domingo, 30 de março de 2008

O arqueiro e o alvo...

No Japão, um professor alemão, Herrigel, estava aprendendo a arte do arco-e-flecha com um mestre Zen. Ele se tornou perfeito, 100% perfeito, não errava nenhum alvo.

Naturalmente, ele disse ao mestre: "Agora o que resta aprender aqui? Posso ir embora agora?".O mestre respondeu: "Você pode ir, mas não aprendeu nem o bê-á-bá da minha arte".

Herrigel disse: "O bê-á-bá da sua arte? Mas eu sempre acerto o alvo!".

O mestre replicou: "Quem está falando em alvo? Qualquer tolo pode fazer isso, basta praticar. Isso não tem nada de mais; agora é que começa a verdade. Quando o arqueiro pega o arco e a flecha e mira o alvo, há três coisas aí: uma é o arqueiro, o mais fundamental e básico, a fonte, a essência; depois há a flecha, o que passará do arqueiro para o alvo; e depois há o "olho do touro", o alvo, o ponto mais distante. Se você acertou o alvo, atingiu o mais distante, tocou na periferia.

Você precisa tocar na fonte; você se tornou tecnicamente um especialista em atingir o alvo; mas, se estiver tentando penetrar nas águas mais profundas isso não é muito. Você é um especialista, é uma pessoa de conhecimento, mas não de sabedoria. A flecha se movimenta a partir de você, mas você não sabe de que fonte vem a energia que a movimenta, com qual energia. Como ela se movimenta? Quem a está movimentando? Você não sabe isso, não conhece o arqueiro.

Você praticou o arco-e-flecha, o alvo você acertou, sua pontaria foi 100% perfeita, você se tornou eficiente com um nível de perfeição de 100%, mas isso se refere ao alvo. E você? E o arqueiro? Alguma coisa aconteceu no arqueiro? Sua consciência mudou um pouco? Não, nada mudou. Você é um técnico e não um artista. Você vê as flores de uma árvore, mas esse não é o conhecimento real, a menos que você penetre fundo e conheça as raízes.

As flores dependem das raízes; elas nada mais são do que a expressão da essência das raízes. As raízes estão carregando a poesia,a fonte, a seiva que se tornarão as flores, que se tornarão os frutos, que se tornarão as folhas. E, se você contar continuamente somente com as flores, os frutos e as flores e nunca penetrar na escuridão da terra, nunca entenderá a árvore, pois a árvore está nas raízes."


quarta-feira, 26 de março de 2008

Os outros...

É como se a mão direita se machucasse e a esquerda aplicasse o medicamento.

Oras, a mão direita poderia pensar que um outro alguém a estivesse tratando e poderia agradecer ou recusar o tratamento. A mão direita poderia dizer: "Não peço ajuda a outro alguém; sou independente."

Mas, então, não saberia que a mesma energia que trabalha através da mão direita está trabalhando através da mão esquerda.

Dessa maneira, quando uma pessoa é ajudada por outra, na verdade não é a outra; é sua própria prontidão que evoca a ajuda de outra parte de seu próprio ser.

A idéia do outro é devida à nossa ignorância; afinal, onde está o outro? Ele é a própria pessoa em uma infinidade de formas, é a própria pessoa em numerosas jornadas, é a própria pessoa em inumeráveis espelhos. Definitivamente, é a própria pessoa que está no espelho, embora o que se perceba seja o outro.

A noção de que estamos ajudando (ou não) o outro é uma ilusão, e a noção de que estamos recebendo ajuda do outro também é uma ilusão. Na verdade, como tal, o outro é uma ilusão.

Uma vez percebido isso, a vida fica simples.
Você nem faz algo para o outro, considerando-o como o outro, nem deixa que o outro faça algo para você, sentindo-o como o outro.

Trata-se de você mesmo estendido nas duas extremidades. Se você der uma mão a alguém na rua, terá ajudado seu próprio ser.

Se alguém lhe deu uma mão, também ele ajudou somente a si mesmo.



"Os outros? Como podeis falar em outros? Deveis falar de vós, em outros lugares, com outros rostos! Não vedes como estais ligados? A claridade do vosso coração completa a claridade de quem chamais o próximo. Sede o próximo e estareis em toda a parte ao mesmo tempo, em todos os espíritos, sereis o que Eu Sou, ou seja, vós mesmos!" (Kristos)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Corações distantes...

