sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Medo...

Por que você quer sair do medo? Ou você ficou com medo do medo?
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Se você tem medo do medo, isto é um novo medo. É assim que a mente vai criando o mesmo padrão sempre, repetidamente. Eu digo: "Não deseje e então você chegará ao divino.". Então, você pergunta: "Realmente, se não desejarmos, então, chegaremos ao divino?" - você já começou a desejar o divino.
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Eu lhe digo "se há medo, o amor não pode existir", então, você fica com medo do medo. Você pergunta: "Como a pessoa pode sair do medo?". Isto é novamente um medo, e mais perigoso do que o primeiro medo, porque o primeiro era natural; o segundo é antinatural. E é tao sutil, que você não percebe o que está perguntando - como sair do medo?
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A questão não é sair de nada: a questão é somente de compreensão. Compreenda o medo, o que ele é, e não tente sair dele, porque, no momento em que você começa a tentar sair de qualquer coisa, você não está pronto para compreender aquilo - porque a mente que pensa sair, já está fechada. Ela não está aberta para compreender, ela não é solidária. Ela não pode contemplar quietamente; ela já decidiu. Agora o medo se tornou o mal, o pecado, então saia dele.
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Não tente sair de nada.
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Tente compreender o que o medo é. E, se você tem medo, então, aceite-o. Ele existe. Não tente escondê-lo. Não tente criar o oposto. Se você tem medo, então você tem medo. Aceito isso como parte do seu ser. Se você puder aceitá-lo, ele já desapareceu. Através da aceitação, o medo desaparece: através da negação, ele aumenta.
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Você chega a um ponto onde você sabe que tem medo, e você compreende o seguinte: "Por causa deste medo, o amor não pode acontecer a mim. Então, tudo bem, o que eu posso fazer? O medo existe, então, somente uma coisa acontecerá - eu não fingirei amor. Ou, eu direi à minha amada ou ao meu amado, que "é por causa do medo que eu me estou me agarrando a você". Lá no fundo estou com medo. Serei franco quanto a isso; não mais enganarei ninguém, nem a mim mesmo. Eu não fingirei que isto é amor. Eu direi que é simplesmente medo. Por causa do medo, eu me agarro a você. Por causa do medo, eu vou ao templo, ou à igreja, e oro. Por causa do medo, eu me lembro de Deus. Mas, então, eu sei que aquilo não é oração, aquilo não é amor, aquilo é somente medo. Eu tenho medo, então, seja o que for que eu faça, ele está presente. Aceitarei esta verdade.".
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Um milagre acontece quando você aceita a verdade. A própria aceitação o transforma. Quando você sabe que há medo em seu ser e você não pode fazer nada sobre isso, o que você pode fazer? Tudo que você pode fazer é fingir, e os fingimentos podem ir ao extremo, ao outro extremo.
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Um homem muito medroso pode ser tornar um homem muito bravo. Ele pode criar uma armadura ao seu redor. Ele pode se tornar um atrevido temerário, só para mostrar aos outros que ele não tem medo. E, se ele puder enfrentar o perigo, ele pode se enganar que não tem medo. Mas até um homem mais corajoso tem medo. Toda a sua bravura está apenas em derredor; lá no fundo, ele treme. Para não ficar ciente disso, ele salta para dentro do perigo. Ele se torna engajado com o perigo, de modo a não ter consciência do medo, mas o medo está presente.
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Você pode criar o oposto, mas isso não vai mudar nada. Você pode fingir que não tem medo - isso, novamente, não muda nada. A única transformação que pode acontecer é você tornar-se simplesmente ciente de que: "Eu tenho medo. Todo meu ser está tremendo e, seja o que for que eu faça, é devido ao medo.". Você se tornou verdadeiro para si mesmo.
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Então, você não tem medo do medo. Ele está presente, é uma parte sua; nada pode ser feito sobre isso. Você tem de aceitá-lo. Agora você não finge, agora você não engana ninguém, nem a si mesmo. A verdade está aí, e você não tem medo dela. O medo começa a desaparecer, porque uma pessoa que não tem medo de aceitar seu medo, tornou-se destemida - esse é o mais profundo destemor que é possível. Ela não criou o oposto, então, não há nenhuma dualidade nela. Ela aceitou o fato. Ela ficou humilde diante disso. Ela não sabe o que fazer - ninguém sabe - e nada pode ser feito, mas ela parou de fingir: parou de usar máscaras, faces. Ela se tornou autêntica em seu medo.
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Essa autenticidade e esse destemor para aceitar a verdade, transforma-o. E, quando você não finge, não cria um falso amor, não cria uma ilusão ao seu redor, não se torna uma pessoa de mentira, você se tornou autêntico. Nesta autenticidade, o amor surge: o medo desaparece, o amor surge. Esta é a alquimia interna de como o amor surge.
