terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Alimentos e Tabernáculos (Capítulo IV)

" (...) O Mestre parou diante de um balcão onde, sob o sol ainda fresco, alguns homens disputavam as partes de um carneiro.

- Agrada ao Pai que vos empenheis assim na aplicação da sua palavra - disse ele, com um divertido ar de provocação.

Esta observação alegrou bastante os compradores. Desandaram a rir e logo formou-se um pequeno círculo em torno do "Rabi" que gostava de brincar.Observei a roupa reluzente, os pesados anéis de um saduceu; o homem não pareceu descontente por apreciar uma distração que, em outras circunstâncias, talvez lhe custasse a reputação. De todo lado espocaram gracejos mas, com voz forte e clara, o Mestre interrompeu:

- Meu gracejo não é uma zombaria, meus Irmãos, aprecio vosso ardor em procurar o alimento. Meu Pai gosta de ver-vos manter o corpo que vos deu para suporte de vossa alma.

Aquelas palavras surpreenderam, pois imediatamente instalou-se o mais completo silêncio. O hábito exigia que os sacerdotes, os doutores e os "outros" pregassem o jejum.

- Vede, meus Irmãos, a casa grande e bela que edificastes para o Eterno - disse ele, apontando para um ângulo da sinagoga -, olhai para suas colunas, sob as quais ouvis discorrerem sobre a lei. Vós a vedes daqui; observai como são robustas. Pensai no amor e na força que vós ou vossos pais empregastes para talhar as pedras da sua base. Pois bem, digo-vos, vosso corpo é semelhante àquela casa que se eleva para os céus. Ele possui todo o valor e todas as promessas de uma pedra angular. Assim, o homem deve trabalhar a base que lhe permite elevar-se até ao Reino."No entanto, que pensaríeis de um construtor que resumisse sua arte no fato de empilhar todas as variedades de pedras sem discernimento? Que pensaríeis de um construtor que desprezasse o sentido do corte, que ignorasse o uso do esquadro e do cinzel, que dão à obra o acabamento que ela merece...
Vós o chamaríeis de insensato. Também vos afirmo, meus Irmãos, age de modo a fazer com que o Pai que vive em vós não tenha do que se queixar de sua morada. Não prego para a dimensão nem para a quantidade de pedras que fazeis vossas, prego para o coração que vos permite estimar seu sentido e destinação. Falo também para o coração que vos ajuda a compreender sua proveniência. Assim, não destruireis pelo que vosso corpo reclama sem ter-vos assegurado da finalidade construtiva desse gesto. Apreciais a carne do animal, mas tente cuidado para que o animal não impregne demais vossa carne e não introduza nela sua vitalidade primeira."É a força que vossa alma ainda impõe a esta terra que vos faz desejar tal alimento. Que os que conseguirem se lembrem das palavras da antiga Escritura: ´Dou-vos todas as ervas que contêm semente e que existem em toda a superfície da Terra, e toda a árvore que dá fruto com semente: será este o vosso alimento.

- Quereis dizer, Rabi, que devemos banir toda a carne?!

- Quero dizer que um coração pronto acha por si só o caminho e pode manter-se nele sem que isto lhe seja pesado. Se teu corpo reclama carne de animal, dá-lhe carne de animal, mas saibas que nela, como em qualquer coisa, absorves uma parcela do Pai, um grão de sua Vida que germinou com amor e te é dado com amor.

Estas palavras, que refletiam a opinião da Fraternidade (essênios), criaram um certo remoinho no agrupamento. Alguns chegaram a esboçar um gesto de humor ou de zombaria, e partiram. Perguntas pipocaram por todos os lados, mas o que devia ser saduceu impôs a sua.

- Como podes dizer, Rabi, que o Eterno reside no fundo de todas as coisas? Se fosse assim, como me atreveria a continuar comendo?

Alguns homens riram e o Mestre abriu a multidão para aproximar-se do balcãozinho onde havia pedaços de carne empilhados. Pegou um prontamente e o estendeu a quem quisesse. Todos calaram-se; ignoravam o que significava aquilo. Então, na palma do Mestre, chamazinhas brancas e azuis começaram a aparecer e a crepitar ao redor do pedaço de carne. Dir-se-ia que um gás inflamado, ou alguma energia secreta, saía dele, depois dispersava-se em pequenos sopros de vida.