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:
"Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?"

"Gritamos porque perdemos a calma" disse um deles.

"Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?" Questionou novamente o pensador.

"Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça", retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar: "Então não é possível falar-lhe em voz baixa?"

Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador.

Então ele esclareceu:

"Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecido? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito. Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas? Elas não gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram. E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta. Seus corações se entendem. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas."

Por fim, o pensador conclui, dizendo:

"Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta".

(Meher Baba)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Os cegos e o elefante...

"Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos. Como seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas consultavam-nos.

Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles, que, de vez em quando, discutiam sobre o qual seria o mais sábio.

Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros:

- Somos cegos para que possamos ouvir e compreender melhor do que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí brigando, como se quisessem ganhar uma competição. Não agüento mais! Vou-me embora.

No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num ELEFANTE imenso. Os cegos jamais haviam tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele.

O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou:

- Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar os seus músculos e eles não se movem; parecem paredes.

- Que bobagem! - disse o segundo sábio, tocando na presa do elefante - Este animal é pontudo como uma lança, uma arma de guerra.

- Ambos se enganam - retrucou o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante - Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia.

- Vocês estão totalmente alucinados! - gritou o quinto sábio, que mexia as orelhas do elefante - Este animal não se parece com nenhum outro. Seus movimentos são ondeantes, como se seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante.

- Vejam só! Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! - irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante - Este animal é como uma rocha com uma cordinha presa no corpo. Posso até me pendurar nele.

E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança.

Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tateou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:

- Assim os homens se comportam diante da verdade. Pegam apenas uma parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!"
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"A Verdade Absoluta não é um objeto da mente;
a mente é a verdade relativa."
(Bodhicharyavatara. Shantideva)

terça-feira, 18 de março de 2008

Quando estiver confuso...

Sempre que você estiver confuso numa situação e não conseguir ver como se livrar dela, não pense; simplesmente permaneça em profundo não-pensar e permita que o guia interior guie você. No começo você se sentirá com medo e inseguro, mas depois, quando você chegar todas as vezes à conclusão certa, quando você chegar todas as vezes à porta certa, você irá reunir coragem e se tornará confiante.

Quando essa confiança acontece, eu a chamo de fé. Essa é, na verdade, a fé religiosa: a confiança no guia interior. Argumentação é parte do ego, é você acreditando em você mesmo. No momento em que você vai fundo dentro de si mesmo, você chega à verdadeira alma do universo. O seu guia interior é parte do guia divino. Quando você o segue, você segue o divino; quando você segue você, você está complicando as coisas e você não sabe o que está fazendo. Você pode achar que é muito sábio. Você não é.

A sabedoria vem do coração, não do intelecto. A sabedoria vem do interior profundo de seu ser, não da cabeça.
Corte sua cabeça, seja sem cabeça, e siga o ser, para onde quer que ele o conduza. Mesmo que ele o leve ao perigo, vá ao perigo, porque esse será o caminho para você e para o seu crescimento. Através daquele perigo você irá crescer e tornar-se maduro."

(OSHO - The Book of the Secrets, V2, # 37 )

domingo, 16 de março de 2008

Que fim levou o amor?

