segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Koan: Sem diferenças...

Certo dia, um discípulo perguntou ao Mestre:

- Mestre, há alguma diferença entre o que disseram os patriarcas e o que está escrito nos sutras sagrados?

O sábio respondeu:

- Quando fica frio, os faisões empoleram-se nos galhos das árvores; e os patos mergulham sob a água.

... nesse momento, o discípulo atingiu o satori.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Potencialmente x Realmente...

O pai estava vendo televisão tranqüilamente, quando o filho, que brincava em sua frente, surge com uma pergunta:
- Pai, qual é a diferença entre POTENCIALMENTE e REALMENTE?

O pai pensa um pouco e responde:
- Filho, faz o seguinte; primeiro, pergunta a tua mãe se por 1 milhão de dólares ela faria amor com o Richard Gere. Depois, pergunta a tua irmã se por 1 milhão de dólares ela faria amor com Brad Pitt. E, finalmente, pergunta ao teu irmão se por 1milhão de dólares ele faria amor com o Tom Cruise. Quando me trouxer as respostas, eu te explico a diferença!

Horas depois, o filho voltou e descreveu ao pai as respostas de cada um dos três:
- A mãe disse que nunca pensou em te trair, mas que por 1 milhão de dólares, e com o Richard Gere, ela não pensaria duas vezes. A mana respondeu que seriam dois sonhos realizados de uma só vez. Dar uma com o Brad Pitt e ainda por cima ficar milionária. E, finalmente, meu irmão disse que por 1 milhão de dólares faria amor até com o Lula, quanto mais com o Tom Cruise!

Então o pai respondeu:

- Pois é isso, meu filho. POTENCIALMENTE, a nossa família tem condições de ganhar 3 milhões de dólares. Mas REALMENTE, temos duas putas e um viado!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O Deus de dentro e o Deus de fora...

Querido Osho, o que é Iluminação? É uma revelação divina?
"Ela não é uma revelação divina, ela é uma realização divina. E a diferença é grande. Revelação divina significa que alguma coisa objetiva, como Deus, lhe é revelada. Você vê algum Deus; mas você está separado dele e ele está separado de você. Eu não acredito num Deus que esteja separado de nós, que esteja separado da existência. Eu não acredito em um Deus que seja um criador; eu acredito num Deus que é criatividade.

