sábado, 12 de abril de 2008

A verdade sobre a mentira...

Você sempre fala, e como fala, que está interessado em encontrar a verdade, custe o que custar. Diz que busca a verdade dia e noite. Que quer descobrir a verdadeira verdade. Diz que não agüenta mais tanta filosofia de botequim, doutrina de shopping center, mestre sala, guru, blá-blá-blá, pipipi e pópópó. Bem, isto é o que você diz, agora, eu lhe pergunto: se você quer saber a verdade, será que está preparado para admitir a mentira também? Sem folhas de parreira? Ou será que está apenas buscando uma nova mentira? Uma mentira mais erudita? Mais cibernética? Mais poética? Mais perfumada? Mais apaixonante?
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A verdade sobre a mentira é muito simples: tudo que você conhece é mentira. Eis a verdade! Verdade é ciência da mentira. Tremendo paradoxo, não é mesmo? Mas creio que isto explica porque você roda-roda, busca-busca, mas nunca que encontra a verdadeira verdade. Você busca uma verdade separada da mentira, mas a verdade e a mentira são como o oceano e a onda, inseparáveis.
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A verdade sobre a mentira não é uma nova verdade. Muito pelo contrário! É olhar para a mesma mentira de sempre e reconhecer a mesma verdade de sempre: tudo que você conhece é mentira. Ou seja, você já sabe a verdade, falta apenas saber que sabe. Eis o truque. Se você está em frente um espelho acreditando que você é sua imagem, e, de repente, você se dá conta que não é a imagem, o que muda de fato? Nada muda. Você apenas se dá conta que está olhando para sua imagem. Saber a verdade é simples assim: ver a mentira.
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Vou ilustrar com outro exemplo. Certa vez, negociando com um amigo, notei que ele estava puxando a sardinha para o lado dele. Fiz um semblante de Francisco de Assis e o chamei de egoísta. Ele me respondeu de supetão: "Sou egoísta sim, porque, você não é?". Ele quebrou minhas pernas e meu nariz de Pinóquio. Fui obrigado a ver a mentira evidente: meu Francisco de Assis era um hipócrita.
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Mas por que tanta confusão teórica sobre algo tão simples? Ora, justamente porque é simples. A função do pensamento é iludir você, não é despertá-lo. Sendo assim, se você quer realmente saber a verdade, sugiro que pare imediatamente de buscar a verdade e passe a observar a mentira. Por exemplo, até quando você vai fingir que não é invejoso? Até quando vai fingir que não sente raiva? Até quando vai fingir que não cobiça a mulher do próximo e do distante? Até quando vai fingir que é feliz?
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Para concluir esta introdução, quero dizer que há um caminho filosófico endeusado pelo racionalismo e trilhado por seguidores fiéis, mas que não leva, nunca levou e nunca levará você a verdade: é o caminho teórico. Por que digo isto? Primeiro porque já o trilhei. Depois, porque buscar a verdade de forma teórica é o mesmo que um cego decorar a definição de visão e achar que sabe o que é ver. Não é raciocinando teorias sobre a verdade que você sabe a verdade. A verdade não é uma teoria, uma ideologia, uma crença, um conhecimento cientifico, nem espiritual, a verdade é o que você sabe quando está olhando para a mentira. Então, ainda que este livro tenha sido escrito para ajudá-lo saber a verdade, não espere encontrar a verdade aqui, pois este livro não pode ver a mentira, só quem pode ver a mentira é você.
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"Verdade é aquela cuja contradição também é verdadeira." (Provérbio Zen)
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(Marcelo Ferrari)

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