O amor pode existir sozinho, platônico ou narcisista, mas é muito melhor quando é correspondido! Infelizmente, o que mais se vê é qualquer coisa, menos amor. Há muito interesse, muito negócio, muito oportunismo, muita conveniência, muita aparência, mas quase nenhum sentimento.
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As pessoas mal se conhecem e já estão juntas, para, logo depois, se separarem. Num dia, um acha o outro o máximo, digno de compartilhar seus segredos! No outro, não dá mais a mínima, e publica, com estardalhaço, todos os defeitos da “antiga paixão”!
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O casamento, então, foi transformado num mero contrato de prestação de serviços, cheio de cláusulas indenizatórias. Virou um instrumento para ascender socialmente, uma “escada” para o meio artístico, uma “peneira” para acobertar desvios de comportamento sexual, moral e social não assumidos, ou como um último recurso para satisfazer a compulsão sexual de conquistadores mesquinhos e baratos, por mais ricos que sejam. Quando o objetivo é atingido, entram em jogo as armações, para romper as amarras, com o maior lucro ou menor prejuízo possíveis. E para tanto vale tudo, com requintes de morbidez e crueldade!
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Que fim levou o amor?
Há quem case pensando que o outro vai mudar… Há quem case pensando que nada vai mudar… Há quem case porque não encontrou nada melhor para fazer… Há quem case para ter “segurança”… Há quem case com mitos… Há quem case para ter uma “regra três” em casa… Há quem case porque quer uma mãe ou pai, que não teve, ou por quem desenvolveu um afeto doentio…
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Mas a comunhão que o casamento representa, como o próprio nome pressupõe, não admite a anulação de nenhuma das partes! Mesmo que a personalidade de um seja mais forte que a do outro, o respeito deve estar de mãos dadas com o amor. Um deve elevar o outro!
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Um rosto ou um corpo, bonitos, têm a sua importância; o fogo da paixão, também; mas só isso não basta! A beleza se esvai, como um material de consumo; a paixão se acalma ou, pior, consome, extrapola, enlouquece, fere ou mata!
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O amor de verdade é natural! Não cobra, nem pune; não suga, nem esgota; quer a proximidade, mas resiste, na distância; quer estar perto mesmo estando longe; acaricia o corpo, quando presente, e a alma, em pensamento… O amor sincero é assim: avesso à confusão, frutifica em profusão! Mas, para saborear seus frutos é preciso cuidar dele, de si próprio e do outro, todos os dias, em pensamentos, atos e palavras. Assim, ele será prazer para todos os sentidos, e em todos os sentidos! Será celebrado em todos os dias, e não apenas em cerimônias caras e extravagantes, feitas para alimentar colunas sociais e tablóides sensacionalistas. Um será manchete, sim, em todas as edições, mas no coração e mente do outro, e não apenas no início, glamuroso, e no fim, rancoroso ou, até, criminoso…
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Para isso é preciso que haja muito mais que interesses mundanos nos relacionamentos. É preciso que a paixão e o desejo não ceguem e escondam os segredos da alma e os vazios da mente. É preciso estar atento e, ao mesmo tempo, tranqüilo. É necessário que um goste tanto do outro, que o prazer seja entremeado por amizade e companheirismo. Não há lugar para egoísmo, mas um pouquinho de ciúme é sempre bem-vindo…
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Amar dá trabalho, mas também dá descanso! Por isso mesmo, não se deve desprezar nem confundir o amor com outras coisas. Sua semente deve ser plantada e cuidada, para que floresça! Senão, continuará a aumentar o côro para a canção de Djavan:
“Que fim levou o amor? Plantei um pé de flor, deu capim!”
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(Alguém, que não eu)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Horóscopo pra macho 2

ÁRIES
Cuidado com as amarras, amigo ariano. Aquela algema que você ganhou de uma nativa de Escorpião vai deixá-lo imobilizado. Prepare-se para uma grande sacanagem. Ela vai se mandar do motel e deixá-lo preso na cama.


TOURO
Na terça, você estará sentado num bar quando entrará um moreno de olhos azuis frios e penetrantes. Seus olhares se cruzarão e o amor, que não ousa dizer seu nome encherá seu coração de desejos inconfessáveis. Eu, se fosse você, ficava em casa.


GÊMEOS
Problemas de dupla personalidade vão ocorrer no final do mês. Terrivelmente deprimido, você vai achar que tudo está muito bem. Dividido, entrará em conflito consigo mesmo e vai perder a discussão, mas, no fim, ganhará.


CÂNCER
No quinto dia útil do mês, às 11h43, ao atravessar a Ana Costa, em frente ao CineRoxy, um piano desabará sobre a sua cabeça. Ao tentar desviar, você será atingido por duas tubas, um bumbo e três violoncelos.


LEÃO
Finalmente seu desejo será realizado. Uma reunião de emergência da ONU o nomeará Supremo Imperador do Mundo. Seres extraterrestres farão contato com a humanidade para se submeterem à sua vontade. Deus vai renunciar e deixar tudo pra você.


VIRGEM
Projetos literários favorecidos. Escreva a história de um místico que, atingido por uma granada, perde um testículo mas alcança a Iluminação. O livro vai se chamar O diário de um Bago e você vai ficar milionário.


