sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O louco...

Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim...

...Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:

"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:

-- "É um louco!"

Olhei para cima, pra vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras.

E, como num transe, gritei:

"Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura.

E a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

(Khalil Gibran)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Come as you are...

Ando de um lado para o outro do carpete manchado. Tenho horror a quarto de hotel, por mais estrelas que tenha. Sempre esse carpete que ataca a minha rinite. E as manchas. Tenho horror a manchas. Porra, sangue, cuspe, vômito. Nunca sei o que elas são. As pessoas que já passaram por ali. E agora eu, limpinha, tenho que sentar na vida, sentar no mundo. E virar parte desse mistério e desse passado e de possíveis sujeiras. E lembrar que é tudo a mesma merda. Eu e todo o resto. Não é minha casa, é só uma vidinha emprestada.
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O foda é dormir em paz em vidinhas emprestadas.Ando de um lado para o outro, repensando se devo ou não. É tão simples. Ligo lá pra baixo, peço um táxi, o táxi chega, informo a rua, chego no bar, sou engraçada por quarenta minutos, pego carona com ele pra voltar pro hotel, faço charme quando ele me pede pra subir, acabo deixando, falo pra ele do meu nojo de manchas, ele tira barato da minha cara, pergunta se eu quero deixar a minha mancha, eu digo que pode ser, ele me agarra, eu fecho os olhos e sou absolutamente feliz e me sinto absolutamente viva, a gente dorme juntos morrendo de ressaca. No dia seguinte ele me dá um selinho e pede que eu me cuide (homem sempre diz essa merda). Eu choro no avião de vontade de amar e ser amada. Depois dou risada porque acabo sempre preferindo essa vidinha emprestada cheia de manchas. Amar é para os grandes, eu sou essa coisinha mesmo.
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Ando de um lado para o outro. Vou ou não? A gente troca e-mails há mais de cinco anos. Ele já acompanhou todos os meus começos e términos de namoro mais significantes. Ele sabe de todos os meus medos e sonhos estranhos. E porque ele está no terceiro ano de medicina e tem aulas de psicologia, ele me conta todos os segredos que eu não entendo e nem nunca vou usar. Ele tem 56 teorias para o meu pânico de vomitar. Eu acredito em todas elas. Ele é a cara do Kurt Cobain, pelo menos é o que parece nas fotos meio esfumaçadas e mal tiradas que ele me manda.
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Ele tem uma pastinha no computador dele, com as minhas melhores seis fotos de todos os tempos. Ele me acha a cara da Débora Secco. Que bela dupla de idiotas nós somos. Mas é bom ser idiota.
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Passo meses deletando ele de todos os possíveis meios de comunicação. Pra que quero ficar alimentando esse papo furado com um garoto mais novo e de outra cidade? Pra quê? Depois, num desses dias desiludidos e chatíssimos, o resgato. A gente se fala os maiores absurdos. Os maiores. Temos a teoria, por exemplo, do filho virtual que fizemos em algum universo paralelo. De tanta sacanagem que falamos.
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Eu sou a Débora Secco vers ão escritora famosa de São Paulo. Na ilusão dele. Ele é o Kurt Cobain com inteligência de doctor House e abdômen de ator pornô. Na minha ilusão. Ele namora há 456 anos com uma garota que parece um traveco, de tão bonita. Eu namoro 456 rapazes e nenhum deles completa um ano na minha vida. Eu digo que é porque sou insuportável. Ele diz que é porque sou uma devoradora de guris. Adoro a versão dele.
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Ando de um lado para o outro. Não posso. Não posso me levar até aquele bar e estragar tudo. Eu adoro ser a Débora Secco versão escritora famosa de São Paulo. Pelo menos em algum lugar do mundo eu sou incrível. Pelo menos naquela cidadezinha esquecida do Sul, eu sou uma escritora famosa e linda de doer. E impossível. E inalcançável. E eterna. E jamais louca, jamais ao lado da cama até perder a graça. Jamais cansativa. Para o Kurt eu jamais vou apodrecer, perder o doce. Eu estou além da vi da e da rotina. E controlo o tempo do sucesso e da paixão. Ele não me vê com fome, dor de barriga ou vontade de chorar. Eu simplesmente não posso me levar até aquele bar e estragar tudo.
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Chega uma mensagem dele. Ele já está lá. Me esperando. Há meia hora. O Kurt com sua barriga tanquinho e seu charme de doctor House está lá. E ainda com sotaque gaúcho. Promete ser o sexo da minha vida. Promete ser a noite da minha vida. Vou amar esse homem como nunca amei nada na vida. Penso isso e quase ligo lá pra baixo e peço um táxi. Mas não posso fazer isso com o Kurt. Não posso transformá-lo em mais um garoto gemendo, roncando, sorrindo amarelo e indo embora. Não posso transformar o homem mais incrível do mundo em mais uma mancha de vidinhas emprestadas de quartos de hotel. Não agüento mais que absolutamente tudo seja sempre a mesma merda de sempre.
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Durmo sozinha comendo um lanche no jento da cozinha do hotel. O edredom tem uma mancha asquerosa. Mas em algum lugar do mundo eu sou a pessoa mais incrível do mundo. E olha que quem pensa isso é o melhor homem do mundo.
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(Tati Bernardi)