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Dizendo isso em outras palavras, eu não acredito num Deus como uma pessoa, eu acredito em divindade como uma qualidade. Assim, eu digo que ela não é uma revelação divina, mas uma realização divina. Você percebe que você é Deus, e ao perceber que é Deus, você percebe que tudo é Deus – que somente Deus existe e nada mais existe. Nas pedras, nas árvores, nos pássaros, nas pessoas – quer eu as conheça ou não – o mesmo princípio, a mesma qualidade está escondida no verdadeiro centro de todo ser.
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Iluminação é tornar-se tão cheio de luz que você consegue ver o seu próprio centro e perceber a sua divindade. Isso faz uma grande diferença – com Deus sendo separado, o homem é apenas um fantoche. Ele nunca pode ser livre, ele irá permanecer sempre um escravo. Como você pode se livrar do criador? Ele o criou. E por que ele o criou num determinado momento? Por que não antes?
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Existe eternidade no passado – e o cristianismo diz que Deus criou o mundo há quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo. Deve ter sido no dia primeiro de janeiro – obviamente. Mas, então, o que ele estava fazendo antes? Estava apenas sentado e nada fazendo por toda a eternidade? E então, de repente, ele criou este mundo. Um caos - não uma grande idéia.
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Eu ia viajar e fui ao meu alfaiate. Disse-lhe, ‘Você tem que fazer o meu robe em sete dias. Nesse prazo, sem truque: sete dias significa sete dias.’ Ele disse, ‘Como você quiser. Mas lembre-se de uma coisa, Deus criou o mundo em seis dias e dê uma olhada no mundo. Eu posso criar o seu robe em sete dias, mas depois não me pergunte, ‘o que você fez?’ Vai ser um caos!’ Ele estava certo. Em seis dias... E após os seis dias Deus estava cansado e descansou. E tem estado descansando desde então. Estranho cansaço! E parece ter sido um capricho, de repente, decidir criar o mundo. Mas você não pode depender de tal capricho de Deus.
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Amanhã ele pode decidir que já é o bastante e resolver destruí-lo. O que você pode fazer? Com um Deus que é um criador você está justo nas mãos de uma outra pessoa que pode fazer ou desfazer você. Então a sua liberdade e a sua individualidade não têm significado.
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Nietzsche está certo quando diz, ‘Deus está morto, e agora o homem está livre.’ Ele está colocando duas coisas juntas; este foi o insight dele: Deus está morto e agora o homem está livre. Com Deus vivo, o homem não pode ser livre. Eu não digo que Deus esteja morto – porque ele nunca viveu! Deus não é um objeto fora da existência. Ele não é um criador, ele é a realidade mais interna da existência. Ele é eterno; ele tem estado sempre aqui e agora; e ele sempre estará aqui e agora. A criação não terminou em seis dias, ela ainda está acontecendo. Ela é um processo que continua. Ela é uma evolução. Mas Deus tem que ser colocado dentro dela, não do lado de fora. Com Deus do lado de fora, o mundo se torna morto e Deus se torna um ditador. Com Deus do lado de dentro, na existência, toda vida se torna mais viva e tudo vibra – e Deus não é mais um perigo.
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Assim, eu não direi que a iluminação é uma revelação divina, não. Todos aqueles que disseram ter tido uma revelação divina, simplesmente sonharam com isso, estiveram alucinando. Foi uma ilusão e nada mais. Iluminação é perceber como realidade que ‘eu não sou apenas um mortal. Eu não sou apenas material. Eu sou divino. No meu coração dos corações Deus está vivo, e o que está acontecendo em mim está acontecendo em todo mundo.’ A única diferença entre aquele que nós chamamos iluminado e os outros é que ele conhece; ele reconheceu o seu ser interior, e os outros estão dormindo profundamente. Mas não existe diferença qualitativa. Aqueles que estão dormindo, podem ser despertados amanhã.
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E nesta eternidade, o que importa se você despertar hoje ou amanhã? Não importa. Você pode despertar de manhã cedinho ou pode se despertar mais tarde – a eternidade está disponível. Você é livre para escolher quando despertar. Você é livre para escolher se quiser dormir um pouco mais. Então vire para o lado, puxe o cobertor e desfrute o sono um pouco mais... Porque é Deus que está desfrutando isso. Não se preocupe. Por que perturbar Deus se ele quer dormir um pouco mais? Mais cedo ou mais tarde você vai despertar. Por quanto tempo você consegue ficar dormindo?
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A iluminação é um despertar de um sono profundo, vindo do estado de inconsciência para a consciência. Isso não precisa de nenhum Deus de fora. O Deus de fora é muito perigoso. Suas implicações são feias, porque o Deus de fora significa adoração, exaltação dele, rezar e pedir a ele, ir ao mosteiro, ir à igreja, ir à sinagoga. O Deus de fora nunca permite que você entre dentro de si mesmo: os seus olhos estão focados do lado de fora – e não existe nenhum Deus de fora. Você está olhando para um céu vazio.
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A verdadeira essência da vida está dentro de você. Neste exato momento você pode se voltar para dentro de si mesmo, olhar para dentro de si. Nenhuma adoração é necessária, nenhuma reza é necessária. Tudo o que se precisa é uma jornada silenciosa em direção ao seu próprio ser. Eu chamo isso meditação – uma peregrinação silenciosa ao seu próprio seu. E no momento em que você encontrar o seu centro, você terá encontrado o centro de toda a existência.
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Arquimedes, um dos grandes cientistas, costumava dizer, “Se eu conseguir encontrar o centro do mundo, eu poderei revolucionar tudo.’ Mas o pobre homem nunca encontrou; ele procurava na direção errada. Se por acaso em alguma vida eu encontrá-lo, eu lhe direi, ‘Arquimedes, você ainda está procurando o centro do lado de fora? O centro está dentro de você. E isso é verdadeiro: se você conseguir encontrar o centro dentro de si, você terá encontrado o centro de todo o mundo, e conseguirá revolucioná-lo.’”
Osho – The Path of the Mystic - Cap. 21 – Pergunta 3

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Horóscopo pra macho...

ÁRIES
Os astros não mentem jamais - com exceção do Tarcísio Meira. Se ele disser que vai descolar um papel pra você na novela das 8, não bote fé. Agora, se ele prometer uma pontinha na Malhação, pode até ser.