A multidão recuou um passo.- É um mago - ouvi gritarem de um ponto qualquer - é preciso avisar o Sinédrio!

- Onde estais vendo magia, meus Irmãos? Queríeis uma resposta e foi vosso próprio Pai quem vos falou. Vós o imaginais tão distante que não possa ouvir-vos? Assim, afirmo-vos, e que estas palavras permaneçam em vós para sempre: cada dia de vossa vida, vos alimentais de meu Pai que pretende ser o vosso, vós tomais sua vida. Sede, pois, tabernáculos puros. Aprendei a transformar o amor pelos apetites materiais em amor pelo Eterno que dorme no que cobiçais. Desta forma, conhecereis o Divino que brilha em cada coisa. Eis o começo do verdadeiro caminho.

(...) Não sabíamos como participar da conversa, mas foi fácil perceber que se tratava de prolongamento do que tinha sido dito na véspera na cidade.

- Ensinai os homens a trabalharem a base de seu ser - dizia o Mestre, com um timbre que se assemelhava a um canto. - Quereis que estes homens tenham asas, quando nem sequer tem pés. Se não reconhecem a Terra como sua Mãe nutriz, achais que durante toda sua existência estejam procurando meu Pai desesperadamente?"Uma de vossas funções, de todos vós cujos corações aspiram abrir os outros corações, é ensinar o povo da terra a purificar-se pela base. Com isto quero dizer a persuadir-se da divindade que reside na mais ínfima das coisas e consequentemente a comportar-se. Os resultados que obtereis poderão parecer-vos fáceis, mas não vos enganeis, porque a persuasão é fácil: quem fala com o coração manipula todo o peso das palavras. Vossa missão não será tanto persuadir como fazer compreender e, vos afirmo, existe um universo entre estes dois termos.Aquele que se diz persuadido é quem acaba joguete de seu intelecto e a quem as palavras fazem mudar de opinião ao sabor das filosofias; aquele que, ao contrário, compreende, é quem sabe, porque mergulha em sua própria essência. Assim, direis em nome de meu Pai: contemplai-vos vós próprios em vosso ser íntimo, vós que buscais sem saber o que já encontrastes, vós que já sois homens e possuís tudo em vós.

Mas, meus Irmãos, tende o cuidado de só ensinar o que vossas almas estão aptas a viver.
Que a taça do vosso amor não esteja pela metade, porque muito poucos poderiam dela beber. Peço-vos, pois, em nome de tudo que nos faz viver estes instantes: reformai vossos corpos a fim de transcender aos corpos das multidões. Sabei absorver a essência eterna de todos os alimentos da terra. Que vossas refeições sejam como cerimônias. A arte primordial do Homem verdadeiro é domesticar o alimento, fazê-lo vibrar no ritmo de seu corpo.Não são frases que vos apresento aqui, mas a descrição de um fenômeno concreto, embora infinitamente sutil. Domesticar o alimento é domesticar os próprios pensamentos. Vossos pensamentos são a única força que envenena ou purifica vosso alimento. Assim, pois, se pudésseis ver as regiões e as circunstâncias de vossa criação celeste, não mais ousaríeis dar ao vosso corpo do que um quarto do que habitualmente o nutre...Deveis vivificar a matéria ao comê-la. Deveis compreender também que ao comê-la servis ao grande desígnio da criação, pois tendes o dom de sublimar o que absorveis. Não é o trabalho de vosso corpo que deve parecer-vos essencial nisso, mas o trabalho de vosso espírito, que chamais para vós e que imprime suas ordens em vossa chama etérea. Eu vos digo, irmãos, vosso amor pode ordenar a vosso ser etéreo que modifique as partículas vitais de todo alimento; ele pode dar-lhe o influxo que transmuta essas partículas com vista a outras encarnações nos reinos que são os delas. Compreendei, então, como é grande a responsabilidade do homem desta Terra. Ele é o centro das trocas, o compo de transmutação das forças."