LIBRA
Canibais ferozes invadirão a sua empresa e comerão todo mundo. Você vai se esconder no banheiro, mas será abduzido por alienígenas e submetido a horríveis experiências físicas e psicológicas. Falte ao serviço.


ESCORPIÃO
Urano, Netuno e Plutão entram na casa de Júpiter e ficam bebendo até tarde. O Sol aparece no litoral até às 6hs da tarde. Marte vai a uma festa na casa de Saturno, mas esquece o número
do apartamento e começa a apertar a campainha de todo mundo.


SAGITÁRIO
É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um pouco sozinho. É um caco de vidro, é a vida, é o sol. É a noite. É a morte. É um laço. É o anzol. São as águas de março fechando o verão. É promessa de vida no seu coração.


CAPRICÓRNIO
Você achará um bilhete premiado, mas, como não acompanhou o sorteio, vai jogar o papel fora. Não lerá este horóscopo e jamais saberá que foi milionário por 5 minutos.


AQUÁRIO
Esta é a sua era, aquariano. A humanidade conhecerá a paz. A música tomará conta da cidade. Flores nascerão sobre a rocha nua. As pessoas dançarão pelas ruas entre sorrisos. A polícia vai encontrar o bagulho e te levar em cana.


PEIXES
A Luize Altenhofen vai te ligar, dizer que você é o homem da vida dela e que pode realizar todos os desejos pecaminosos que habitam o seu peito viril. Mas você estará no banheiro e não atenderá a ligação. Ela não vai ligar de novo.



“Minha intenção ao falar sobre astrologia poderia ser mal interpretada. Isso não é como se eu pretendesse falar sobre os mesmos assuntos que são discutidos por um astrólogo comum. Para tal astrólogo você pode pagar uma moeda e ter a sua sorte lida. Talvez você ache que eu vou falar sobre ele ou apoiá-lo.
Em nome da astrologia, noventa e nove por cento dos astrólogos somente blefam.
Apenas um por cento não irá afirmar dogmaticamente que um evento irá definitivamente acontecer. Eles sabem que astrologia é uma matéria vasta – tão vasta que alguém só pode abordá-la hesitantemente."

Osho, Hidden Mysteries

terça-feira, 11 de março de 2008

O Segredo da felicidade...

Existiu certa vez um jovem de alma bastante inquieta, que queria saber o Segredo da Felicidade. Imbuído do Espírito da Busca, ele afogou-se nas leituras, entediou-se nas conversas com os filósofos, prostrou-se de tanto meditar.

Quando, por pura exaustão, estava prestes a desistir daquela procura infrutífera, alguém lhe contou de um velho sábio eremita que - diziam - sabia qual era o Segredo da Felicidade.

O problema é que este sábio morava em uma caverna no alto de uma enorme montanha. Sem desanimar por isso, lá foi o jovem ao encontro do velho eremita.

Bem, o jovem quase perdeu a vida na escalada dificílima da montanha. Chegou à caverna do sábio meio morto, é verdade, mas depois de receber os cuidados do velho por três dias e três noites, sentiu-se melhor e perguntou ao sábio:

- Mestre, eu vim até aqui para lhe perguntar apenas uma coisa: qual é o Segredo para se obter Felicidade em Abundância?

O velho coçou a barba, olhou bem firme nos olhos do rapaz e falou solenemente:

- Sexo... Muito sexo desvairado com mulheres lindas e bêbadas... Champanhe e morangos no café da manhã... Carros esportivos... Drogas alucinógenas... Filmes do Monty Python... Rock dos anos 60... Cervejas Belgas... Tudo isto propicia Felicidade em Abundância.

O jovem, muito espantado, exclamou:

- Mas, ó Sábio, não compreendo! Tudo isto faz parte do Segredo da Felicidade, entretanto aqui você vive em completo isolamento, sem nenhuma destas coisas!

E o sábio, mais solene ainda, respondeu:

- Mas quem lhe disse que eu sou feliz?

Morais da estória
- Entre saber e fazer, há toda a distância do mundo.
- Às vezes, a Verdade é tão óbvia que não a enxergamos.
- Não leia muito. Você corre o risco de se tornar um tapado.

segunda-feira, 10 de março de 2008

CPI do amor e do sexo...