TOURO
Seis mulheres lindas vão sequestrá-lo e submetê-lo à mais louca fantasia feminina. Elas vão amarrá-lo na cama e passar 6 horas e meia discutindo a relação e explicando por que nós, os homens, somos todos uns porcos insensíveis.

GÊMEOS
Graças a Saturno, você descobrirá que, na verdade, não é Gêmeos, é Trigêmeos. Seus irmãos foram abandonados em Barretos e formaram uma dupla sertaneja. Surubim e Sorumbático. Exija virar o Surubão.

CÂNCER
Tudo é tudo. A interação é a grande norma do Universo. Se você voltasse no tempo, destruísse os dinossauros e consequentemente o petróleo e os derivados, o peitão da Feiticeira ia, chuip! murchar na hora.

LEÃO
O presidente Lula vai ligar e pedir que você reconcilie a base parlamentar. Seu trabalho será tão bom que ele vai renunciar a seu favor. Os presidentes da Câmara e do Senado farão o mesmo. A monarquia será restaurada.

VIRGEM
Você deixará de ser Virgem, hoje às 15h45, bem no meio do escritório. Plutão vai entrar rasgando em Saturno e virar o Zodíaco do avesso. Você será promovido a Lacraia, um novo signo nascido dessa conjunção planetária.

LIBRA
Hordas de bárbaros invadirão a cidade pra arrasar a cultura e a civilização. Se você é culto e civilizado, tá ferrado. Agora, se você, como eu, gosta de piadas de colégio e não perde um desenho do South Park, nada há a temer.

ESCORPIÃO
Marte forma um ângulo reto com a Estrela Dalva, que no céu desponta, e a Lua anda tonta com tamanho esplendor. E as pastorinhas, pra consolo da Lua, vão cantando na rua lindos versos de amor.

SAGITÁRIO
Alguém vai ligar e perguntar pelo Mário. Você dirá: "Que Mário?" Uma voz viril responderá: "Aquele que te comeu atrás do armário". Sua vida nunca mais será a mesma. Evite atender o telefone até o mês que vem.

CAPRICÓRNIO
Sua vida vai desandar legal. Para melhorar o alto-astral, sacrifique uma virgem ao Grande Cucurucu na próxima sexta-feira. A virgem deve ser maior de 25 anos e saber a coreografia do funk do tapinha.

AQUÁRIO
Evite acampamentos. Um cara chamado Jason vai perseguir você e seus amigos armado com um facão. Todas as meninas que não são virgens vão dançar. Só vai sobrar aquela magrela que ninguém comeu. Sorte dela.

PEIXES
A Luize Altenhofen vai mandar um e-mail dizendo que você é o homem da vida dela. Mas, como o subject da mensagem será "I love you", você vai pensar que é um vírus e deletar o e-mail sem abrir. Ela não vai escrever de novo.



“Minha intenção ao falar sobre astrologia poderia ser mal interpretada. Isso não é como se eu pretendesse falar sobre os mesmos assuntos que são discutidos por um astrólogo comum. Para tal astrólogo você pode pagar uma moeda e ter a sua sorte lida. Talvez você ache que eu vou falar sobre ele ou apoiá-lo.
Em nome da astrologia, noventa e nove por cento dos astrólogos somente blefam.
Apenas um por cento não irá afirmar dogmaticamente que um evento irá definitivamente acontecer. Eles sabem que astrologia é uma matéria vasta – tão vasta que alguém só pode abordá-la hesitantemente."

Osho, Hidden Mysteries

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O nascimento do bobão...

