terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

As portas da percepção...

A função do cérebro e do sistema nervoso é, principalmente, eliminativa e não produtiva. Cada um de nós é capaz de lembrar-se, a qualquer momento, de tudo o que já ocorreu conosco, bem como de se aperceber de tudo o que está acontecendo em qualquer parte do universo.
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A função do cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos, impedindo que sejamos esmagados e confundidos por essa massa de conhecimentos (fluxo de informações, uma vez que a realidade é multidimensional), na sua maioria inúteis e sem importância, eliminando muita coisa de que, de outro modo, deveríamos perceber ou recordar constantemente, e deixando passar apenas aquelas poucas sensações selecionadas que, provavelmente terão utilidade na pratica.
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De acordo com tal teoria, cada um de nós possui, em potencial, a Onisciência.
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Mas, visto que somos animais, o que mais nos preocupa é viver a todo custo. Para tornar possível a sobrevivência biológica, a torrente de Onisciência tem de passar pelo estrangulamento da válvula redutora que são nosso cérebro e sistema nervoso. O que consegue coar-se através desse crivo é um minguado fio de conhecimento que nos auxilia a conservar a vida na superfície deste singular planeta.
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Para formular e exprimir o conteúdo dessa sabedoria limitada, o homem inventou, e aperfeiçoa incessantemente, esses sistemas de símbolos com suas filosofias implícitas a que chamamos idiomas.
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Cada um de nós é, a um só tempo, beneficiário e vítima da tradição lingüística dentro da qual nasceu – beneficiário porque a língua nos permite acesso aos conhecimentos acumulados oriundos da experiência de outras pessoas; vítimas, porque isso nos leva a crer que esse saber limitado é a única sabedoria que está a nosso alcance; e isso subverte nosso senso da realidade, fazendo com que encaremos essa noção como a expressão da verdade e nossas palavras como fatos reais.
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Aquilo que, na terminologia religiosa recebe o nome de “este mundo” é apenas o universo de saber reduzido, expresso e como que petrificado pela limitação dos símbolos. Os vários “outros mundos” com os quais os seres humanos entram esporadicamente em contato não passam, na verdade, de outros tantos elementos componentes da ampla sabedoria inerente a Onisciência.
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A maioria das pessoas, durante a maior parte do tempo, só toma conhecimento daquilo que passa através da válvula de redução e que é considerado genuinamente real pelo idioma de cada um. No entanto, certas pessoas parecem ter nascido com uma espécie de desvio que invalida essa válvula redutora (médium?!).
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Em outras, o desvio pode surgir em caráter temporário, seja espontaneamente, seja como resultado de “exercícios espirituais” voluntários, do hipnotismo ou da ingestão de drogas.
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Mas o fluxo de sensações que percorre esse desvio, seja ele permanente ou temporário, não é suficiente para que alguém se aperceba de “tudo o que esteja ocorrendo em qualquer lugar do universo” (uma vez que o desvio não destrói a válvula de redução, que ainda impede que se escoe por ela toda a torrente de Onisciência), embora possibilite a passagem de algo mais – e sobretudo diferente – do que aquelas sensações utilitárias, cuidadosamente selecionadas, que a estreiteza de nossas mentes considera uma imagem completa (ou, no mínimo, suficiente) da realidade.
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(...) Esses efeitos da mescalina constituem o tipo de reação que se poderia esperar de uma droga com o poder de reduzir a eficiência da válvula redutora que é o cérebro. Quando esse órgão é atingido pela carência de açúcar, o subnutrido ego se enfraquece, já não mais se pode permitir empreender suas tarefas rotineiras e perde todo o interesse por essas relações de tempo e espaço que possuem tão grande valor para um organismo preocupado com a vida neste mundo.
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Assim que a Onisciência vence a barreira daquela válvula, começam a ocorrer toda as espécies de fatos desprovidos de utilidade biológica. Em certos casos, poderão dar-se percepções extra-sensoriais. Outros podem descobrir um mundo de visionária beleza. Ainda outras tem a revelação da glória, do infinito valor e significação da existência primeva, do fato objetivo e não conceituado.
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No estagio final de despersonalização, há uma “obscura noção” de que TUDO está em todas as coisas – de que TUDO é, em verdade, cada coisa (A Realidade é um todo orgânica, entretanto, a mente é analítica e racional, instrumentos que partem dos universais para os particulares, restringindo sua seara de observação e análise, não podendo compreender o todo, o fluxo de informações que a Realidade É).
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Isso é, no meu entender, o maximo a que uma mente finita pode alcançar em “aperceber-se de tudo que está acontecendo em qualquer parte do universo”.
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A esse respeito, quão significativa é a enorme ampliação da percepção das cores sob o efeito da mescalina! A mescalina aviva consideravelmente a percepção de todas as cores e torna o paciente a distinguir as mais sutis diferenças de matiz que, sob condições normais, ser-lhe-iam totalmente imperceptíveis. Poder-se-ia que, para a Onisciência, os chamados caracteres secundários das coisas seriam os principais.