Uma amiga, senhorita F., entrou na caixa postal do correio eletrônico do marido. Ih, lá vem a mesmíssima história, phodeu com ph, já vi esse legítimo Hitchcock dos lares doces lares mil vezes, esse Stephen King do amor e da sorte, esse ato bestialmente repetitivo e sempre monstruoso.

Pra completar, a senhorita F. deu uma sherlockadazinha também no celula, de leve, enquanto o traste-costela via lesadamente o Fla-Flu de domingo.

Um desastre.

Entre cantadas e semi-cantadas ou apenas bobagens virtuais, leros, flertes, lirismos avulsos e outras gracitas..., a amiga entrou em desespero, gritou, berrou, imitou o quadro do Munch, discutiu a relação por uma semana, e quase acaba com aquela vida sob o mesmo teto até então reconhecida no seu grupo de amizade como exemplar, honesta e íntegra. Casal invejável meeeeesssmo.

O cabrón tinha algum caso para valer? Não. Algum namorico mais a sério? Nada. Havia transado com alguém e comentava que foi bom, meu bem?, essas coisas?! Nécaras. Só vadiagem internética, tipo a polícia prender no carnaval por embriaguez e desordem,saca?

Tudo espuma flutuante, sem lastro de verdade, garrafas atiradas aos mares da virtualidade e suas sereias ulyssianas.

Mas foi o bastante para uma baita crise. Quase uma ruptura. Além de ter deixado a xícara amorosa trincada para os próximos cafés com torradas e aquelas coisas lights que as moças tanto gostam.

Por estas e por outras é que não é nada recomendável quebrar o sigilo postal do companheiro ou da fofolete.

Ora, quem, entre nós, resistiria a meia hora de quebra do sigilo amoroso ou sexual?

Como na arrecadação de recursos para campanhas eleitorais, todo mundo, até mesmo no mais escondido dos conventos de devotas beneditinas, já teve o seu "caixa 2" do desejo. Em pensamentos, atos ou omissões, tanto faz.

Em telefonemas, emails ou declarações bêbadas na madruga. No MSN, entonces, ave palavra e más intenções!

Ninguém resiste a meia hora de quebra de sigilo. No amor, somos todos, em alguma ocasião, corruptos. Em maior ou menor grau, todos damos nossas pisadas ou nossas phodas platônicas.

Menos naquela hora em que a paixão por alguém nos toma 100% do cérebro e a febre amorosa é capaz de quebrar termômetro. Depois passa, é o que dizem, inclusive a ciência, que dá um prazo de validade às paixões de três meses... ou seis meses, menos de um ano, com certeza –preguiça monstra de entrar mais uma vez no google.

Nosso destino é pecar, como disse o pudico tio Nelson, padrinho espiritual deste cronista. Por estas plagas, até a virtude prevarica.

Às sextas-feiras, então,já repararam como o cheiro de pecado toma conta dos bares e é mais forte até do que o odor que vem dos ralos e bueiros?

Quem, entre nós, machos & fêmeas, resistiria a uma CPI do amor ou do sexo?

Este cronista ficaria rico, na pele de um camelô de álibis. Ah, as lindas e impagáveis fraquezas da carne.

As despesas com jantares à luz de vela denunciariam os amantes pelo cartão de crédito ou no extrato para simples conferência. Os porteiros de prédios e motéis seriam os mais perseguidos dos depoentes. Seria um inferno.

A melhor amiga ou o melhor amigo, estas instituições supostamente vestais, também seriam convocados a depor. Na CPI do amor sobraria até para o entregador de pizzas, que também sabe muito sobre os segredos de alcova e adonde tudo termina.

Por estas e por outras, melhor abafar o caso, amor, passa o orégano. Segue a vida, melhor, seguimos a morrer em vida, como diria meu amigo Sêneca.

(Xico Sá)

quinta-feira, 6 de março de 2008

25 coisas que você pode fazer num pronto-socorro público...

1. Comentar na sala de espera: "nossa, vem vindo uma maca ali que é tripa pra todo lado".

2. Distribuir volantes com preços e condições de planos de saúde da rede particular.

3. Deitar no chão, similar uma convulsão e, quando for atendido, dizer que é um "laboratório" para o grupo de teatro do qual você faz parte.