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Agora, você pode amar. Agora, você pode ter compaixão, solidariedade. Agora, você não depende de ninguém, porque não há nenhuma necessidade. Você aceitou a verdade. Não há nenhuma necessidade de depender de ninguém; não há necessidade de possuir e ser possuído. Não há nenhum anseio pelo outro. Você se aceita - através desta aceitação, o amor surge. Ele preenche seu ser. Você não tem medo do medo, você não está tentando se livrar dele. Simplesmente ele desaparece quando aceito.
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Aceite seu ser autêntico e você será transformado. Lembre-se disto: aceitabilidade, total aceitabilidade, é a chave mais secreta do tantra. Não rejeite nada. Através da rejeição, você ficará aleijado. Aceite tudo - seja o que for. Não condene isso, e não tente escapar disso. Há muitas coisas implicadas nisso. Se você tentar se livrar disso, você terá de cortar seu ser em departamentos, em fragmentos, em partes. Você ficará aleijado. Quando você joga fora uma coisa, alguma outra coisa também é jogada fora com ela - a outra parte dela - e você fica aleijado. Então, você não é total. E você não pode ser feliz, a menos que seja total e íntegro. Ser íntegro é ser santo. Ser fragmentado é ser incompleto e enfermo.
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Assim, eu direi: tente compreender o medo. A existência deu-o a você. Deve haver algum significado profundo, e deve haver algum tesouro escondido, então, não o jogue fora. Nada lhe é dado sem algum significado. Nada existe dentro de você que não possa ser usado numa sinfonia mais elevada, numa síntese mais elevada.
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Tudo o que existe em você, quer você compreenda ou não, pode se tornar um degrau. Não pense nisso como uma barreira: permita que se torne um degrau. Você pode tomá-lo como algo que impede a caminhada - não é impedimento. Se você puder andar sobre isso, se você puder usá-lo, firmar-se sobre isso, uma nova visão do caminho lhe será revelada num nível mais elevado. Você será capaz de olhar fundo na possibilidade, no futuro, na potencialidade. (...)
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Mas, se você tentar esconder o medo, destruí-lo, criar o oposto dele, você ficará divido e se tornará fragmentado, desintegrado. Aceite o medo e use-o. E, no momento em que você sabe que você o aceitou, ele desaparece. Tente pensar: se você aceita seu medo, onde ele está?
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Um homem veio a mim e disse: "Eu tenho muito medo da morte.". Ele tinha câncer, e a morte estava perto; a qualquer dia, ela podia acontecer. E ele não podia adiá-la. Ele sabia que ela ia acontecer. Dentro de meses, ela estaria ali - ou até mesmo dentro de semanas.
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Ele estava verdadeiramente, físicamente e literalmente tremendo. Ele disse: "Me dê apenas uma coisa: como eu posso sair deste medo da morte? Me dê um mantra, ou alguma coisa que possa me proteger e me dê coragem para encarar a morte. Eu não quero morrer tremendo de medo.". O homem disse: "Eu já estive em muitos santos. Eles me deram muitas coisas. Eles foram muito gentis. Um me deu um mantra, outro me deu umas cinzas sagradas, outro me deu seu retrato, alguém me deu alguma outra coisa, mas nada ajudou. Tudo em vão. Agora, eu vim até você como o último recurso. Agora não irei a mais ninguém. Dê-me alguma coisa. Então, eu lhe disse: "Contudo, você não percebe. Por que você está pedindo algo? - só para sair do medo? Nada ajudará. Eu não posso lhe dar nada. Ademais, como os outros se provaram fracassos, eu também me provarei um fracasso. E eles deram-lhe algo porque não sabiam o que estavam fazendo. Eu só posso dizer uma coisa para você: aceite o fato. Trema, se tremer estiver presente - o que fazer? A morte existe, e você sente um tremor; então, trema. Não rejeite isso, não reprima. Não tente ser valente. Não há nenhuma necessidade. A morte existe. Ela é natural. Fique totalmente com medo.".
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Ele disse: "O que você está dizendo? Você não me deu nada. Ao invés, ao contrário, você diz para aceitar!". Eu disse: "Sim, aceite. Simplesmente vá e morra pacificamente com total aceitação.". Depois de três ou quatro dias ele voltou novamente, e disse: "Funciona. Eu não pude dormir por tantos dias, mas durante esses quatro dias eu dormi profundamente, porque é isso mesmo, você está certo. Ele me disse: "Você está certo. O medo existe, a morte existe, nada pode ser feito. Todos os mantras são apenas truques - nada pode ser feito.".
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Nenhum médico pode ajudar, nenhum santo pode ajudar. A morte existe, é um fato, e você está tremendo. É natural. Uma tempestade chega e todas as árvores tremem. Elas nunca vão a nenhum santo para perguntar como não tremer quando a tempestade está passando por elas. Elas nunca vão pedir um mantra para mudar isso, para protegê-las. Ela treme. É natural; é assim.
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E o homem disse: "Mas aconteceu um milagre. Agora, eu não estou com tanto medo.".
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Se você aceita, o medo começa a desaparecer. Se você rejeita, resiste, luta, você dá energia para o medo. Esse homem morreu pacificamente, destemido, sem medo, porque ele pôde aceitar o medo. Aceite o medo e ele desaparece.
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(Osho, The Book of the Secrets)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Deus...