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Tal como ocorre com os consumidores de mescalina, muitos místicos percebem cores de uma intensidade preternatural, não só em seu mundo interior como também no das coisas objetivas que os rodeiam.
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Como conciliar essa percepção aguçada com uma justa preocupação pelas relações humanas, com os deveres e tarefas inadiáveis, para não mencionar a caridade e a piedade atuantes? A velha disputa entre ativos e contemplativos estava sendo renovada – renovada, creio eu, com uma violência sem precedentes. Pois, até aquela manhã, eu só conhecera a contemplação sob suas formas mais humildes e encontradiças – a divagação do pensamento; a arrebatada abstração na poesia, na poesia, na pintura ou na musica; a paciente espera pela inspiração, sem a qual mesmo o mais prosaico escritor não pode pretender realizar alguma coisa; como vislumbres acidentais da natureza “de algo muito mais profundamente interligado”, no dizer de Wordsworth; como silencio sistemático que, leva por vezes, à noção de um “obscuro saber”. Mas desta feita, conheci a contemplação em sua pujança.
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Em sua pujança sim, mas não em toda sua plenitude.
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A mescalina nos permite chegar a contemplação, mas a uma contemplação que é incompatível com a ação e até mesmo com a vontade de agir, com a própria idéia de ação.
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Nos intervalos entre suas revelações, quem toma mescalina é capaz de sentir que, embora de certo modo tudo tenha a sublimidade que devera ter, por outro lado há nisso qualquer coisa de errado.
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Seu problema é, essencialmente, o mesmo que se defronta o eremita, o arfoat e, em outro plano, o paisagista e o pintor de retratos inanimados.
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A mescalina jamais poderá resolver tal problema, servirá apenas para situá-lo, em termos obscuros, para aqueles aos quais ele jamais se apresentou.
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Sua solução plena e definitiva só poderá ser encontrada por quem esteja preparado para reforçar a verdadeira “visão do mundo” por meio do comportamento adequado e de uma vigilância constante, natural e apropriada.
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Ao eremita se opõe o contemplativo-ativo, o santo, o homem que, na frase de Eckhart, está pronto a descer do sétimo céu para levar de beber a seu irmão doente.
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Ao arhat (Iluminado que, em silencio permanece após sua iluminação) refugiando-se do mundo exterior em um Nirvana inteiramente transcendental, opõe-se ao Boddhisattva (Iluminado que, por compaixão, começa a falar) para quem a Peculiaridade e o mundo das contingências são uma mesma coisa, e para cuja piedade sem limites, a cada uma dessas contingencias correspondem outras tantas oportunidades, não só para meditações transfiguradoras, como para também praticar a caridade objetiva.
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O contemplativo-passivo deixa de fazer muitas coisas que teria de realizar, mas para se dispor a uma tal atitude, ele precisa abster-se de praticar uma serie de ações que não deveriam ser levadas a efeito. O mal, acentuou Pascal, seria muito diminuído se os homens aprendessem a permanecer serenamente em seus aposentos. Mas o contemplativo cuja percepção haja sido esclarecida, não precisará permanecer cerrado em seus aposentos. Poderá sair para seus afazeres, tão perfeitamente satisfeito em contemplar e em ser uma parte da divina Ordem das Coisas, que nunca ver-se-á tentado a entregar-se ao que Traherme chamou de “impuros Artifícios do mundo”. Quando nos sentimos como se fossemos os únicos herdeiros do universo, quando o “mar corre em nossas veias (...) e as estrelas são nossas jóias”, quando todas as coisas parecem infinitas e sagradas, que motivos poderemos ter para a cobiça e a soberba, para a fonte de poder ou para as formas mais doentias de prazer?
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Os contemplativos não são propensos a se tornarem jogadores, alcoviteiros ou ébrios; não são levados ao roubo ou à opressão dos fracos. E, essas grandes virtudes negativas, podemos ainda acrescentar outra que, embora difícil de definir, não só é importante como também positiva.
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O arhat e o contemplativo sereno podem não praticar a contemplação em sua plenitude, mas mesmo assim nos poderão proporcionar informações esclarecedoras sobre outra e transcendente região da mente.
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E, se praticarem-na com elevação, tornar-se-ão condutos através dos quais poderá advir uma certa influência benéfica, dessa região ignota, para um mundo de personalidades atormentadas, em constante agonia por falta deste auxilio..
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Conclui-se perfeitamente, à luz dos documentos e rituais religiosos, bem como dos monumentos da poesia, das artes plásticas que chegaram até nós, que, na maioria das épocas e dos lugares, os homens tem atribuido maior importância a suas visões interiores que as coisas objetivas que conhecem. Tem julgado que o que vêem, quando de olhos cerrados, possui maior importância espiritual que o visto a luz do dia. Qual a razão para isso?