Homem bonzinho é uma diabólica invenção feminina que não atende aos interesses masculinos. Significa ser um sujeito sem sal e por quem mulher alguma sente tesão... É sempre simpático, atencioso, e excessivamente educado. Entende a alma feminina de uma forma especial, mais até que as próprias mulheres. Mas no fundo não passa de um cachorrinho de madame, com vantagem de falar e não fazer xixi no tapete. Uma espécie de secretário pessoal, o bonzinho não chega a ser feminino nem afeminado. Mas é o tipo de homem que uma mulher pode facilmente substituir por um objeto funcional, quem sabe uma revista ou um livro, ou mesmo um copo de guaraná...
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Sob o ponto de vista feminino, ele é o amigo perfeito para todas as ocasiões, sempre submisso e subserviente. Por isso, ela tem a tranquilidade de trocar de roupa ou dormir na mesma cama, sabendo que nada fora da rotina vai ocorrer entre eles.
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Todo homem corre perigo de cair nessa esparrela e, mesmo sem querer, tornar-se um homem bonzinho. Quase todos percebem o problema a tempo e restabelecem a ordem entre os sexos. Um cara percebe se está nessa situação se a atração inicial por ele for substituida por uma amizade profunda e desinteressada. Enquanto ele morre de vontade de dar um amasso na moça, ouve contrariado, detalhes da relação maravilhosa dela com outro sujeito... É mole?!
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Capachos humanos
Quer saber como nascem homens bonzinhos? Historicamente, esses capachos humanos - considerados como disfunção patológica do macho - tem suas raízes na educação feminina. Se a gente deixar, a maioria das mães, cedo ou tarde, estará fazendo de seus filhos novos exemplares de homens bonzinhos. E esse trabalho será completado por uma rede de outras mulheres, como babás, professoras, tias e todas as que fazem parte desse complô que visa domar meninos desde pequenos.
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Todas se realizam em gerar homenzinhos dentro de uma concepção do que elas gostariam de ver num companheiro imaginário - e que não tem nada a ver com a realidade biológica do sexo masculino.
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Os pobrezinhos, se não surgir um contraponto à altura (como um homem mais velho que os oriente melhor), vão passar a infância e a adolescência aprendendo como ser excessivamente gentis com as mulheres, neutros na sexualidade e desinteressados se o sexo oposto não tomar a iniciativa. Aprendem a se comportar do jeito que elas querem "para que possam se sentir orgulhosas deles". Já ouviu essa expressão antes? Claro, pois esse é o discurso-padrão de todas. Diante dessa covardia, dá vontade de chorar (e eu não choro!), pensando nos garotinhos indefesos arrastados para essa terrível arapura psicológica...
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Felizmente, a maioria dos homens se recupera, uns mais cedo, outros mais tarde, dessa tentativa feminina de manipulação de atitudes. No entanto, muitos tombam por aí. Mesmo sem ter consciência do que se tornaram, eles estão irremediavelmente transformados em homens bonzinhos. E é para esses anônimos e inconscientes coitados, vítimas das circunstâncias, que estas palavras são dedicadas...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Mudando de emprego...

Uma senhora pega um táxi e indica a direção do hotel onde está hospedada.
O taxista, por incrível que pareça, não disse nada durante todo o percurso, até que a senhora resolveu fazer-lhe uma pergunta e tocou levemente em seu ombro.


Ele gritou, perdeu o controle do carroe, por pouco, não provocou um enorme acidente!
Com o carro sobre a calçada, a senhora, assustadíssima, virou-se para o taxista e disse:

- Você estava dirigindo tão bem! Como é que pôde quase ter um treco por conta de um simples toque no ombro?

- Não me leve a mal, senhora, mas é que esse é o meu primeiro dia como taxista.

- E o que o senhor fazia antes disso? perguntou ela.

- Eu fui, por 25 anos, motorista de carro funerário.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Não dá pra não saber...