"... dai-me continência e castidade, mas não agora." (Santo Agostinho)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Espiritualidade...

"Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade."
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?" (Walt Whitmann)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Semelhante atrai semelhante...

Somente uma pessoa amorosa, aquela que realmente é amorosa; pode encontrar o parceiro certo.

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Essa é minha observação: se você está infeliz você irá encontrar alguém também infeliz. Pessoas infelizes são atraídas pelas pessoas infelizes. E isso é bom, é natural. É bom que as pessoas infelizes não sejam atraídas pelas pessoas felizes; senão elas destruiriam a felicidade delas. Está perfeitamente bem.
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Somente pessoas felizes são atraídas pelas pessoas felizes. O semelhante atrai o semelhante. Pessoas inteligentes são atraídas pelas pessoas inteligentes; pessoas estúpidas são atraídas pelas pessoas estúpidas.
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Você encontra as pessoas do mesmo plano. Então a primeira coisa a lembrar é: um relacionamento está fadado a ser amargo se este surgiu da infelicidade. Primeiro seja feliz, seja alegre, seja festivo e então você encontrará alguma outra alma festiva e haverá um encontro de duas almas dançantes e uma grande dança irá surgir disso.
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Não peça por um relacionamento a partir da solitude, não. Assim você estará indo na direção errada. Então o outro será usado como um meio e o outro lhe usará como um meio. E ninguém quer ser usado como um meio! Cada indivíduo único é um fim em si mesmo. É imoral usar alguém como um meio.Primeiro aprenda como ser só. A meditação é um caminho para ficar sozinho.
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Se você puder ser feliz quando você está só, você aprendeu o segredo de ser feliz. Agora você pode ser feliz acompanhado. Se você é feliz, então você tem alguma coisa para compartilhar, para dar. E quando você dá, você obtém; não é de outra maneira. Assim surge uma necessidade de amar alguém. Geralmente a necessidade é de ser amado por alguém. É a necessidade errada. É uma necessidade infantil; você não está amadurecido. É uma atitude infantil.
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Uma criança nasce. Naturalmente, a criança não pode amar a mãe; ela não sabe o que é amar e ela não sabe quem é a mãe e quem é o pai. Ela está totalmente desamparada. Seu ser ainda está para ser integrado; ela ainda não está reunida. Ela é somente uma possibilidade. A mãe precisa amar, o pai precisa amar, a família precisa banhar a criança de amor. Agora ela aprende uma coisa: que todos têm que amá-la. Ela nunca aprende que ela precisa amar. Agora a criança irá crescer e se ela permanecer presa nessa atitude que todo mundo tem que amá-la, ela irá sofrer por toda sua vida. Seu corpo cresceu, mas sua mente permaneceu imatura.
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Uma pessoa amadurecida é aquela que chega a conhecer a necessidade do outro: que agora tenho que amar alguém. A necessidade de ser amado é infantil, imatura. A necessidade de amar é maturidade. E quando você está preparado para amar alguém, um belo relacionamento irá surgir; de outra maneira não.
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"É possível que duas pessoas num relacionamento sejam más uma para com a outra"? Sim, isso é o que está acontecendo por todo o mundo. Ser bom é muito difícil. Você não é bom nem para si mesmo. Como você pode ser bom para outra pessoa?Você nem mesmo ama a si próprio! Como você pode amar outra pessoa? Ame a si mesmo, seja bom para si mesmo.
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Os seus assim chamados santos têm lhe ensinado a nunca amar a si mesmo, para nunca ser bom para si mesmo. Seja duro consigo mesmo! Eles têm lhe ensinado a ser delicado para com os outros e duro para consigo mesmo. Isso é um absurdo.Eu lhe ensino que a primeira e mais importante coisa é ser amoroso para consigo mesmo. Não seja duro; seja delicado. Cuide de si mesmo. Aprenda como se perdoar, cada vez mais e novamente; sete vezes, setenta e sete vezes, setecentos e setenta e sete vezes. Aprenda como perdoar a si próprio. Não seja duro; não seja antagônico consigo mesmo. Assim você irá florescer.
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Nesse florescimento você atrairá alguma outra flor. Isso é natural. Pedras atraem pedras; flores atraem flores. Assim há um relacionamento que possui graça, que possui beleza, que possui uma bênção nele. Se você puder achar um relacionamento assim, seu relacionamento crescerá para uma oração; seu amor se tornará um êxtase e através do amor você conhecerá o que é o divino.
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Osho, Extraído de: Ecstasy: The Forgotten Language

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O perfeito amor...

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.


Mário Quintana

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Redação...

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um
substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida.


E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.


O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.


Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido
tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o
verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente.

Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do
substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar
pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sentença...