domingo, 23 de novembro de 2008

Ewige Wiederkunft

Eterno retorno é um conceito filosófico formulado por Friedrich Nietzsche. Em alemão o termo é Ewige Wiederkunft. Uma síntese dessa teoria é encontrada em Gaia Ciência:
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"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
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O velho Friedrich afirmava na teoria do Eterno Retorno, em linhas gerais que, partindo-se do princípio de que o Universo é eterno e que a matéria existente é finita (na verdade, Nietzsche falava em “forças”), então, após um período de tempo absurdamente grande, quando a matéria tiver esgotado todas as possibilidades de combinação, ela terá que se recombinar exatamente da forma como está neste instante, de modo que em algum momento
no futuro, eu estarei escrevendo a mesma coisa e você lerá exatamente isso que escrevi.
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Ele Fala da ordem das coisas. Ele nos mostra como o Mundo não é feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma -- múltipla, mas única -- realidade. Logo, bem e mal, angústia e prazer, são instâncias complementares da realidade - instâncias que se alternam eternamente. Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado), a alternância nunca finda. Ou seja, considerando-se o tempo infinito e as combinações de forças em conflito que formam cada instante finitas, em algum momento futuro tudo se repetirá infinitas vezes. Assim, vemos sempre os mesmos fatos retornarem indefinidamente.
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A pergunta que o conceito do Eterno Retorno nos faz é: amamos ou não amamos a vida? Se tudo retorna - o prazer, a dor, a angústia, a guerra, a paz, a grandeza, a pequenez -- se tudo torna, isto é um dom divino ou uma maldição? Amamos a vida a tal ponto de a querermos, mesmo que tivéssemos que vivê-la infinitas vezes sem fim? Sofrendo e gozando da mesma forma e com a mesma intensidade? Seríamos capazes de amar a vida que temos - a única vida que temos - a ponto de querer vivê-la tal e qual ela é, sem a menor alteração, infinitas vezes ao longo da eternidade?
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A pergunta que Nietzsche quer que nos façamos é: amamos mesmo a vida? Se soubéssemos que sofreríamos tudo de novo, inúmeras vezes, gostaríamos mesmo de voltar? É lógico e simples responder isso quando acabamos de passar no Vestibular, ou quando voltamos de uma festa com amigos lindos. Mas será que responderíamos a mesma coisa ao perder uma mãe ou pai? Ao ser traído pelo grande amor?
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Temos tal amor ao nosso destino? - Eis a grande indagação que é o Eterno Retorno.

sábado, 22 de novembro de 2008

O nível do ser humano...

Há alguns anos, um buscador aproximou-se de um Mestre da Arte Real (um verdadeiro Místico) e perguntou-lhe:

- Mestre, gostaria muito de saber por que razão os seres humanos guerreiam-se e por que não conseguem entender-se, por mais que apregoem estar buscando a Paz e o entendimento, por mais que apregoem o Amor e por mais que afirmem abominar o ódio.