4. Ir até o guichê de atendimento do PS e perguntar se o Serviço de Amputações precisa de um açougueiro com experiência.

5. Gritar do nada: cara, uma barata, pode uma coisa dessas?!!!!!!

6. Gritar do nada: achei um rim, é de alguém?

7. Passar uma rasteira num Doutor da Alegria.

8. Dizer a uma enfermeira que transar com "profissionais de branco" é o seu sonho sexual mais recorrente.

9. Pedir para gelar uma latinha de cerveja no refrigerador de vacinas.

10. Confiscar uma cadeira de rodas e dar um cavalo de pau no meio da sala de espera do Pronto Socorro.

11. Pegar uma bolsa de sangue da Hematologia e fazer uma imitação de Bela Lugosi para os colegas de fila.

12. Sentar numa cadeira da sala de espera e fingir-se de morto.

13. Fazer "uóóóómmmmmmmmm" bem alto com a boca cada vez que uma ambulância estacionar no pátio.

14. Pedir emprestado uma muleta, subir no balcão e imitar o Jimi Hendrix.

15. De cinco em cinco minutos, levantar-se e fingir que vai vomitar sobre as pessoas.

16. Levar seu cachorro e indagar se há atendimento veterinário naquele posto.

17. Colocar uma camisa-de-força e sair andando naturalmente pelas dependências do PS.

18. Levar uma marmita e pedir para esquentá-la na estufa do hospital.

19. Num momento mais silencioso do atendimento aproximar-se de uma enfermeira e dizer em alto e bom som: "COMO ASSIM, MORREU?"

20. Levar um rádio portátil e ficar ouvindo um programa de música sertaneja em volume alto.


21. Promover uma enquete com alguns funcionários do PS: "quem é concursado aqui e quem arrumou emprego com um deputado amigo?"

22. Oferecer-se para fazer um cafuné na emburrada funcionária que distribui as senhas de atendimento.

23. Promover uma pelada "Enfermeiros X Médicos" enquanto os doentes não são atendidos.

24. Perguntar ao médico-responsável porque o nome daquele órgão é "Pronto-Atendimento" se ninguém é prontamente atendido há mais de dezesseis horas.

25. Pintar pontinhos vermelhos no rosto, pescoço e braços e sair cumprimentando todo mundo dizendo: "prazer, varíola".

(Carlos Castelo)

terça-feira, 4 de março de 2008

É o que tem pra hoje...

"Queria ser uma dessas pessoas que chegam rapidamente até o outro lado da praia, mesmo quando é fofa e de tombo.
Que arquitetam planos de vida.
Que começam assistentes e terminam donos.
Que começam miojo e terminam grande evento culinário um sábado sim, um não.
Que não se demoram na hora de olhar o cardápio, a vitrine, o Guia da Folha, os rapazes da noite.
Fico vendo que fulano foi lá, escreveu o roteiro, quase um ano de trabalho. Depois foi lá, filmou tudinho, mais um ano de trabalho. Na semana da estréia já estava envolvido em outro projeto. Projetos atrás de projetos. Ah: e fulano tem absoluta certeza que nasceu pra isso. Fico vendo que fulana foi lá: em 2000 pós, 2001 mba, 2002 carro do ano, 2003 casamento, 2004 casa, 2005 filho, 2006 rotavírus. Uma vida na agenda.
Mas enquanto isso, será que fulano sabe dos 456 livros que poderia ler? Das 456 mulheres que poderia comer? Do pôr do sol em Fernando de Noronha? Do prazer surreal que é dormir até tarde sem saber que dia é?
Como fulano pode ter certeza que está no lugar certo, na hora certa, no momento certo, com a pessoa certa, se há zilhões de segundos, dias, ruas, bairros, cidades, países e sonhos nesse mundo?
Passo os dias me perguntando. Aquele povo todo, correndo na paulista, se apertando no metrô, parado no trânsito da Marginal, passando crachás, apertando mãos, escovando os dentes naquelas escovinhas que dobram no meio pra caber na bolsa, almoçando em quilos, sorrindo em falso, respirando ar condicionado, sonhando com a bunda alheia, com o salário alheio, com o final do dia.
Eu não consigo ser uma coisa. Não consigo viver por algo. Tenho esse saco sem fundo onde cabe o mundo. Mas cabe tanto, tanto, que vivo vazia.
Porque ainda não aprendi a me preencher. Porque ainda ando por aí meio maravilhada e irritada, caçando meus pedaços, desejos e inspirações. Até que depois de ver um pouco de tudo e todos, eu saiba finalmente que cara e que forma tem o meu mural de recortes, a minha colcha de retalhos.
Mas no meio do caminho se é muito feliz. E esse texto está assim meio estranho porque to escrevendo ele… quem diria: um pouco bêbada. Agora, por exemplo, to feliz porque bebi saquê e cantei "O amor e o poder" em um karaokê louco. To muito feliz. E talvez um pouco bêbada. Odeio crachás.