(O Caminho dos Essênios. Ed. Objetiva)

domingo, 27 de janeiro de 2008

Pegando pra capar...

"...Acho que brigar é uma das atividades mais importantes num relacionamento. Dá jeito em qualquer monotonia. Ateia fogo em neve. Faz namorado com cara de paisagem ter ataque de nervos. Enfim, prova se existe vida por detrás das mãos dadas.

Brigas são imparciais, justas com ambos os lados (independentemente de como terminem): quando brigamos, nos igualamos em sabedoria porque ficamos todos ignorantes (uns com mais tato, outros nem tanto, mas todos ignorantes).
Não é deliciosa essa aproximação com os semelhantes?

É tanta coisa boa pra falar, a respeito de quebra paus... Por exemplo, o fato de que eles aceleram em anos-luz o processo de conhecimento do outro (odeio essa expressão "conhecimento do outro", mas não achei nenhuma melhor).

Quando você acha que realmente saca alguém: em um romântico jantar japonês, regado a "mozinho" e "nenêm", ou num pega-pra-capar dos feios? Pois é. Na hora em que a paciência vai pras cucuias e nosso superego fica, coitadinho, quieto lá no canto, vendo a raiva chegar, toda faceira, percebemos realmente com quem estamos lidando. Ou vivendo.

Por isso sempre saio de quebra-quebras com uma libertadora sensação de tempo poupado: naqueles poucos e tumultuados minutos conheço muito mais sobre os escrúpulos, o modo de encarar o outro e o vocabulário do outro (ih! de novo!) do que em anos de convivência pacífica. Brigas são anti-hipocrisia.

A verdade é que brigar é um tesão. Aliás, dá tesão. E nem é pela hora da reconciliação, não, é pelo ato em si mesmo. Da próxima vez que o céu estiver escurecendo e a voz dela atingindo uns 400 decibéis, preste atenção nos detalhes: a maneira de o adversário construir a defesa, o rumo que a conversa toma, a rapidez das respostas, a capacidade (ou não) de levar a situação sem sair no tapa ou xingar de "desequilibrada", o desfecho, o comportamento nos minutos seguintes. Não é lindo?

É, sim! É o ser humano em estado bruto!"



Um homem chega em casa depois de um duro dia de trabalho, senta na poltrona em frente à televisão e diz à mulher:
- Traga-me uma cerveja antes que comece.
A mulher suspira e traz a cerveja. Dez minutos depois ele diz:
- Traga-me outra cerveja antes que comece.
Ela olha atravessado para o marido, mas traz outra cerveja e a sacode perto dele. Ele termina mais essa cerveja e alguns minutos depois diz:
- Rápido, traga-me outra cerveja que vai começar a qualquer instante.
A esposa fica furiosa e começa a berrar com o marido:
- Isso é tudo o que você vai fazer hoje à noite? Beber cerveja e ficar sentado em frente à televisão? Você não passa de um preguiçoso, bêbadio, um gordo relaxado! E além disso...
Antes que ela termine a frase, o marido levanta os olhos para ela e diz:
- Pronto, começou...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Um palco extraordinário...

A existência é um jogo.
A vida é uma palco onde diversas histórias são contadas.
Não existe nenhum objetivo neste jogo, a não ser contar histórias.
Tampouco, existem ganhadores ou perdedores.
Existe apenas Deus olhando para si mesmo através dos meus olhos, através dos seus olhos.

O ilimitado ilude-se, instante a instante, imaginando o limitado para que possa voltar novamente o foco da sua atenção para o próprio ilimitado, em direção a si mesmo.

Assim é o jogo mestre. Assim são os jogos da consciência: verificar seu próprio sabor, através da linha imaginária do tempo, no teatro da mente. A enorme beleza contida aqui é que você pode escolher o seu jogo... permanecer atado a este teatro, agindo como um fantoche de suas próprias ilusões ou simplesmente aprender a arte de se tornar um observador, um espectador de todos os movimentos mentais gerados pela constante corrente de pensamentos e, simplesmente, descansar, relaxar.
Todo desconforto surge a partir do instante em que você se envolve, se mistura com os dramas e novelas que a sua própria mente cria. Tudo isso o mantém bastante ocupado! Tudo isso gera a própria percepção de que "eu existo". Penso, logo existo!