Num inquérito pela contravenção de vadiagem, que ocorreu na 5a Vara Criminal de Porto Alegre, o juiz Moacir Danilo Rodrigues proferiu a sentença que transcrevo a seguir:
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"Marco Antônio Dornelles de Araújo, com 29 anos, brasileiro, solteiro, operário, foi indiciado pelo inquérito policial pela contravenção de vadiagem, prevista no artigo 59 da Lei das Contravenções Penais. Requer o Ministério Público a expedição de Portaria contravencional.
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O que é vadiagem? A resposta é dada pelo artigo supramencionado: "entregar-se habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho..." Trata-se de uma norma legal draconiana, injusta e parcial. Destina-se apenas ao pobre, ao miserável, ao farrapo humano, curtido vencido pela vida. O pau-de-arara do Nordeste, o bóia-fria do Sul. O filho do pobre que pobre é, sujeito está à penalização. O filho do rico, que rico é, não precisa trabalhar, porque tem renda paterna para lhe assegurar os meios de subsistência. Depois se diz que a lei é igual para todos!
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Máxima sonora na boca de um orador, frase mística para apaixonados e sonhadores acadêmicos de direito. Realidade dura e crua para quem enfrenta, diariamente, filas e mais filas na busca de um emprego. Constatação cruel para quem, diplomado, incursiona pelos caminhos da justiça e sente que os pratos da balança não têm o mesmo peso.
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Marco Antônio mora na Ilha das Flores (?) no estuário do Guaíba. Carrega sacos. Trabalha "em nome" de um irmão. Seu mal foi estar em um bar na Voluntários da Pátria, às 22 horas. Mas se haveria de querer que estivesse numa uisqueria ou choperia do centro, ou num restaurante de Petrópolis, ou ainda numa boate de ipanema? Na escala de valores utilizada para valorar as pessoas, quem toma um trago de cana, num bolicho da Volunta, às 22 horas e não tem do escocês numa boate da Zona Sul e ao sair, na madrugada, dirige (?) um belo carro, com a carteira recheada de "cheques especiais", é um burguês. Este, se é pego ao cometer uma infração de trânsito, constatada a embriaguez, paga a fiança e se livra solto. Aquele, se não tem emprego é preso por vadiagem. Não tem fiança (e mesmo que houvesse, não teria dinheiro para pacumento, nem um cartão de crédito, é vadio. Quem se encharca de uísque gá-la) e fica preso. De outro lado, na luta para encontrar um lugar ao sol, ficará sempre de fora o mais fraco. É sabido que existe desemprego flagrante.
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O zé-ninguém (já está dito), não tem amigos influentes. Não há apresentação, não há padrinho. Não tem referências, não tem nome, nem tradição. É sempre preterido. É o Nico Bondade, já imortalizado no humorismo(mais tragédia que humor) do Chico Anísio. As mãos que produzem força, que carregam sacos, que produzem argamassa, que se agarram na picareta, nos andaimes, que trazem calos, unhas arrancadas, não podem se dar bem com a caneta (veja-se a assinatura do indiciado à fls. 5v.) nem com a vida.
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E hoje, para qualquer emprego, exige-se no mínimo o primeiro grau. Aliás, grau acena para graúdo. E deles é o reino da terra. Marco Antônio, apesar da imponência do nome, é miúdo. E sempre será. Sua esperança? Talvez o Reino do Céu. A lei é injusta. Claro que é. Mas a Justiça não é cega? Sim, mas o juiz não é. Por isso: Determino o arquivamento do processo deste inquérito. Porto Alegre, 27 de setembro de 1979. 1.. Moacir Danilo Rodrigues. Juiz de Direito - 5a VaraCriminal."
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(Transcrito do Suplemento Jurídico: DER/SP no 108 de 1982)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O romance não consegue ser duradouro...