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A familiaridade gera indiferença, e o problema da sobrevivência é de uma premência que vai da tediosa rotina à tortura. É para o mundo exterior que abrimos os olhos todas as manhãs, é nele que, de bom ou mau grado, temos de procurar viver.
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No mundo interior não há trabalho nem monotonia. Visitamo-lo apenas vez ou outra, em sonhos e devaneios. Que há, pois, de espantoso, em preferirem os seres humanos, via de regra, olhar para dentro de si mesmos em busca do sublime?
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Isso, de fato, sucede como regra geral, mas não necessariamente: não somente em sua religião, como também em sua arte, os Taoístas e os Zen Budistas procuravam ir além de suas visões, ao encontro e através do Vazio, até as “dez mil coisas” da realidade objetiva.
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Graças a sua doutrina da Palavra tornada carne (O Cristo), poderiam os cristãos, desde o inicio, adotar uma atitude semelhante com relação ao universo que os circundava. Mas, em razão da doutrina do Pecado Original, viram-se em grande dificuldade para fazê-lo. Há apenas trezentos anos, uma expressão de completa fuga do mundo e mesmo de sua condenação, era não só ortodoxa como também compreensível: “Nada há na natureza que mereça nossa admiração, a não ser a encarnação de Cristo”. No século XVII, essa frase de Lallemant parecia ter sentido.
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Hoje, encontramos nela a aura da demência.
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Parece extremamente improvável que a humanidade, de modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e tem estado sempre entre os principais apetites da alma. A arte e a religião, os carnavais e os saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, de portas na muralha. E há na vida individual, para uso cotidiano, sempre houve drogas inebriantes.
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Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem de frutos ou raízes, todos, sem exceção, são conhecidos e vem sendo sistematicamente empregados pelos seres humanos, desde tempos imemoriais. E a esses modificadores naturais de percepção, a ciência moderna adicionou sua cota de produtos sintéticos - o cloral, a benzedrina, os brometos e os barbituratos.
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A maior parte dessas substancias não pode ser atualmente adquirida, a não ser mediante prescrição medica ou então ilegalmente e com graves riscos. O Ocidente só permite o uso irrestrito do fumo e do álcool. Todas as outras portas químicas na muralha são rotuladas como estupefacientes e seus consumidores ilegais são viciados.
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Gastamos, hoje em dia, muito mais em cigarro e bebidas que em educação. E não há nada surpreendente nesse fato. O impulso para fugir a nós mesmos e ao que nos rodeia está presente em cada um de nós, quase todo o tempo.
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O estimulo para fazer algo pelas crianças só é forte nos pais, e, mesmo neles, tão-somente durante os poucos anos de vida escolar de seus filhos. Do mesmo modo, não nos surpreende a atitude geral com relação ao fumo e a bebida.
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A despeito das legiões sempre crescente de alcoólatras inveterados, das centenas de milhares de pessoas que são anualmente mortas ou mutiladas por motoristas embriagados, os humoristas populares ainda armam situações jocosas em torno do álcool e a dos que a ele se entregam. E, a despeito das provas ligando o cigarro ao câncer de pulmão, praticamente todo mundo encara o habito de fumar como algo quase tão normal e natural quanto comer.
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Do ponto de vista do racionalista utilitário, isto pode parecer estranho, mas, para o versado em historia, não seria de esperar outra coisa.
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Jamais a inabalável convicção na existência do Inferno conseguiu evitar que os cristãos fizessem aquilo que lhes sugeria a ambição, a luxúria ou a cobiça. O câncer pulmonar, os acidentes de trafego e os milhões de criaturas miseráveis e criadoras de miséria em razão do alcoolismo são realidades ainda mais positivas que o Inferno no tempo de Dante. Mas tudo isso é remoto e secundário, se comparado com a realidade vivida e presente de uma ânsia por serenidade e liberdade, por um cigarro ou uma taça.
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Os problemas criados pelo álcool e pelo tabaco não podem ser – e isso não admite contestação – resolvidos pela proibição. O impulso universal e permanente para a autotranscendência não pode ser dominado pelo simples fechar das solicitadas portas na muralha.
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A única política razoável seria abrir outras portas melhores, na esperança de induzir os seres humanos a trocar seus velhos maus hábitos por praticas novas e menos prejudiciais. Algumas dessas novas portas seriam de natureza social e tecnológica, outras religiosas ou psicológicas, e outras mais seriam dietéticas, atléticas e educacionais.
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É difícil, é quase sempre impossível falar de fatos mentais, a não ser por meio de analogias tomadas de empréstimo ao universo que nos é mais familiar.
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(Resumo: As portas da percepção. Aldous Huxley)

Um comentário:

divian disse...

Quero agradecer Guilherme por este excerto de informação, realmente são muitas as barreiras que o homem cria ao homem,... bom saber que existe quem procure a verdade, e a tente mostra-la aos outros