Entretanto, se por um momento, a mente repousar e desaparecer, onde estará a sua identidade? O que você poderá relatar a seu respeito, a respeito dos outros se não houver pensamentos? Geralmente, nos é solicitado que observemos os nossos pensamentos, as nossas emoções e os nossos sentimentos se quisermos ficar livres do seu jogo. Mas esta não é uma abordagem integral. O verdadeiro trabalho interior começa quando nos tornamos capazes de observar a ação do "eu" na forma de milhares de pensamentos a cada segundo. A ênfase aqui está na procura do "eu". Como ele se manifesta? Como ele se descreve? O que o atinge? Quais são suas preferências, apegos e aversões? Para cada uma dessas questões haverá uma corrente de pensamentos – que vão dos mais grosseiros aos mais sutis – limitando o entendimento daquilo que você realmente é.

Não tente parar o pensamento. É impossível! Porém, é possível compreender a futilidade do "eu", daquilo que você chama "eu". Basta olhar para todas as suas estratégias no sentido de evitar o sofrimento e perceber que, raramente, elas funcionam.
Basta verificar a sua sede insaciável por novas experiências, pela própria maneira como lida com o prazer. O "eu" é uma falsa promessa. Ele nada pode fazer. Suas artimanhas têm sempre um único intuito: evitar a vida. O "eu" não quer parar. Se isso acontecer, ele verá que nada significa perante a vida e que sua aparição é, toda ela, fruto do medo e da mentira. Deixe doer o que tiver que doer! Tire a mão do leme e deixe seu barco à deriva! Cometa erros!

Viva sua vida a partir da perspectiva de um mero expectador. Pare de filtrar a vida. Aceite TUDO! Essa é a minha proposta. Aquilo que procuras requer apenas a sua disposição para morrer. O universo deseja cantar uma música através de você. A sua presença, porém, distorce essa música. Então, saia de cena e vá para a platéia. O seu drama se tornará engraçado. O motivo é muito simples: ele não lhe pertence.

Ele é parte da vida, dos jogos arquitetados por uma criatividade bastante evidente. Ao reconhecer esta criatividade você estará reconhecendo a si mesmo. Ao reconhecer esta criatividade presente em TUDO, tudo se tornará claro. Você não é e nunca foi o ator! Deus é! A vida é...
(Rasul)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Por que é tão difícil se relacionar?

Porque você ainda não é.
Há um vazio interior e o medo de que ao se relacionar com alguém, mais cedo ou mais tarde, você será exposto como sendo vazio. Por isso parece mais seguro manter distância das pessoas, pelo menos você pode fingir que é.
Você não é.
Você ainda não nasceu, é apenas uma potencialidade.
Você ainda não esta preenchido e só duas pessoas preenchidas podem se relacionar. Relacionar-se é uma das melhores coisas da vida: relacionar-se significa compartilhar. Mas antes de poder compartilhar, você tem que ter. E antes de poder amar, você deve estar cheio de amor, transbordando de amor.
Duas sementes não podem se relacionar, elas estão fechadas. Duas flores podem se relacionar, elas estão abertas, podem mandar suas fragrâncias uma à outra, podem dançar no mesmo sol e no mesmo vento, podem dialogar, podem sussurrar. Mas isso não é possível para duas sementes. As sementes são totalmente fechadas, sem janelas - como podem se relacionar? E esta é a situação. O homem nasceu como uma semente. Ele pode se tornar flor, ou não.


Tudo depende de você, do que faz consigo mesmo; tudo depende de você, crescer ou não.
A escolha é sua - e ela tem que ser encarada a cada momento; você está na encruzilhada a cada momento. Milhões de pessoas decidem não crescer.
Elas permanecem sementes, permanecem potencialidades, nunca se tornam realidade.
Elas não sabem o que é auto-realização, não sabem o que é auto-concretização, não sabem nada do ser. Vazias elas vivem e totalmente vazias elas morrem. Como podem se relacionar?

