quarta-feira, 1 de abril de 2009

Você é uma farsa...

Eu também. No fundo todos somos. Não há nada de errado nisso.
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A sensação provavelmente não lhe é estranha: por mais que você faça bem o seu trabalho e seja reconhecido pelo talento que tem, não é incomum a insegurança bater à porta. Ela costuma ser tão freqüente que você chega a estranhar se não vier. Nessa hora você inveja aqueles caras focados, firmes, que sempre sabem o que querem…peraí. Será? Ou será que esses caras são praticamente os mesmos que você despreza por serem recheados de clichês, chavões, frases feitas e soluções prontas?
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Uma característica do processo criativo que você dificilmente ouvirá da boca de “profissionais de sucesso” é que a insegurança é parte do processo. Uma das mais importantes, aliás. O motivo para isso é de uma lógica cristalina: se você está inseguro é porque não tem certezas. Se não tem certezas é porque o caminho proposto não foi trilhado por muita gente. Se não o foi é porque é novo. Simples assim. Em outras palavras, é impossível ter certeza que uma idéia criativa faça sucesso. Muitas vezes, aliás, elas nos surpreendem.
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Uma das características mais difíceis de se lidar em profissões ligadas ao hemisfério direito do cérebro é que elas são baseadas em padrões e conexões, não em regras. Não existe, nem creio que algum dia existirá, a fotografia ou ilustração que sejam absolutamente “certas”. Elas podem ter a técnica correta, mas qualquer peça de comunicação ou arte demanda mais do que isso. A própria idéia que possa existir o absolutamente certo para formas de expressão soa bastante ridícula – além de ser uma baita coisa de Nerd.
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Quando se trata de comunicação e expressão, a técnica não costuma ser difícil. Muito pelo contrário, é comum ela ser o primeiro passo em busca de algo maior. A gramática é fundamental para a compreensão da estrutura de uma língua, mas seu conhecimento não é o suficiente para transformar professores de Português em poetas. Da mesma forma, os aplicativos de design são bastante importantes, mas não fundamentais. A técnica e a criação são processos completamente diferentes. A primeira garante certezas, a segunda é responsável pelas variações.
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Um bom exemplo das diferenças entre esses tipos de processos está nas relações humanas. Quantas vezes você não viu casais “perfeitos” se desfazerem ou pessoas que tiveram a educação “correta” desandarem? Só quem acredita na eficácia de livros de cantadas que pode duvidar disso. E esses são os mais ridículos.
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Em outras palavras, a incerteza é parte fundamental do raciocínio criativo. É ela que promove o desequilíbrio e o questionamento fundamentais para que se fazer coisas novas. Por mais que nossa civilização ocidental tenha uma quedinha por absolutos sólidos, vale lembrar que o desequilíbrio é muito mais natural. Graças à relação dinâmica entre estados estáveis e instáveis que é possível andar, dançar, patinar ou esquiar. São as diferenças de contraste visual que tornam os objetos visíveis, diferenças de tom que fazem a música e transmitem emoção em cada discurso. Quem não é capaz de notar essas nuances costuma ter um problema sério (e bastante incômodo) de percepção.
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Da mesma forma, o excesso de opções, sem regras, não é sinal de liberdade, mas de descontrole. Todas as atividades humanas – ou pelo menos todas as que podemos considerar criativas ou artísticas – dependem de uma boa negociação entre regra e exceção. Grandes artistas costumam conhecer muito bem a técnica antes de pensar como (ou se) vão quebrar regras, e o que pretendem com isso.
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Um bom designer deve, portanto, conhecer a fundo as ferramentas que usa. Mas também deve, antes mesmo de chegar perto delas, pensar bastante no que pretende conseguir com elas. Sem uma boa pergunta, a maioria das respostas tende a ser fraca. Nesse processo, saber dosar a insegurança é fundamental.
Sem ela, não se evolui. Se ela for excessiva, também não.
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(Luli Radfahrer)

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