- Essa é uma pergunta muito séria. Gerações e gerações a têm feito e não se conseguiu uma resposta satisfatória, por não se darem conta de que tudo é uma questão de nível evolutivo. A grande maioria da Humanidade do Planeta Terra está vivendo atualmente no nível 1. Muitos outros, no nível 2 e alguns outros no nível 3. Essa é a grande maioria. Alguns poucos já conseguiram atingir o nível 4, e pouquíssimos o nível 5, raríssimos o nível 6 e somente de mil em mil anos aparece algum que atingiu o nível 7.

- Mas, Mestre, que níveis são esses?

- Não adiantaria nada explicá-los, pois além de não entender, também, logo em seguida, você os esqueceria e também a explicação. Assim, prefiro levá-lo numa viagem mental para realizar uma série de experimentos e aí, tenho certeza, você vivenciará e saberá exatamente o que são esses níveis, cada um deles, nos seus mínimos detalhes.

Colocou então as pontas de dois dedos na testa do consulente e, imediatamente, ambos estavam em outro local, em outra dimensão do Espaço e do Tempo. O local era uma espécie de bosque e, um homem se aproximava deles. Ao chegar mais perto, disse-lhe o Mestre:

- Dê-lhe um tapa no rosto

- Mas por quê? Ele não me fez nada...

- Faz parte do experimento. Dê-lhe um tapa, não muito forte, mas dê-lhe um tapa!

E o homem aproximou-se mais do Mestre e do consulente. Este, então, chegou até o homem, pediu-lhe que parasse e, sem nenhum aviso, deu-lhe um tapa que estalou. Imediatamente, como se fosse feito de mola, o desconhecido revidou com uma saraivada de socos e o consulente foi ao chão, por causa do inesperado do ataque.

Instantaneamente, como num passe de mágica, o Mestre e o consulente já estavam em outro lugar, muito semelhante ao primeiro e outro homem se aproximava. O Mestre, então comentou:

- Agora, você já sabe como reage um homem do nível 1. Não pensa. Age mecanicamente. Revida sem pensar. Aprendeu a agir dessa maneira e esse aprendizado é tudo para ele, é o que norteia sua vida, é sua "muleta". Agora, você testará da mesma maneira o nosso companheiro que vem ai, do nível 2.

Quando o homem se aproximou, o consulente pediu que parasse e lhe deu um tapa. O homem ficou assustado, olhou para o consulente, mediu-o de cima a baixo e, sem dizer nada, revidou com um tapa, um pouco mais forte.

Instantaneamente, já estavam em outro lugar muito semelhante ao primeiro.

- Agora você já sabe como reage um homem do nível 2. Pensa um pouco, analisa superficialmente a situação, verifica se está à altura do adversário e aí, então, revida. Se se julgar mais fraco, não revidará imediatamente, pois irá revidar à traição. Ainda é carregado pelo mesmo tipo de "muleta" usada pelo homem do nível 1. Só que analisa um pouco mais as coisas e fatos da vida. Entendeu? Repita o mesmo com esse que vem chegando.

A cena repetiu-se. Ao receber o tapa, o homem parou, olhou para o consulente e assim falou:

- O que é isso, moço?... Mereço uma explicação, não acha? Se não me explicar direitinho por que razão me bateu, vai levar uma surra! Estou falando sério!

- Eu e o Mestre estamos realizando uma série de experimentos e este experimento consta exatamente em fazer o que fiz, ou seja, bater nas pessoas para ver como reagem.

- E querem ver como reajo?

- Sim. Exatamente isso...

- Já reparou que não tem sentido?

- Como não? Já aprendemos ótimas lições com as reações das outras pessoas. Queremos saber qual a lição que você irá nos ensinar...

- Ainda não perceberam que isso não faz sentido? Por que agredir as pessoas assim, gratuitamente?

- Queremos verificar - interferiu o Mestre - as reações mais imediatas e primitivas das pessoas. Você tem alguma sugestão ou consegue atinar com alguma alternativa?