Isso será expor a si mesmo - sua nudez, sua feiúra, seu vazio. Parece mais seguro manter uma distância. Até mesmo amantes mantém distância; eles só vão até um ponto e permanecem atentos de onde voltar. Eles têm limites, nunca atravessam os limites, permanecem confinados em seus limites.
Sim, há um tipo de relacionamento, mas não o de se relacionar, é o de possuir: o marido possui a esposa, a esposa possui o marido, os pais possuem os filhos, e assim por diante.
Mas possuir não é se relacionar. Na verdade, possuir é destruir todas as possibilidades de se relacionar.
Se você se relaciona, você respeita, você não pode possuir. Se você se relaciona, há uma grande reverência. Se você se relaciona, chega perto, muito perto, em profunda intimidade, se sobrepõe.

Contudo, a liberdade do outro não é invadida, o outro permanece um indivíduo independente. O relacionamento é o do eu-você e não do eu-isso - se sobrepondo, interpenetrando, todavia num sentido independente.
Khalil Gibram diz: "Sejam como dois pilares que sustentam o mesmo teto, mas não comece a possuir o outro. Deixe o outro independente. Sustentem o mesmo teto: esse teto é o amor".

Dois amante sustentam algo invisível e algo imensamente valioso: uma certa poesia dor ser, uma certa música ouvida nos mais profundos recantos da sua existência. Eles se apóiam, apóiam uma certa harmonia, mas mesmo assim permanecem independentes. Eles podem se expor ao outro, porque não há medo algum. Eles sabem quem são.

Eles conhecem sua beleza interior, conhecem seu perfume interior, não há medo nenhum. Mas normalmente o medo existe, porque você não tem nenhum perfume.
Se você se expor, simplesmente federá. Você federá ciúmes, raivas, ódios, cobiças.
Você não terá o perfume do amor, da oração, da compaixão.

Milhões de pessoas decidiram permanecer sementes. Por que?
Se elas podem se tornar flores e podem também dançar ao vento, sob o sol e sob a lua, por que decidiram permanecer sementes? Há algo em suas decisões. A semente esta mais segura do que a flor. A flor é frágil; a semente não é frágil, a semente parece mais forte.
A flor pode ser destruída muito facilmente; apenas um vento forte, e as pétalas murcham. A semente não pode ser destruída tão facilmente pelo vento; a semente está muito protegida, segura. A flor exposta, uma coisa tão delicada e exposta a tantos perigos. O vento pode vir forte, pode chover a cântaros, o sol pode ser forte demais, algum tolo pode colher a flor. Qualquer coisa pode acontecer à flor, tudo pode acontecer à flor; a flor está constantemente em perigo. Mas a semente está segura!

Por isso milhões de pessoas decidem permanecer sementes, mas permanecer semente é permanecer morto, permanecer semente é não viver de modo algum. Certamente ela está segura, mas não tem vida.

A morte é segura, a vida é insegura. A pessoa que realmente quer viver, tem que viver em perigo, em constante perigo. Aquele que quer escalar os mais alto picos tem que correr o risco de cair de algum lugar, de escorregar.
Quanto maior o desejo de crescer, mais e mais perigo tem de ser aceito. O homem verdadeiro aceita o perigo como seu próprio estilo de vida, como seu próprio clima de crescimento.

Você me pergunta: "Por que é tão difícil se relacionar?"
É difícil porque você ainda não é. Primeiro seja.
Tudo mais é possível só depois disso: primeiro seja.
Jesus disse isso em sua própria maneira: "Primeiro busque o reino de Deus, então tudo o mais será dado a você". Essa é simplesmente uma velha expressão para a mesma coisa que eu estou dizendo: primeiro seja, então tudo o mais será dado à você. Mas ser é o requisito básico. Se você é, a coragem vem como consequência. Se você é, um grande desejo de se aventurar, de descobrir, surge. E quando você está pronto para descobrir, você pode se relacionar.

