas eu ainda não acabei. Nós aqui do time do Social Media, a turminha descolada do Twitter e dos blogs que adora uma confusão, que faz história, vira mito e revoluciona a comunicação, não somos mais do que expectadores deste showzinho sem fim, auxiliando o conteúdo da web com piadinhas de gosto duvidoso, boatos que são espalhados sem a menor noção do que está sendo provocado por ele, e, claro, a tonelada de posts para atrair paraquedistas torpes querendo fotos de cadáveres. Não é melhor em nada do que as práticas dos jornalistas descritos neste post.

Para finalizar este post grande, uma notícia a todos que esperam pela porra da lista de passageiros, como já ouvi por aí: a França não permite que se espetacularize uma notícia. Cada uma das famílias é acionada e, em geral, opta por não vincular o nome da vítima ao acidente. Lá, a imprensa respeita (ou é obrigada a respeitar) cada uma das famílias e amigos, que não podem ser importunados, tomar microfonada, nada. Como a empresa é francesa, tal qual uma boa parte das vítimas deste voo, investiga-se lá e respeita-se as regras de lá. Se alguém mencionar algum tipo de lei para fazer o mesmo por aqui, provavelmente vai ter que ouvir muita ladainha sobre censura, ditadura e liberdade de imprensa. Que me desculpem os colegas comunicadores e me chamem de direitista, eu opto pelo bom senso.

Desejo força aos familiares e amigos das vítimas e um caloroso abraço aos amigos jornalistas sérios que querem os fatos e que ajudaram com as informações deste post."

.. daqui.

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