E eu to feliz porque to ouvindo uma versão de "My way" cantada pelo Gipsy Kings e são quatro e cinco da manhã. E porque estou tendo o maior ataque de riso do mundo simplesmente porque nada faz sentido. E que bom que não faz.
Como diria meu cabeleireiro gay e com pedras no rim: "é o que tem pra hoje, meu bem". E eu não me culpo pela minha pressa em ficar. E eu não te culpo pela sua pressa em ir. É em tantas pressas contrárias que a gente se esbarra pelo mundo e se diverte um pouco."

(Tati Bernardi)

sábado, 1 de março de 2008

O Amor supera os fatos...

Era um casal apaixonado. Lembro-me de vê-los na praia todos os fins de semana. Sempre sozinhos. Riam muito. Pareciam viver num mundo à parte. Entravam no mar e ali ficavam, juras de amor eternos, beijos, brincadeiras e sonhos. Certa vez aproximei-me dos dois a fim de escutar o que falavam, como falavam. Puro código de amantes.
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Ela, dentes perfeitos, alvos, um corpo bonito, atraente, seios eretos, 30 anos. Ele, um rapaz alto e magro, brincalhão, muito sorridente, 40 anos e uma aparência jovial. Tornei-me um voyeur desse romence.
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Ela passava o protetor solar em suas costas, acariciando-o com meticulosos movimentos circulares. Ele trafegava sobre a areia quente do verão levando dois cocos verdes. Sempre se beijavam.
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Certo fim de tarde de um sábado, quando o verão já estava de malas prontas e a brisa de outono começava a soprar, vi os dois andando à beira-mar. Estavam mudos. Caminhavam de maneira desconcertada. Não estavam juntos. Uma briga, pensei. Resolvi segui-los. Até que ele parou e começou a gesticular nervosamente. Ela estava chorando. Suas lágrimas rolavam por seu lindo rosto. Uma briga feia. Nas costas do rapaz, arranhões. Uma briga muito feia.
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Mas, na manhã seguinte, lá estavam os dois embaixo do guarda-sol azul aos beijos e risadas. Apesar das feridas, o amor dos dois parecia mais nítido e intenso. Alguém.. uma vez me disseram "Se acabou é porque não era amor". E, de fato, era amor. Mas um amor que estranhamente parecia agonizar. Já não via mais os dois amando-se no mar. As gargalhadas foram dando lugar a uma sintomática mudez.
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De vez em quando eu passava em frente à casa onde moravam e ouvia gritos e bater de portas. Numa dessas vezes tive uma vontade louca de entrar e perguntar-lhes: "Por que vocês fizeram isso? Era tão lindo vê-los! Parem já com isso!". Mas estava fora do meu alcance tal intromissão. O apego de um pelo outro, que infelizmente, atende pelo nome de "amor", estava migrando para um sentimento pantanoso e sombrio: a aversão.
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E foi o que aconteceu. No fim de semana passado vi a moça na praia conversando com uma senhora. Sua mãe, suponho. Sob o mesmo guarda-sol azul. Aproximei-me para escutar o que diziam. Falavam mal do rapaz. De uma maneira apaixonada, falavam horrores do rapaz.
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Ela tinha perdido seu viço. Seu viço era seu moço. Ou seu vício, como queiram. A mãe: expressão de uma heróica bombeira que salvou a filha de um incêndio. Em vão, aliás. O amor supera os fatos. Quando é amor, claro. Na minha bola de cristal posso ver os dois juntos. Nesta ou em outra vida. Não tenham dúvidas!