Relacionar é descobrir - descobrir a consciência do outro, descobrir o território do outro. Mas quando você descobre o território do outro, tem que permitir e dar as boas vindas para o outro descobrir você. Não pode ser um caminho de mão única. E você pode permitir que o outro o descubra somente quando tiver algum tesouro dentro de si. Então não há medo. Na verdade você convida a pessoa, abraça o convidado, o chama para dentro, quer que ele entre.
Você quer que ele veja o que você descobriu em si mesmo, quer compartilhar.
Se você é, um grande desejo de se aventurar, de descobrir, surge. Primeiro seja, então você pode se relacionar. E lembre-se, relacionar é lindo. Relacionamento é um fenômeno totalmente diferente; relacionamento é algo morto, fixo, um ponto final chegou. Agora as coisa apenas declinarão. Você chegou ao limite, nada mais está crescendo. O rio parou se tornando um reservatório.

Relacionamento é uma coisa completa. Relacionar é um processo.

Evite relacionamentos e vá cada vez mais fundo no relacionar. A minha ênfase está em verbos, não em substantivos. Evite substantivos o máximo possível. Na linguagem você não pode evitar, eu sei, mas na vida, evite - Porque a vida é um verbo. A vida não é um substantivo; é na verdade "viver" e não "vida". Não é "amor", é "amar". Não é relacionamento é relacionar. Não é uma canção, é cantar. Não é uma dança, é dançar.

Veja a diferença, saboreie a diferença. Uma dança é algo completo; os últimos toques foram feitos, agora não há mais nada a fazer. Algo completo é algo morto. A vida não conhece nenhum ponto final; virgulas sim, mas pontos finais não. Lugares de descanso sim, mas chegada não.
Em vez de pensar em como se relacionar, preencha o primeiro requisito: medite, seja.
Então o relacionar surgirá por si próprio. A pessoa que se torna silenciosa, em benção, que começa a ter energias transbordantes, que se torna uma flor, tem que se relacionar. Não é algo que ela tenha que aprender como fazer; é algo que começa a acontecer. Ela se relaciona com as pessoas, se relaciona com animais, se relaciona com arvores, se relaciona até mesmo com rochas.

Na verdade ela se relaciona vinte e quatro horas por dia. Se ela esta caminhando na terra, está se relacionado com a terra - seus pés tocando a terra, isso é um relacionar-se.
Se ela está nadando no rio, esta se relacionando com o rio, e se está olhando para as estrelas, está se relacionando com as estrelas. Não é uma questão de relacionamento com alguém em particular.A questão básica é, se você é, a sua vida se torna um relacionar-se.

É uma constante canção, uma constante dança, é um continuum, um fluir como o rio. Medite, encontre o seu próprio centro primeiro. Antes que você possa se relacionar com outra pessoa, relacionar-se consigo mesmo: esse é o requisito básico a ser preenchido. Sem ele nada é possível. Com ele, nada é impossível.
(Osho)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Os sensatos e os perigosos...

"O profundo mistério do meu ser freqüentemente me é oculto pelo conceito que faço de mim mesmo."
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"Um dos fatos mais perturbadores no julgamento de [Adolf] Eichmann é que um psiquiatra o examinou e o considerou perfeitamente são. Não duvido, de forma alguma, e é precisamente por isso que acho o fato perturbador. A sanidade de Eichmann é perturbadora. Associamos sanidade com senso de justiça, humanidade, prudência, capacidade de amar e entender as pessoas.

Dependemos das pessoas sãs do mundo para preservá-lo da barbárie, da loucura, da destruição.
E agora começamos a nos dar conta de que os sensatos é que são os mais perigosos. São os sensatos, os bem adaptados que, sem receios e sem escrúpulos, apontam os projéteis e apertam os botões que iniciarão o grande festival de destruição que eles, os sadios, prepararam. O que nos dá tanta certeza de que, afinal, o perigo provem de um psicótico em condições de disparar o primeiro tiro numa guerra nuclear?

Os psicóticos serão suspeitos. Os sadios os manterão afastados dos botões. Ninguém suspeita dos sadios, que terão sempre boas razões, lógicas e plausíveis, para disparar. Estarão obedecendo ordens sadias que terão vindo de forma sensata pela cadeia de comando. E, por causa de sua sanidade, jamais terão escrúpulos. Quando os mísseis forem disparados, não terá sido por engano." (Thomas Merton)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Piada cósmica...

