quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mulher detesta receber livro de presente...

“Some daqui”, ela disse a ele aos gritos. Ela sabia gritar. Era uma coisa tão natural nela como andar, ou dançar, ou cozinhar, ou pintar, ou ler, ou escrever. Moravam juntos fazia um ano, e ela o estava mandando embora de casa. Não funcionara, e ponto. Ele não tentou dissuadi-la em parte porque sabia ser impossível, e em parte também porque sabia que a história deles fora à falência como um daqueles bancos de investimentos americanos apanhados pela grande crise financeira de 2008. Em amores falidos quanto menos conversa houver melhor. Os diálogos costumam apenas aprofundar a dor e a raiva.

Quando decidiram morar juntos, depois de um namoro curto de cinco meses, um projetava grandes expectativas no outro. Um romance saudável não combina com expectativas elevadas: a frustração costuma ser letal. Espere pouco de um caso de amor e as chances de ele florescer são, paradoxalmente, maiores. Eles esperaram muito um do outro, e depois se culparam mutuamente pela decepção.

No final, o que restara de bom fora, apenas, a vida sexual.. Ele não conseguia se deitar ao lado dela na cama sem querer possuí-la. Parecia um feitiço. Ele gostava dos sons dela no sexo, dos gemidos suaves e constantes. Gostava do cheiro dela, do contorno delicado de seu corpo miúdo e bem feito. Do jeito de fechar e de abrir os olhos quando ele estava por cima dela. Gostava da expressão dela quando ficava sobre ele. Uma vez a fotografara assim e depois dera à foto o nome de Orgasmo Poltersgeist. Ela se sentia lisonjeada com o fascínio sexual que exercia sobre ele. Poucas sensações elevam tanto uma mulher quanto a de saber que é desejada. Mas o sexo bom apenas retarda o fim de uma história de amor, não o evita.


“Uma vez você falou que me dava orgasmos como ninguém”, ela disse na conversa final com ele. “Você achava que isso era suficiente. Mas não. Orgasmo uma mulher pode ter com um vibrador. Um casamento é muito mais que uma fábrica de orgasmos. Um casamento é feito fora da cama, não nela. Um casamento se constrói quando estamos de pé, e não deitados.”


Ele riu sozinho. Essa frase dela lembrou a ele uma tirada clássica de Churchill, o líder inglês da Segunda Guerra. “Sente-se em vez de ficar de pé, se você pode. E se deite em vez de ficar sentado, se der.” De Churchill ele se lembrava de outra tirada clássica. Uma mulher dissera a ele, numa festa da aristocracia inglesa, que poria veneno na sua bebida se fosse casada com ele. Churchill replicara que se fosse marido dela tomaria o veneno alegremente.


Ela tinha um vibrador, guardado na gaveta de calcinhas. Comprara pela internet para evitar o embaraço da compra pessoal. Homens se sentem constrangidos ao comprar preservativos, e mulheres sentem o mesmo ao comprar vibrador. Ele viu no vibrador - rosa, delicado, efeminado até, mas eficiente em suas cinco fases de vibração - um competidor. De uma forma estranha ele preferia que, se era para ter orgasmos sem ele, que fosse com outro homem e não com uma maquininha cor de rosa. A aquisição se fizera no final do casamento.

“Você não me enxergava nem nos presentes que dava para mim”, ela disse ao despedi-lo. Olhou para uma esstante cheia de livros que ele lhe dera. Uma mistura exótica e desconexa de letras. Greene, Llosa, Confúcio, Roth, Updike. “Você sabe que eu adoro ler. Ter um bom livro nas mãos me dá um prazer quase sexual.” No momento ela estava lendo A Menina Má, de Llosa. Vagava lenta e com atenção extrema pelas linhas e pelas páginas de Llosa. Ele dizia nos bons tempos, brincando, que ela era sua menina má.

“Mas. Porém. No entanto.” A cada palavra a voz dela subia de tom. “Caraca. Será que você nunca vai entender que mulher detesta receber livro de presente?”


Os amantes que iniciam uma guerra talvez subam aos céus nas reconciliações sexuais, mas inapelavelmente descerão ao inferno para daí não mais saírem, miseravelmente derrotados. O inferno só vai terminar com o fim da relação. Acabado o romance, se o homem e a mulher estiverem inteiros, o máximo que conseguirão dizer de tantas coisas que viveram juntos é: sobrevivi. E não será pouco. Porque muita gente não sobrevive. Digo fisicamente mesmo. Um dos destinos clássicos da guerra amorosa, como na guerra convencional, é o caixão. Uma imagem que trago perene na mente é a do sangue numa calçada em que um casal desvairadamente apaixonado se matou com uma faca. Eu jamais soube quem pegou primeiro a faca. Ou quem morreu primeiro. O fato é que ambos saíram mortos daquela que seria sua última briga.

Eu falei acima do teste. Em casais que decidam testar a tese bélica da revista americana. Mas errei. A guerra no amor, como a globalização, não é escolha. É destino. Os tambores já começam a rufar, anunciando a guerra, quando certos homens e certas mulheres nem trocaram ainda o olhar de flerte. Pode ser que ele, o homem, tenha sido, em todos os outros relacionamentos, tão pacífico quanto uma ovelha tibetana. E ela também. Mas, ao se encontrarem, por alguma química estranha, os exércitos se mobilizam. E não demora muito para que alguém aperte o gatilho.


É o amor neurótico em ação. O amor neurótico é generoso como nenhum outro tipo de amor: proporciona momentos inigualáveis, sobretudo no sexo. E é também cruel como um cossaco russo. (Meu tio Fábio, falecido homem sábio do interior, é que me contava que não havia nada tão cruel quanto um cossaco russo. Jamais conferi a veracidade histórica dessa afirmação, mas confio integralmente na sabedoria de meu tio.) Céu e inferno, inferno e céu.

Uma característica essencial no amor neurótico é que você pega o pacote todo ou não pega nada. Não dá pra ficar com a parte boa e desprezar a ruim. Infelizmente, é impossível ter sexo com alta nota na escala Pacino - Diabo e, ao mesmo tempo, assistir de mãos dadas à novela das 8 comendo pipoca. A fraternidade é uma impossibilidade científica no amor neurótico.

Uma outra característica vital do amor neurótico é que, no princípio o êxtase predomina sobre a fúria. Há muito céu e pouco inferno. Cada vez mais no inferno, cada vez menos céu. Você mal acredita que um dia as coisas andaram tão bem, tão destruidora a relação se tornou. É tempo de encerrar. Isto é, se você ainda estiver vivo para cair fora. Eu quase iria dizendo, pueril e inutilmente: fuja, fuja do amor neurótico enquanto há tempo. Mas não adianta: você é capturado muito antes de se dar conta de que se trata de um amor neurótico. Então termino dizendo apenas a quem está vivendo ou vai viver uma paixão dessas: boa sorte.
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(Fábio Hernandez)

Um comentário:

Vanessa Souza Moraes disse...

Eu detesto é receber flor de presente.

Livros são meu presente favorito.