- De momento, não me ocorre nenhuma. De uma coisa, porém, estou certo: esse teste é muito bárbaro, pois agridem os outros. Estou realmente muito assustado e chocado com essa ação de vocês, que parecem pessoas inteligentes e sensatas. Certamente deverá haver algo menos agressivo e mais inteligente. Não acham?

- Enfim - perguntou o buscador - como você vai reagir? Vai revidar? Ou vai nos ensinar uma outra maneira de conseguir aprender o que desejamos?

- Já nem sei se continuo discutindo com vocês, pois acho que estou perdendo meu tempo. São dois malucos e tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar conversando com dois malucos. Afinal, meu tempo é precioso demais e não vou desperdiçá-lo com vocês. Quando encontrarem alguém que não seja tão sensato e paciente como eu, vão aprender o que é agredir gratuitamente as pessoas. Que outro, em algum lugar, revide por mim. Não vou nem perder meu tempo com vocês, pois não merecem meu esforço... São uns perfeitos idiotas... Imagine só, dar tapas nos outros... Besteira... idiotice... falta do que fazer... E ainda querem me convencer de que estão buscando conhecimento... Picaretas! Isso é o que vocês são! Uns picaretas! Uns charlatães!

Imediatamente, aquela cena apagou-se e já se encontravam em outro lugar, muito semelhante a todos os outros. Então, o Mestre comentou:

- Agora você já sabe como age o homem do nível 3. Gosta de analisar a situação, discutir os pormenores, criticar tudo, mas não apresenta nenhuma solução ou alternativa, pois ainda usa as mesmas "muletas" que os outros dois anteriores também usavam. Prefere deixar tudo "pra lá", pois "não tem tempo" para se aborrecer com a ação, que prefere deixar para os "outros".

É um erudito e teórico que fala muito, mas que age muito pouco e não apresenta nenhuma solução para nenhum problema, a não ser a mais óbvia e assim mesmo, olhe lá... É um medíocre enfatuado, cheio de erudição, que se julga o "Dono da Verdade", que se acha muito "entendido" e que reclama de tudo e só sabe criticar. É o mais perigoso de todos, pois costuma deter cargos de comando, por ser, geralmente, portador de algum diploma universitário em nível de bacharel (mais outra "muleta") e se pavoneia por isso.

Possui instrução e muita erudição. Já consegue ter um pouquinho mais de percepção das coisas, mas é somente isso. Ainda precisa das "muletas" para continuar vivendo, mas começa a perceber que talvez seja melhor andar sem elas. No entanto, por "preguiça vital" e simples falta de força de vontade, prefere continuar a utilizá-las. De resto, não passa de um medíocre enfatuado que sabe apenas argumentar e tudo criticar. Vamos agora saber como reage um homem do nível 4. Faça o mesmo com esse que aí vem.

E a cena repetiu-se. O caminhante olhou para o buscador e perguntou:

- Por que você fez isso? Eu fiz alguma coisa errada? Ofendi você de alguma maneira? Enfim, gostaria de saber por que motivo você me bateu. Posso saber?

- Não é nada pessoal. Eu e o Mestre estamos realizando um experimento para aprender qual será a reação das pessoas diante de uma agressão imotivada.

- Pelo visto, já realizaram este experimento com outras pessoas. Já devem ter aprendido muito a respeito de como reagem os seres humanos, não é mesmo?

- É... Estamos aprendendo um bocado. Qual será sua reação? O que pensa de nosso experimento? Tem alguma sugestão melhor?

- Hoje vocês me ensinaram uma nova lição e estou muito satisfeito com isso e só tenho a agradecer por me haverem escolhido para participar deste seu experimento. Apenas acho que vocês estão correndo o risco de encontrar alguém que não consiga entender o que estão fazendo e revidar a agressão. Até chego a arriscar-me a afirmar que vocês já encontraram esse tipo de pessoa, não é mesmo? Mas também se não corrermos algum risco na vida, nada jamais poderá ser conseguido em termos de evolução. Sob esse ponto de vista, a metodologia experimental que vocês imaginaram é tão boa como outra qualquer. Já encontraram alguém que não entendesse o que estão a fazer e igualmente reações hostis, não é mesmo? Por outro lado, como se trata de um aprendizado gostaria muito de acompanhá-los para partilhar desse aprendizado. Aceitaria-me como companheiro de jornada? Gostaria muito de adquirir novos conhecimentos. Posso ir com vocês?