Conheci, ao longo da minha vida, alguns seres especiais (espaciais, infelizmente, jamais) e posso inferir: o homem perfeito é uma grande bobagem. O que existe são seres que aprenderam como atenuar o sofrimento e suas causas e, evidentemente, estão mais próximos do sentimento mais cobiçado pela humanidade, a felicidade.
É claro que existem os iluminados. Mas estes não costumam aparecer por aqui com frequencia.

Os budistas dizem que estamos aprisionados no samsara (o contínuo círculo vicioso de confirmação da existência). Trata-se de uma magnífica explicação sobre o funcionamento da mente humana e todos os estilos de aprisionamento a que estamos submetidos.
O estado de nirvana ou de iluminação se dá quando rompemos o samsara e as causas do sofrimento são, finalmente, controladas, conhecidas e dizimadas.

Crêem os sagrados leitores que o samsara é o contrário de nirvana, como são o paraíso e o inferno para os cristãos? Não.
Na absoluta ausência de dualidade que caracteriza o budismo, samsara é o mesmo que nirvana.

Uma das causas mais comuns de sofrimento advém da nossa insana batalha para provarmos nossa existência. Em geral atribuímos esse papel a outro. Mendigamos por um elogio, uma crítica, algo que nos confirme enquanto seres humanos. As relações conjugais, familiares e sociais são exemplos claros desse tipo de afirmação do ego.

Mas até que ponto existe solidez neste eu e neste outro?
Segundo o tibetado Chogyam Trungpa, em seu genial e definitivo livro O Mito da Liberdade (Ed. Cultrix), "no começo existe apenas o espaço aberto, o zero, aquilo que se autocontém sem relacionamento. Mas, a fim de confirmar este estado zero, somos compelidos a criar o um para provar que o zero existe..."

Ou seja, passamos a vida construindo algo "sólido", um nome, um eu, nos protegendo da morte, e acreditamos que estaremos seguros sobre esse piso. Mas, de repente, escorregamos para fora dele. "Na verdade", conclui Trungpa, "nosso trabalho de prolongar o piso a fim de garantir nosso chão não passa de uma grande piada, a maior de todas, uma piada cósmica."

Samsara e Nirvana
Mas há de me perguntar o sagrado leitor: e o que devemos fazer para escapar dessa e de outras armadilhas do samsara? Pois bem, quase todas as chaves da porta do corredor que liga o samsara ao nirvana estão inseridas nas práticas (a leitura, com certeza, não nos leva a muita coisa), como a da meditação.

Ali, dentro de você, com aquela gritaria que são os seus pensamentos, com a sua respiração ritmada, sentado, a coluna ereta, você estará vivenciando o espaço aberto. O "zero" a que Trungpa se refere. O nada ligado ao nada. Os pensamentos, querendo atribuir nomes às coisas, passando como nuvens. (Alguns insistem em ficar...)

Sobrepostos, Coloridos. Amarfanhados. Passados. Ansiosos. Otimistas. Ilusórios.
Com certeza, depois de alguma vida meditativa, o sagrado leitor há de achar graça, na piada cósmica contada por Chogyam Trungpa.

(Tenzin Chopel)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A Cobradora...

Um dia aparece, apareceu ou aparecerá na sua vida A Cobradora.
Loira, ruiva ou morena. Gorda, magra ou com o peso exato.
Jovem, de meia-idade ou velha. Todas as cores. Todos os tamanhos.
Você encontra A Cobradora ou ela encontra você, em todos os modelos.

A Cobradora, como diz o nome, é mestra na arte de cobrar.
E com seu faro majestoso ela descobre sua presa com rapidez avassaladora: homens sujeitos a cobranças.