“Esse momento chega para todo relacionamento. Faz parte da vida. Mais cedo ou mais tarde, o romance começa a desaparecer, e romance é um tipo de coisa que não consegue ser muito duradouro. Ele é muito excitante, quando existe, mas quando ele se vai, a pessoa se sente completamente fechada. Porque a abertura não era sua – ela era decorrente do toque romântico inicial, da emoção que sempre vem quando um relacionamento começa. Sempre que começa um relacionamento, você está cheio de esperanças. Todas essas esperanças são falsas. Mas isso não interessa naquela hora. Todos aqueles sonhos serão desfeitos, mas quem se importa? Aqueles sonhos são belos e dourados.
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E quando se está num sonho, ninguém quer ser acordado, porque acha que está sendo arrancado de seu belo mundo. Porém, mais cedo ou mais tarde, o sonho terá que terminar, ele não consegue continuar para sempre. Sonho algum jamais continua – é por isso que ele é chamado de sonho.
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Na Índia nós definimos verdade como aquilo que permanece para sempre, para sempre e para sempre. A eternidade dela é a sua essência. Aquilo que começa e termina é ‘maya’, um sonho, uma ilusão.
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Assim, todo relacionamento quando começa é belo e poético. Depois, pouco a pouco, a poesia é perdida porque você se torna familiarizado com a outra pessoa, e ela se torna familiarizada com você, de modo que a novidade já não mais existe; a sensação já não está mais ali. Nada mais existe para ser explorado; a exploração acabou. Então, você começa a viajar pelo mesmo caminho de novo, de novo e de novo. E isso cria tédio. Isso cria uma espécie de meditação transcendental. Você repete um mesmo mantra de novo, de novo e de novo.
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Nada mantém você acordado, de modo que começa a ficar sonolento, começa a se fechar. Nada existe para ver, então por que manter os olhos abertos? Nada mais existe para experienciar, então por que estar aberto? A emoção já se foi... A lua-de-mel acabou. Porém, somente assim alguma coisa significativa é possível.
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Duas possibilidades se abrem quando um relacionamento morre, quando se esfria. Uma possibilidade é você trocar de parceiro. Então você poderá viver novamente um sonho por uns poucos dias. Mas o problema surgirá de novo, de modo que essa possibilidade é apenas uma maneira de transferir o problema para depois, empurrando-o para mais adiante. Ele não será resolvido desse jeito. E isso é o que está acontecendo no ocidente.
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Escolha a parte emocionante, o início, somente a lua-de-mel. Mas isso se torna uma flutuação. Muitas pessoas entrarão em sua vida e você flutuará e sonhará. E aos poucos você verá que aqueles sonhos ocuparam toda a sua vida e nada aconteceu. Um dia se sentirá tremendamente frustrado... Essa é a abordagem mais fácil.
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No oriente nós pensamos de uma outra maneira. Nós pensamos que quando um relacionamento se esfria, este é o momento para um verdadeiro relacionamento começar. Mas então o relacionamento será uma prosa, não uma poesia. Ele será da terra, e não abstrato e do céu..
É preciso ter coragem para seguir adiante nesse processo. Assim como a primeira fase passa, a segunda também passará, lembre-se. Porque tudo o que acontece aqui é apenas uma fase passageira. Se eu lhe tivesse dito no começo que esse sonho iria terminar, você não me escutaria. Você diria, ‘Como?’ Nenhum amante escuta. E fica parecendo que a pessoa que lhe diz isso é seu inimigo. Mas agora eu lhe digo que ele passou. O segundo estágio também passará se você persistir no relacionamento.