- E se tudo o que dissemos for mentira? E se estivermos mal-intencionados? - perguntou o Mestre - Como reagiria a isso?

- Somente os loucos fazem coisas sem uma razão plausível. Sei muito bem distinguir um louco de um são e, definitivamente, tenho a mais cristalina das certezas de que vocês não são loucos. Logo, alguma razão vocês deverão ter para estarem agredindo gratuitamente as pessoas... Essa razão que me deram é tão boa e plausível como qualquer outra. Seja ela qual for, gostaria de seguir com vocês para ver se minhas conjecturas estão certas, ou seja, de que falaram a verdade e, se assim for, compartilhar da experiência de vocês. Enfim, desejo aprender cada vez mais, e esta é uma boa ocasião para isso. Não acham?

Instantaneamente tudo se desfez e logo estavam em outro ambiente, muito semelhante aos anteriores. O Mestre assim comentou:

- O homem do nível 4 já está bem distanciado e se desligando gradativamente dos afazeres mundanos. Já sabe que existem outros níveis mais baixos e outros mais elevados e está buscando apenas aprender mais e mais para evoluir, para tornar-se um sábio. Não é, em absoluto, um erudito (embora até mesmo possa possuir algum diploma universitário) e já compreende bem a natureza humana para fazer julgamentos sensatos e lógicos. Por outro lado, possui uma curiosidade muito grande e uma insaciável sede de conhecimentos. E isso acontece porque abandonou suas "muletas" há muito pouco tempo, talvez há um mês ou dois. Ainda sente falta delas, mas já compreendeu que o melhor mesmo é viver sem elas.

Dentro de muito pouco tempo, só mais um pouco de tempo, talvez mais um ano ou dois, assim que se acostumar, de fato, a sequer pensar nas "muletas", estará realmente começando a trilhar o caminho certo para os próximos níveis. Mas vamos continuar com o nosso aprendizado. Repita o mesmo com este homem que aí vem, e vamos ver como reage um homem do nível 5.

O tapa estalou.

- Filho meu... Eu bem o mereci por não haver percebido que estavas necessitando de ajuda. Em que te posso ser útil?

- Não entendi... Afinal, dei-lhe um tapa. Não vai reagir?

- Na verdade, cada agressão é um pedido de ajuda. Em que te posso ajudar, filho meu?

- Estamos dando tapas nas pessoas que passam, para conhecermos suas reações. Não é nada pessoal...

- Então, é nisso que te posso ajudar? Ajudar-te-ei com muita satisfação pedindo-te perdão por não haver logo percebido que desejas aprender. É meritória tua ação, pois o saber é a coisa mais importante que um ser humano pode adquirir. Somente por meio do saber é que o homem se eleva. E se estás querendo aprender, só tenho elogios a te oferecer. Logo aprenderás a lição mais importante que é a de ajudar desinteressadamente as pessoas, assim como estou a fazer com vocês neste momento. Ainda terás um longo caminho pela frente, mas se desejares, posso ser o teu guia nos passos iniciais e te poupar de muitos transtornos e dissabores. Sinto-me perfeitamente capaz de guiar-te nos primeiros passos e fazer-te chegar até onde me encontro. Daí para diante, faremos o restante do aprendizado juntos. O que achas da proposta? Aceitas-me como teu guia?