O mundo é feito por quem evita dizer não sei. E, se diz, faz logo alguma coisa pra ficar sabendo.
Fernando Pessoa provavelmente não se contentava em tomar vinho do Porto no boteco e concluir que "a vida é complicada, então é melhor continuar aqui e ver a banda passar". Galileu não devia ser um bundão que olhava o céu e se consolava: "Sei lá como é essa porcaria".
Não se faz nada nesta vida com não sei: nem estações espaciais, nem sexo. Nada.
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Se os Homens tem que ter resposta pra tudo? De maneira alguma. Existem perguntas para as quais não sei é o veredicto mais adequado: quem somos? Para onde vamos? Deus existe? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Mas, se ela o olhar daquele jeito que as mulheres olham quando querem uma resposta direta e clara e perguntar: "Eu devo insistir em nós dois ou ir embora agora?", não sei é a maior idiotice que você pode dizer. Quase nada consegue ser tão ruim quanto não fazer diferença, ainda mais quando quem está na sua frente faz. E muita.
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Nessas duas inofensivas palavras há um mundo de sentimentos não compartilhados pelo questionado, e mata ignorar se eles são, mesmo minimamente, direcionados ao questionador. É um breu emocional que não sabemos se nos jogamos no Rio Pinheiros ou nas águas de Bonito, e o outro não faz a mínima questão de esclarecer.
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É péssimo ficar boiando, sem saber que esperar, pensar, fazer. Sem saber se é melhor dar no pé ou tacar fulaninha na parede e chamar de lagartixa. Sem saber se o envolvimento foi um tremendo desperdício de tempo e energia ou algo digno de pensamentos ao decorrer do dia. E sabe por quê não sei é tão odioso? Porque não dá pra não saber. Ou se quer ou não. Se deseja ou não. Assim como você não fica em dúvida quando alguém te pergunta se você gosta de chocolate, cachorro ou empinar pipa. É sim ou não. Maniqueísmo puro.
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Imaturo e volúvel
Não sei é argumento de gente imatura demais pra arcar com as consequências do sim e muito medrosa pra dizer não. Dizer não sei àquela criatura é deixá-la à mercê de sua volubilidade, mantendo-a sob o jugo do "mistério" que, na maior parte das vezes, é somente uma atroz incapacidade de lidar com as pessoas.
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Se não podemos ficar confusos com relação a sentimentos? Sim, é claro. Mas mesmo no meio da confusão vislumbramos pra qual lado nos inclinamos, notamos se tendemos a resolver a questão ou se preferimos dar um tapa e enviá-la a Júpiter. Enfim, sabemos. Porém é necessária uma boa dose de coragem e maturidade no ato da decisão porque cada opção é, em si, uma negativa perante o mar de outros possíveis caminhos.
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Decidir é ultrapassar a infantil fantasia de que podemos ter tudo, sempre, ao mesmo tempo; é a humildade de reconhecer que vovó não estava gagá quando dizia que "quem tudo quer, nada tem". Já passei da idade dos joguinhos adolescentes "estou a fim de você mas não conto porque é sua obrigação sacar". Se quero alguém, informo. É tão mais fácil e saudável. Claro que já ouvi não. Tudo bem, ninguém é obrigado a cair de amores por mim. Mas, na boa, prefiro um não proferido nas fuças que um não sei pairando no ar. Um chega-pra-lá pelo menos é uma definição: então posso pegar meu barquinho, sem culpa nem "serás" e, sair remando em busca de portos mais acolhedores. Vou embora e, apesar de ter sofrido, levo a certeza de que o melhor da vida é estar com quem sabe bem que me quer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Algo sempre falta...

Casados reclamam porque a aliança pesa; namorados porque não vêem mais os amigos; solteiros, porque não tem de quem receber o último telefonema do dia. Jovens são revoltados por não poderem fazer nada do que querem; velhos, por não conseguirem.
Chefes se estressam porque vivem sob pressão e subordinados vivem estressados por causa dos chefes. Nunca estamos satisfeitos. Por mais azul que o céu esteja, sempre achamos - lááá longe - uma nuvem que virá, sabemos que virá e cobrirá nosso sol. E, mesmo sob 40 graus, passamos a sentir frio.
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"Nada mais insuportável do que muitos dias de felicidade contínua" (Oscar Wilde). É bizarro mas real. Não suportamos a felicidade por muito tempo; tudo fica fácil demais, tranquilo, calmo e desde crianças aprendemos que, se algo vale a pena, precisa ser árduo, trabalhoso, hercúleo (e quanta deprê nos rende essa teoria patética). A ridícula verdade é que não sabemos lidar com a alegria - a praia eternamente ensolarada vira um tédio. E então avistamos (ou criamos, não importa) a nuvem.
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Li, não lembro onde, que "a vida nos pareceria subitamente maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morrer - então declararíamos nosso amor, viajaríamos à Índia, realizaríamos nossos sonhos. E caso o cataclismo não acontecesse, voltaríamos ao cotidiano, no qual a negligência supera o desejo". (A negligência supera o desejo - preste atenção nisso, sempre!). Nossa eterna insatisfação, em vez de servir de impulso para nos levar a algum lugar melhor, vira uma âncora, agravando a sensação de impotência, nos entregando à inércia. Então sucumbimos à preguiça. Passamos a achar que o normal é estarmos "meia-boca" (não estamos felizes, é certo, mas por que razão haveríamos de ficar mais tristes?). E daí, quando alguém aparece sorrindo além do previsto por lei, surtamos. Por que ele ri e nós não? Por que tantos dentes? Cadê a graça? Viu passarinho verde?
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Tá rindo do que?
É divertido observar a irritação de alguns perante a alegria alheia. Olham para aquilo como se estivessem presenciando a metamorfose do lobisomem de Joanópolis. Quando alguém parece estar contente (e está), nossa primeira reação é nos compadecermos pela ingenuidade da criatura sorridente, como se estupidez fosse premissa pra felicidade, e gentileza, atributo de lobotomizados ou doentes mentais. Nos é tão incutido o conceito de que os deprimidos, românticos incompreendidos, é que são geniais (toda aquela profundidade de sentimentos, cenho franzido, etc. e tal) que tendemos a encarar pessoas alegres como serezinhos sem sal, aguinha morna que nem chá dá pra fazer... Sai de mim! Se for assim, o Prozac será o responsável pela não-existência de grandes artistas pelo resto das eras. E eu me alegrarei de ser absolutamente medíocre e saltitante.
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Não vejo nada errado em nunca estarmos satisfeitos, em desejarmos (há muito tempo alguém me disse que desejos são como cavalos: não são eles que decidem pra onde vamos, mas com eles vamos mais rápido). O problema reside em ficarmos nos culpando por nunca estarmos completamente felizes ou acharmos poético arrastar as meias pela casa. O fato é que "algo sempre nos falta - o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Para seu próprio bem, guarde esse recado: alguma coisa sempre falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo" (Caio Fernando Abreu). Daí, sim, poderemos ser felizes. No início, quando der. E um dia, quem sabe, a maior parte do tempo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Sabotador Interno...