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Se dois amantes forem impedidos de se encontrar, a primeira fase nunca terminará. Assim os amantes mais afortunados são aqueles aos quais não se permite encontrar, de maneira alguma. A primeira fase deles continua porque nada existe para desfazer o sonho de suas vidas, e assim eles podem continuar fantasiando. Uma vez que você se encontra com a pessoa, tem que caminhar sobre a terra.
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Um dia você terá que voltar para a terra. Os sonhos não podem ser o seu alimento; um alimento verdadeiro é necessário. A segunda fase também é passageira porque é muito difícil passar por ela. É muito fácil passar pela primeira porque nada lhe é exigido; não é um desafio. Na verdade você gostaria de ficar agarrado a ela. Agora, a segunda fase vai ser um grande desafio para você. Ela irá repelir, ela irá forçá-lo de todas as maneiras a abandonar o relacionamento, a mudar de parceiro e cair de novo no sonho. Essa é toda a armadilha da mente. Mas eu gostaria que você continuasse com o relacionamento.
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Lembre-se sempre que a dor é um grande estimulante e o prazer é um tranquilizante. O sofrimento ajuda mais que toda felicidade junta.
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Um simples momento de sofrimento é mais valioso do que toda uma vida de satisfação de prazeres, conforto e conveniências. Por que? Porque você quer se agarrar ao prazer. Já o sofrimento você quer jogar fora. Você gostaria de correr para longe de toda aquela coisa, de escapar para algum lugar. Mas se você der prosseguimento, uma certa integração acontecerá para você.
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E exatamente continuando com ele, permanecendo ali e não escapando nem correndo para longe, mas encarando-o, você se tornará forte. Pela primeira vez a alma surgirá em você. Você sentirá que alguma coisa se ajustou. Você não é mais simplesmente partes soltas. Todas as partes chegaram no lugar e formaram um padrão.
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Gurdjieff costumava chamar isso de o verdadeiro nascimento do ego. Antes você tinha muitos egos, muitos “Eus”. Sempre que uma pessoa está pronta para encarar um sofrimento, depois de um sonho desfeito, então esse sofrimento será tremendamente valioso. Mas você não consegue ver isso neste exato momento.
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Se você passar pelo sofrimento, você o aceitará como uma parte. Você vivia no sonho, e agora, quem vai viver, quando o sonho foi quebrado? Você vivia no palácio, agora vive nas ruinas – porque todo palácio, mais cedo ou mais tarde, torna-se uma ruina. E, quando mais cedo acontecer, melhor, porque então o desafio surge. Assim, este é o grande desafio para você.
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Passe por ele. Aceite ele também. Algumas vezes o terreno é muito áspero, algumas vezes a montanha é muito perigosa para ser escalada, algumas vezes existem momentos tristes e infelizes, e puro tédio, mas tudo isso é a vida. E a pessoa tem que vivê-la em todas as dimensões.
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Assim, a maneira mais fácil é sair do relacionamento. E logo você começa a sonhar com um outro alguém.
"Eu não quero sair do relacionamento. Ele é a melhor parte de minha vida!"
Então fique nele, deixe que esta fase passe também. Ela também passará; nada há para ser feito.
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."Sob certo sentido, o que você está dizendo é certo. Eu quero dizer, o meu caso amoroso com o Naresh é bom, mas o meu amor por você e pelas meditações... Eu sinto como se eu estivesse sofrendo há muito tempo e estivesse tentando observar isso e manter uma distância. Nenhum de nós sente que isso é por causa do outro. Nós temos tentado ajudar um ao outro e nós nos sentimos muito próximos."
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Eu não sei – talvez você consiga ver...
Não, não. Você está tentando enganar. Você pode não saber... Mas como é possível que você não saiba? No fundo você deve saber.