Instantaneamente a cena se desfez e logo se viram em outro caminho, um pouco mais agradável do que os demais, e o Mestre assim se expressou:

- Quando um homem atinge o nível 5, começa a entender que a Humanidade em geral, digamos, o homem comum, é como uma espécie de adolescente que ainda não conseguiu sequer se encontrar e, por esse motivo, como todo e qualquer bom adolescente, é muito inseguro e, devido a essa insegurança, não sabe como pedir ajuda e agride a todos para chamar atenção sobre si mesmo e pedir, então, de maneira velada e indireta, a ajuda de que necessita. O homem do nível 5 possui a sincera vontade de ajudar e de auxiliar a todos desinteressadamente, sem visar vantagens pessoais. É como se fosse uma Irmã Dulce ou uma Madre Teresa de Calcutá da vida. Sabe ser humilde e reconhece que ainda tem muito a aprender para atingir níveis evolutivos mais elevados. E deseja partilhar gratuitamente seus conhecimentos com todos os seres humanos. Compreende que a imensa maioria dos seres humanos usa "muletas" diversas e procura ajudá-los, dando-lhes exatamente aquilo que lhe é pedido, de acordo com a "muleta" que estão usando ou com o que lhes é mais acessível no nível em que se encontram. A partir do nível 5, o ser humano adquire a faculdade de perceber em qual nível o seu interlocutor se encontra. Agora, dê um tapa nesse homem que aí vem. Vamos ver como reage o homem do nível 6.

E o buscador iniciou o ritual. Pediu ao homem que parasse e lançou a mão ao seu rosto. Jamais entenderá como o outro, com um movimento quase instantâneo, desviou-se e a sua mão atingiu apenas o vazio.

- Meu filho querido! Por que você queria ferir-se a si mesmo? Ainda não aprendeu que agredindo os outros, você estará agredindo a si mesmo? Você ainda não conseguiu entender que a Humanidade é um organismo único e que cada um de nós é apenas uma pequena célula desse imenso organismo? Seria você capaz de provocar, deliberadamente, em seu corpo um ferimento que vai doer muito e cuja cicatrização orgânica e psíquica vai demorar muito e causará muito sofrimento inútil?

- Mas estamos realizando um experimento para descobrir qual será a reação das pessoas a uma agressão gratuita.

- Por que você não aprende primeiro a amar? Por que, em vez de dar um tapa, não dá um beijo nas pessoas? Assim, em lugar de causar-lhes sofrimento, estará demonstrando Amor. E o Amor é a Energia mais poderosa e sublime do Universo... Se você aprender a lição do Amor, logo poderá ensinar Amor para todas as outras células da Humanidade, e tenho a mais concreta certeza de que, em muito pouco tempo, toda a Humanidade será um imenso organismo que distribuirá Amor por todo o Planeta e daí, por extensão, emitirá vibrações de Amor para todo o Universo. Eu amo a todos como amo a mim mesmo. No instante em que você compreender isso, passará a amar a si mesmo e a todos os demais seres humanos da mesma maneira e terá aprendido a Regra de Ouro do Universo: Tudo é Amor! A vida é Amor! Nós somos centelhas de Amor! E por tanto amar você, jamais poderia permitir que você se ferisse, agredindo a mim. Se você ama uma criança, jamais permitirá que ela se machuque ou se fira, porque ela ainda não entende que se agir de determinada maneira perigosa irá ferir-se e irá sofrer. Você a ampararia, não é mesmo? Você deverá aprender, em primeiro lugar a Lição do Amor, a viver o Amor em toda a sua plenitude, pois o Amor é tudo e, se você está vivo, deve sua vida a um Ato de Amor. Pense nisso, medite muito sobre isso. Dê Amor gratuitamente. Ensine Amor com muito Amor e logo verá como tudo a seu redor vai ficar mais sublime, mais diáfano, pois você estará flutuando sob os influxos da Energia mais poderosa do Universo, que é o Amor. E sua vida será sublime...

Instantaneamente, tudo se desfez e se viram em outro ambiente, ainda mais lindo e repousante do que este último em que estiveram. Então o Mestre falou:

- Este é um dos níveis mais elevados a que pode chegar o Ser Humano em sua senda evolutiva, ainda na Matéria, no Planeta Terra. Um homem que conseguiu entender o que é o Amor, já é um Homem sublime, inefável e quase inatingível pelas infelicidades humanas, pois já descobriu o Começo da Verdade, mas ainda não a conhece em toda a sua plenitude, o que só acontecerá quando atingir o nível 7. Logo você descobrirá isso. Dê um tapa nesse homem que aí vem chegando.