Venho por meio desta manifestar o meu repúdio pelo seu recente comportamento. Você estragou tudo, mais uma vez. Quando me aprontava para sair, disse que eu estava feia.
Quando experimentei outra roupa, insinuou que eu já não tinha idade para usar aquilo. Quando cheguei ao meu compromisso, não me deixou falar o que eu havia pensado. E, no final, ainda conseguiu me fazer ser grossa, apressando as despedidas. Ora, quando você irá crescer?

Cansei da sua irresponsabilidade. Compreenda, de uma vez por todas, que estamos no mesmo barco. Se afundo, você vai junto - será que esta metáfora não está óbvia o suficiente?
Não me venha, portanto, com argumentos de homem-bomba. Se você discorda de mim tanto assim, por que não vai embora daqui de dentro? Abaixe esse punhal, apontado para as minhas costas, e cave com ele um túnel de fuga se for necessário.

Não podemos é continuar desse jeito, nessa burra relação autodestrutiva, em que o conteúdo fura a própria embalagem. Até quando você me elogia é com o intuito de me derrubar, já percebeu? Faz com que me acredite linda e sagaz para, no instante seguinte, rir dos meus tropeços. Dizendo "não falei?", com aquela sua cara de madrasta. Torpedeando minhas forças ainda durante os planos de ataque. Minando meus passos ao pisá-los comigo.
Chega, então. Paremos com isso, antes que acabe em tragédia. Antes que, na falta de um gesto meu, por você evitado, eu desabe em escombros. Quero, mais do que nunca, me arrepender depois do que digo e do que faço. Abro mão, com alegria, de todos os seus péssimos sábios conselhos. A vida é curta demais para tamanha precaução e longa demais para se repetir os mesmos erros.

Sim, cheguei a me divertir em sua companhia, quando ainda conseguia ver algum charme no insucesso. Tempos passados. Hoje, luto com unhas e dentes para que tudo dê certo. E das suas idéias, sempre cheias de lógico pessimismo, preciso distância. Não pretendo, porém, uma separação litigiosa, pois sei que você conhece todos os meus pontos fracos e aguarda apenas uma boa oportunidade para atingi-los. Com suas observações de última hora, mortalmente precisas. Proponho, isto sim, um cessar-fogo: você deixa de me dar conselhos e eu imediatamente deixo de segui-los. Parece-me uma trégua justa. Não te desejo mal — entendo que você fez o que tinha de fazer, muitas vezes com a minha velada cumplicidade. Mas estou pronta a ir até o fim nessa luta, a tirar você de mim quanto antes. Saiba que, a partir de hoje, você está como imigrante ilegal aí dentro. E pode até conseguir fugir por um tempo, escondendo-se em subterfúgios. Seus dias de impunidade, entretanto, estão contados.Se você não me atrapalhar, é claro.

(Fernanda Young)