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Quando o caso amoroso das pessoas está indo bem, elas ficam muito abertas também para mim. Mas elas não estão abertas para mim – elas simplesmente estão abertas para o amor e para o sonho. Em tal sonho, elas sonham que estão abertas para mim. Quando o caso amoroso delas termina, elas também se sentem fechadas para mim, porque elas nunca estiveram abertas.
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Mas, medite sobre isso. Se você pensa que não existe problema algum entre você e o Naresh, e se você se sente próxima de mim, então isso não será difícil; algo pode ser feito. Mas primeiro você tem que decidir se isso é entre você e eu... Porque eu não vejo dessa maneira.
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Você está projetando algo como sendo entre você e eu, de modo que você possa salvar o Naresh e o relacionamento. Você está tentando desviar a sua mente. Assim, ao invés de você ficar com raiva dos seus sonhos, você fica com raiva das meditações. Você está jogando todo o peso em cima delas, o que não é verdade; isso é apenas uma desculpa.
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E isso acontece por toda a vida. Nós nunca definimos exatamente a causa. É dessa maneira que a miséria continua crescendo. Uma vez corretamente diagnosticado, noventa e nove por cento dos problemas desaparecem. (...)
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Pense a respeito disso por sete dias e depois me conte. Mas se você pensa que o que está causando algum problema para o seu relacionamento amoroso é este ashram e o fato de viver aqui, então eu sou sempre a favor do amor. Esqueça este ashram completamente e esteja em qualquer lugar que você goste. Mm? Pense sobre isso de novo."
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OSHO – Beloved of my Heart - 22 de maio de 1976