E o buscador pediu ao homem que parasse. Quando seus olhares se cruzaram, uma espécie de choque elétrico percorreu-lhe todo o corpo e uma sensação mesclada de amor, compaixão, amizade desinteressada, compreensão, de profundo conhecimento de quase tudo que se relaciona à vida e um enorme sentimento de extrema segurança encheu-lhe todo o seu ser.

- Bata nele! - ordenou o Mestre.
- Não posso, Mestre, não posso...

- Bata nele! Faça um grande esforço, mas terá que bater nele! Nosso aprendizado só estará completo se você bater nele! Faça um grande esforço e bata! Vamos! Agora!

- Não, Mestre. Sua simples presença já é suficiente para que eu consiga compreender a futilidade de lhe dar um tapa. Prefiro dar um tapa em mim mesmo. Nele, porém, jamais!

- Bate-me - disse o Homem com muita firmeza e suavidade - pois só assim aprenderás tua lição e saberás finalmente porque ainda existem guerras na Humanidade.

- Não posso... Não posso...Não tem o menor sentido fazer isso...

- Então - tornou o Homem - já aprendeste tua lição. Quem, dentre todos em quem bateste, a ensinou para ti? Reflete um pouco e me responde.

- Acho que foram os três primeiros, do nível 1 ao 3. Os outros apenas a ilustraram e a complementaram. Agora compreendo o quão atrasados eles estão e o quanto ainda terão que caminhar na senda evolutiva para entender esse fato. Sinto por eles uma compaixão muito profunda. Estão de "muletas" e não sabem disso. E o pior de tudo é que não conseguem perceber que é até muito simples e muito fácil abandoná-las e que, no preciso instante em que as abandonarem, começarão a progredir. Era essa a lição que eu deveria aprender?

- Sim, filho meu. Essa é apenas uma das muitas facetas do Verdadeiro Aprendizado. Ainda terás muito que aprender, mas já aprendeste a primeira e a maior de todas as lições. Existe a Ignorância! - volveu o Homem com suavidade e convicção - Mas ainda existem outras coisas mais que deves ter aprendido. O que foi?

- Aprendi também que é meu dever ensiná-los para que entendam que a vida está muito além daquilo que eles julgam ser muito importante - as suas "muletas" - e também sua busca inútil e desenfreada por sexo, status social, riquezas e poder. Nos outros níveis, comecei a entender que para se ensinar alguma coisa para alguém é preciso que tenhamos aprendido aquilo que vamos ensinar. Mas isso é um processo demorado demais, pois todo mundo quer tudo às pressas, imediatamente...

- A Humanidade ainda é uma criança, mal acabou de nascer, mal acabou de aprender que pode caminhar por conta própria, sem engatinhar, sem precisar usar "muletas". O grande erro é que nós queremos fazer tudo às pressas e medir tudo pela duração de nossas vidas individuais. O importante é que compreendamos que o tempo deve ser contado em termos cósmicos, universais. Se assim o fizermos, começaremos, então, a entender que o Universo é um organismo imenso, ainda relativamente novo e que também está fazendo seu aprendizado por intermédio de nós - seres vivos conscientes e inteligentes que habitamos planetas disseminados por todo o espaço cósmico. Nossa vida individual só terá importância mesmo, se conseguirmos entender e vivenciar este conhecimento, esta grande Verdade: - Somos todos uma imensa equipe energética atuando nos mais diversos níveis energéticos daquilo que é conhecido como Vida e Universo, que, no final das contas, é tudo a mesma coisa.

- Mas sendo assim, para eu aprender tudo de que necessito para poder ensinar aos meus irmãos, precisarei de muito mais que uma vida. Ser-me-ão concedidas mais outras vidas, além desta que agora estou vivendo?