A Cobradora vai cobrar você porque:

Você acende o abajur para ler à noite;
Não acende o abajur para ler à noite;
Você dá muita atenção a seus amigos;
Não dá atenção a seus amigos;
Você olha demais para as amigas dela;
Mal põe os olhos nas amigas dela;
Você pronuncia errado nomes de atores e atrizes em inglês;
Soa esnobe ao pronunciar corretamente os nomes de atores e atrizes em inglês;
Você é rápido demais na cama;
É lentoooooooo;
Você é muito ambicioso no trabalho;
O seu problema é a falta de ambição profissional;
Você é romântico demais;
Falta romantismo em você;
Você gosta de futebol;
Você é o único homem do mundo que não gosta de futebol;
Você gosta de cerveja;
Nem por cerveja você parece ainda se interessar;
Você está parecendo um monge budista com essas roupas despojadas;
Você é o próprio mauricinho com esse estoque de gravatas ridículas;
Seu cabelo está curto demais;
Você parece ter esquecido que existem barbeiros;
Você leva trabalho para casa;
Não leva trabalho para casa, ao contrário dos bem-sucedidos maridos de todas as amigas;
Fala demais;
Fala pouco;
Não lhe dá flores;
Continua a dar flores como se fossem ainda adolescentes;
Não a leva ao cinema;
Só pensa em ir ao cinema;
É mole demais;
É um durão intragável;
É um troglodita ao volante;
É uma mocinha quando dirige, se deixando ultrapassar por todos;
Ainda ouve rock;
Deixou de ouvir rock;
Você vê novela;
Não lhe faz companhia quando ela vê novela;
Não diz que está bonita;
Repete, como um monomaníaco que ela está bonita;
É muito agressivo com a sogra;
Não sabe se colocar perante a sogra;
É agressivo demais nas preliminares sexuais;
É pouco agressivo;
Dorme virado para ela;
Dorme de costas;
Cita demais pensadores, cineastas, artistas ou o que for europeus;
Não cita ninguém;
Gosta de filme americano;
Não suporta Hollywood;
Pensa que é o rei do mundo;
Age como um zé-ninguém;
Faz barulho quando come pipoca;
Não lhe oferece pipoca;

A lista é infindável. Um dia uns acordam. (Outros, não.) Ao acordar, despedem A Cobradora. E descobrem que a felicidade não está tão longe assim.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Conhecimento e Silêncio.. Oração...

"Oprimido por palavras, pela falsidade e desnecessidade da maioria das coisas que digo aos outros. O que espero encontrar nas palavras que lhes dirijo?
O que, não encontrando, ressinto?
Não tenho nada a dizer!
Como eu seria feliz se admitisse isso na prática! Mas creio que todos os homens, em todas as épocas, esperam que se diga alguma coisa.
Que tolo fiz de mim mesmo ao me tomar por sábio.
E agora não ouso ficar quieto, embora não tenha nada a dizer"



"O Buda perguntou a Sariputra: 'Acreditas em mim?' Sariputra respondeu: 'Não'.
Mas o Buda o elogiou por isso. Foi o discípulo favorito porque não acreditava em Buda, apenas o respeitava como a outro homem qualquer, mas que tinha sido iluminado.
Que é o 'conhecimento da libertação?' - eu perguntei. - 'Quando você está em Bancoc, você sabe que está ali. Antes disso você só sabia a respeito de Bancoc.
A pessoa tem que subir todos os degraus e, depois, quando não há mais degraus, terá que dar um salto. O conhecimento da libertação é o conhecimento, a experiência desse salto'."
(Thomas Merton, Diário da Ásia, p. 10)



Oração
Senhor meu Deus, não sei para onde vou.
Não vejo o caminho em frente, nem sei ao certo onde ele findará.
Na verdade nem me conheço e o fato de pensar que estou a seguir a Tua vontade não quer dizer que eu esteja a ser-lhe fiel.
Mas creio que o desejo de Te agradar Te agrada realmente.
E espero manter este desejo em tudo quanto fizer.
Espero jamais fazer qualquer coisa alheia a esse desejo.
Sei que, se agir assim, Tu me conduzirás pelo caminho certo, embora eu nada possa saber sobre ele.
Por isso, sempre confiarei em Ti, mesmo que me sinta perdido ou às portas da morte, nada recearei, pois Tu estás sempre comigo e nunca me deixarás sozinho. (Thomas Merton)
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"É muito estranho que as pessoas que não sabem quem elas são, estão tentando se tornar alguém."

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou.
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.

Tenho equilíbrio. Procuro por mais.
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2008. (Guilherme)



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente". (Carlos Drummond de Andrade)