segunda-feira, 23 de março de 2009

Os primeiros 10%...

"Uma das características mais marcantes de quem está em começo de carreira é uma enorme pressa. Pressa em aprender todas as técnicas, pressa em montar um portfólio, pressa em arranjar um emprego, pressa em sair da faculdade, pressa em “acontecer”, pressa, pressa, pressa, pressa… mas pra que tanta pressa? Poucos sabem, mas mesmo assim continuam a ter pressa. Afinal de contas o Pelé, aos 17, já era campeão mundial. O Michael Phelps, aos 15, já tinha mais medalhas que o Brasil. Segundo essa linha apressada, se você não “virou” antes dos 25, já era.
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Essa lógica, além de perversa, não faz o menor sentido. Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?
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Você pode até argumentar que em criação é diferente, mas está errado. Marcello Serpa, Alexandre Gama e Nizan Guanaes estão na faixa dos 50 anos, Washington Olivetto na dos 60 – junto com Chico, Caetano e Gil. Os fundadores da DPZ ainda estão ativos, com bem mais de 70. E o que dizer do Niemeyer, nosso highlander da arquitetura?
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A pressa, já dizia a sua avó, é inimiga da perfeição. Nunca se viveu tanto e nunca se trabalhou por tanto tempo. Quando eu era criança, “velho” era quem tinha 40 anos. Hoje é preciso ter umas duas décadas ou três a mais. Do jeito que a tecnologia avança, não é preciso ser otimista para acreditar que você certamente viverá mais de 100 anos – se não for fumante, claro. Também não é difícil acreditar que você dificilmente se aposentará antes de ter completado seus 80 e estiver com a cabeça bem cheia de cabelos brancos. Em uma vida tão longa, os primeiros vinte por cento são claramente desprezíveis: eles são o período de aprendizado, em que o profissional está se formando para encarar umas seis boas décadas de maratona. Aquele que largar desesperado dificilmente terá fôlego para chegar longe.
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Apesar das bobagens faladas pelos livros e revistas de auto-ajuda executiva, você não se aposentará antes dos quarenta. Nem que tenha ganho um, dez ou cem milhões de euros. O trabalho é a atividade intelectual que nos mantém vivos e ativos, por mais que não gostemos dele. Mesmo que você não precise do salário, trabalhará pelo prazer de ver idéias acontecerem, de interagir com pessoas, de criar coisas. Vestir o pijama é jogar a toalha, e é isso que tanto deprime os desempregados, muito mais do que a falta de dinheiro.
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Dê uma busca nos nomes que você ouviu terem ficado milionários antes do estouro da bolha das empresas pontocom e provavelmente descobrirá que todos estão trabalhando. Pesado. Os donos do Google batem ponto todos os dias, emesmo o Bill Gates chamou de “aposentadoria” o que muitos chamariam de mudança de emprego. Para um trabalho mais puxado, vale ressaltar. O que ele faz em sua ONG não tem expediente nem final de semana, muito pelo contrário. Mesmo aquele capitalista mais nojento, tipo Donald Trump, com todos seus aviões e banheiros com torneiras de ouro, não é visto de chinelos em praias tropicais, mas de terno em salas de reunião. Se é assim, em quem você se espelha com toda essa pressa? Se não vai parar de trabalhar, pra que a correria?
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Hoje em dia quem tem 26 anos acabou de completar os primeiros 10% de sua carreira. Aos 40, terá chegado a um terço dela. A metade só chegará quando ele chegar à meia-idade. Nem mesmo quando ele chegar aos setenta poderá dizer que o fim está próximo. A não ser que aconteça alguma guerra ou pandemia, a expectativa de vida no meio do século XXI pode ser bem maior do que se imagina hoje.
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A experiência faz bem. Quem arranja o primeiro emprego em uma empresa grande não tem tempo de treinar. Quando fizer uma besteira – e todos fazem besteiras o tempo todo, não se iluda – será mais visível e frágil. Quem vira chefe rápido, rapidamente será enganado por seus subordinados, trapaceado por seus colegas ou preterido em uma futura promoção. Quem ganha dinheiro fácil e rápido costuma gastá-lo ainda mais rápido e com mais facilidade, como se vê facilmente em muito jogador de futebol, pagodeiro, apresentador de TV, modelo/atriz, participante do Big Brother ou ganhador da MegaSena.
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Antes de sair correndo desembestadamente e gastar toda a sua energia, gaste alguns minutos para perceber aonde está e para onde pretende ir. Não se pode seguir vários caminhos ao mesmo tempo e são poucos os que realmente valem a pena. Estude o máximo que você puder, porque o mundo está cada vez menor e cada vez mais difícil de enganar.
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A vida não é fácil. Quem diz que é, mente ou está ainda mais perdido que você. Como diria um filósofo Zen, “ao caminhar, apenas ande”. Concentre-se no que pretende fazer, como pretende ser reconhecido, aonde pretende chegar daqui auns 20 anos. E leve 20 anos para chegar lá. Se conseguir o que quer em 18 anos, estará no lucro. Se chegar em 5, provavelmente definiu a meta errado. Ou chegou ao lugar errado.
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Ninguém duvida que o Jobs que criou o iPhone é muito melhor do que o Steve que fundou a Apple. O primeiro mudou o mercado, o segundo foi demitido. Por mais que você acredite estar com “vinte e tantos” anos, saiba que o prefixo “vinte” não admite o complemento “tantos”. Isso é coisa para quem tem trinta ou quarenta. Nessa idade, só se tem “vinte e qualquer coisa”.
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É a melhor época da vida para se experimentar e errar – pode ir tranqüilo, ninguém está de olho em você.
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(Luli Radfahrer)

Um comentário:

Rogério Wong disse...

Tá ficando viciado em Luli, só discordo dos músicos Chico, Caetano e Gil, eram melhores mais novos (minha opinião), mas também havia todo aquele contexto da ditadura...

Inté mais Rogério Wong