- Mas ainda não conseguiste vislumbrar que só existe uma única Vida e tu já a estás vivendo há milhões e milhões, nos mais diversos níveis? Tu já foste energia pura, átomo, molécula, vírus, bactéria, enfim, todos os seres que já apareceram na escala biológica. E tu ainda és tudo isso. Compreende, filho meu, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

- Mas mesmo assim, então não terei tempo, neste momento atual de minha manifestação no Universo, de aprender tudo o que é necessário ensinar aos meus irmãos que ainda se encontram nos níveis 1, 2 e 3.

- E quem o terá jamais, algum dia? Mas isso não tem a menor importância, pois tu já estás a ensinar o que aprendeste nesta breve jornada mental. Já aprendeste que existem 7 níveis evolutivos possíveis aos seres humanos, aqui, agora, neste Planeta Terra.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sabedoria...

"Um homem deve decidir livremente entre casar ou ficar solteiro; afinal, vai terminar se arrependendo do mesmo jeito." (Sócrates)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Por hoje...

Após subidas e descidas percebes o quão importante é uma amizade
Depois de mentiras e verdades, aprende-se que não se pode brincar
O que se passa a dois não deve ser publicado ou explicado
Apenas vive-se, sente-se, ama-se… por hoje

Faz bem para o ego uma procura entre duas mulheres
Mas faz mal para a cabeça sentimentos tão diferentes
De uma lado a companhia perfeita, de outro o sentimento perfeito
É mais do que claro a indecisão de viver, sentir e amar… por hoje

Não venha perguntar quem é quem, qual é qual
Apenas é… na sua forma mais simples e única
Problemas, discussões, sentimentos, medos
Amizade, companheirismo, presença, carinho… por hoje

E assim se passam dias
E em alguns momentos o tempo para
Em outros voa
E nesse encontro de ventos se forma um furacão… por hoje

Corpo, mente, alma
Todos convergindo para um único ponto
E ao mesmo tempo divergindo para tantos
E nisso, o universo fica em desequilibro… por hoje

Somos responsáveis por toda essa confusão
Como se diz, estamos colhendo o que plantamos
E percebemos quais foram as sementes que foram plantadas
Em cada terreno, uma forma hibrida de vida… por hoje

Teatro, soul, reggae, pop
Tons, destonando as vidas
Dando um tom ao coração
Virtualmente real… por hoje

Nesses milhões de milisegundos
Os triangulos se formam em quadrados
A vida se entregando a sorte
O impossivel se tornando em paz… por hoje

Quando cai o pano, tudo se apresenta
O talento em manipular, falta para amar
Um tanto bem maior do que recriar
Talento provado e aprovado… por hoje

És o pranto ao avesso
Presente e atravessada
Teu cuidado e tua maneira
Essa é a nossa sina… por hoje

Tanta pressa, tanta calma
Tanto medo, tanta certeza
Tanto tudo, tanto nada
Tanto ontem, tanto hoje… por hoje

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sabe-se...

Sabe-se lá
Sabe-se cá
Mas eu não sei,
Talvez soubesse
Queria mesmo é te saber
Mas realmente,
Eu não sei.

Sabia-me lá,
Queria-te aqui.
Talvez pudesse
Queria mesmo é teu sabor
Mas possivelmente,
Eu sonhei.

Não sei
Sou teu,
Só teu,
Mas estou só!
Só em mim.

Por isso...
Sabia-te em mim
Sofria-me em ti
Sabia-me lá
Seus lábios enfim
Teria mesmo que te querer
Certamente por ser assim,
E ternamente
Só teu
Só tu
Sou eu

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A vida...

"A vida as vezes nos mostra algo,
que não entendemos no ato,
mas com certeza no futuro entenderemos,
então não adianta o desespero antecipado,
pois sempre haverá uma explicação
para tudo que passamos.
Eu vivo a minha verdade,
então, o que espera pra viver a sua?"

(Cigano das Almas)

domingo, 2 de novembro de 2008

Poetisa-doceira...

..."Gente que
passa indiferente,
olha de longe,
na dobra
das esquinas,
as traves que
despencam.
- Que vale para
eles o sobrado?..."

(Cora Coralina)