domingo, 23 de novembro de 2008

Ewige Wiederkunft

Eterno retorno é um conceito filosófico formulado por Friedrich Nietzsche. Em alemão o termo é Ewige Wiederkunft. Uma síntese dessa teoria é encontrada em Gaia Ciência:
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"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
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O velho Friedrich afirmava na teoria do Eterno Retorno, em linhas gerais que, partindo-se do princípio de que o Universo é eterno e que a matéria existente é finita (na verdade, Nietzsche falava em “forças”), então, após um período de tempo absurdamente grande, quando a matéria tiver esgotado todas as possibilidades de combinação, ela terá que se recombinar exatamente da forma como está neste instante, de modo que em algum momento
no futuro, eu estarei escrevendo a mesma coisa e você lerá exatamente isso que escrevi.
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Ele Fala da ordem das coisas. Ele nos mostra como o Mundo não é feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma -- múltipla, mas única -- realidade. Logo, bem e mal, angústia e prazer, são instâncias complementares da realidade - instâncias que se alternam eternamente. Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado), a alternância nunca finda. Ou seja, considerando-se o tempo infinito e as combinações de forças em conflito que formam cada instante finitas, em algum momento futuro tudo se repetirá infinitas vezes. Assim, vemos sempre os mesmos fatos retornarem indefinidamente.
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A pergunta que o conceito do Eterno Retorno nos faz é: amamos ou não amamos a vida? Se tudo retorna - o prazer, a dor, a angústia, a guerra, a paz, a grandeza, a pequenez -- se tudo torna, isto é um dom divino ou uma maldição? Amamos a vida a tal ponto de a querermos, mesmo que tivéssemos que vivê-la infinitas vezes sem fim? Sofrendo e gozando da mesma forma e com a mesma intensidade? Seríamos capazes de amar a vida que temos - a única vida que temos - a ponto de querer vivê-la tal e qual ela é, sem a menor alteração, infinitas vezes ao longo da eternidade?
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A pergunta que Nietzsche quer que nos façamos é: amamos mesmo a vida? Se soubéssemos que sofreríamos tudo de novo, inúmeras vezes, gostaríamos mesmo de voltar? É lógico e simples responder isso quando acabamos de passar no Vestibular, ou quando voltamos de uma festa com amigos lindos. Mas será que responderíamos a mesma coisa ao perder uma mãe ou pai? Ao ser traído pelo grande amor?
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Temos tal amor ao nosso destino? - Eis a grande indagação que é o Eterno Retorno.

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