terça-feira, 21 de julho de 2009

Pão bolorento...

Ele queria aquela vida pra ele. Nem sob tortura diria isso, é claro; precisava manter a fama de quem vive bem fazendo o que todo homem deseja e inveja: comer quem bem lhe aprouvesse, na hora que quisesse.


Aquela era a noite de jantar na casa do amigo. Seu melhor amigo, se dá pra dizer que homem tem dessas coisas. Gostava mesmo do cara. E também adorava acasa dele, a mulher dele, os filhos dele. Da vida dele. E dele. Mas, é claro também, não pretendia dizer isso nunca.
Era um gostar que passava longe da inveja, da ziquizira. Estava mais pro suspiro de satisfação diante de uma sobremesa gostosa. Era um alento saber que existia uma relação com o que ela implica-- mulher, família, contas, empregadas, vícios-- e que, ainda assim, deixava espaço para amigos e boa bebida.
Ligou avisando que chegaria antes da hora marcada (tinha cancelado um compromisso), mas que não precisavam acelerar o jantar: queria brincar com as crianças. Adorava crianças apesar de não ter nenhuma, mais por falta de vontade de lidar com a inevitável mãe delas do que pelo trabalho e dedicação que exigem. Tinha os filhos do amigo e isso já era bom.
Tocou a campainha. Deu um beijo na mulher do amigo, entrou. Deixou o vinho tinto (presente) sobre a mesa e foi direto pra sala bancar o animador de festa infantil. Enquanto rolava pelo chão entre brinquedos e almofadas, torturando os pequenos com cócegas, conversava com ela. Era maravilhosa. Bem humorada, inteligente, sarcástica, bonita e mãe -como uma mulher só poderia reunir tanta coisa boa? Ela contrariava a lei universal da média cinco: as gostosas eram imbecis e as legais eram demônios. Era mesmo um sortudo aquele sacana.
A porta da frente fechou e deu pra ouvir o barulho da chave batendo na mesinha. O amigo chegou, meio cansado por causa do trânsito, meio puto por causa do trabalho, meio alegre por poder tirar os sapatos e desabotoar a calça. Dá oi pra todo mundo, beijo na mulher e vai pra geladeira pegar alguma coisa pra beber: o calor senegalês daquele verão estava um horror.
Já devidamente instalados no sofá, começam, os três, a conversar. O assunto não importava muito: estavam ali pra passar tempo com quem gostavam. Reclamaram de dinheiro, sacanearam alguns ausentes, questionaram o talento de algum guitarrista. Mas era um tal de vai e volta da cozinha até o risoto ficar pronto, que dava tontura acompanhar o senta e levanta.
Pronto, ficou. Toca pra lá de novo.
Encheram a cara, riram, viram as crianças se babarem com a comida. Bom saber que alguém nesse mundo tinha um relacionamento longo, fiel. E olha que o amigo poderia ter feito o diabo se quisesse: não era só ele no casal que tinha todos aqueles atributos citados (só não ser mãe). Já nem lembrava há quanto tempo estavam juntos, do mesmo jeito que não lembrava ter conhecido casal tão unido, apesar das brigas que, fatalmente, rolavam. Puta sorte a deles.
De repente, parou de prestar atenção na conversa, mesmo participando com algum comentário eventual. Tinha algo errado com o amigo. Apesar dos costumeiros movimentos agitados e falar ininterrupto, alguma peça parecia fora de lugar. Sabe-se lá, poderia ser só uma impressão errada trazida pelo álcool.
Não, não era.
Ah, devia ser. Ele jamais faria besteira com aquela mulher ou aquela família. Com aquela vida. Jamais colocaria em risco aquilo tudo.

O álcool é mesmo uma merda: nos faz duvidar da sanidade até de quem conhecemos a encarnações. Se tinha certeza de algo na vida, era a de que ele nunca colocaria em risco aquilo tudo. O risoto estava ótimo. Como sempre.
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(Ailin Aleixo)

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