sábado, 1 de março de 2008

O Amor supera os fatos...

Era um casal apaixonado. Lembro-me de vê-los na praia todos os fins de semana. Sempre sozinhos. Riam muito. Pareciam viver num mundo à parte. Entravam no mar e ali ficavam, juras de amor eternos, beijos, brincadeiras e sonhos. Certa vez aproximei-me dos dois a fim de escutar o que falavam, como falavam. Puro código de amantes.
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Ela, dentes perfeitos, alvos, um corpo bonito, atraente, seios eretos, 30 anos. Ele, um rapaz alto e magro, brincalhão, muito sorridente, 40 anos e uma aparência jovial. Tornei-me um voyeur desse romence.
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Ela passava o protetor solar em suas costas, acariciando-o com meticulosos movimentos circulares. Ele trafegava sobre a areia quente do verão levando dois cocos verdes. Sempre se beijavam.
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Certo fim de tarde de um sábado, quando o verão já estava de malas prontas e a brisa de outono começava a soprar, vi os dois andando à beira-mar. Estavam mudos. Caminhavam de maneira desconcertada. Não estavam juntos. Uma briga, pensei. Resolvi segui-los. Até que ele parou e começou a gesticular nervosamente. Ela estava chorando. Suas lágrimas rolavam por seu lindo rosto. Uma briga feia. Nas costas do rapaz, arranhões. Uma briga muito feia.
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Mas, na manhã seguinte, lá estavam os dois embaixo do guarda-sol azul aos beijos e risadas. Apesar das feridas, o amor dos dois parecia mais nítido e intenso. Alguém.. uma vez me disseram "Se acabou é porque não era amor". E, de fato, era amor. Mas um amor que estranhamente parecia agonizar. Já não via mais os dois amando-se no mar. As gargalhadas foram dando lugar a uma sintomática mudez.
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De vez em quando eu passava em frente à casa onde moravam e ouvia gritos e bater de portas. Numa dessas vezes tive uma vontade louca de entrar e perguntar-lhes: "Por que vocês fizeram isso? Era tão lindo vê-los! Parem já com isso!". Mas estava fora do meu alcance tal intromissão. O apego de um pelo outro, que infelizmente, atende pelo nome de "amor", estava migrando para um sentimento pantanoso e sombrio: a aversão.
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E foi o que aconteceu. No fim de semana passado vi a moça na praia conversando com uma senhora. Sua mãe, suponho. Sob o mesmo guarda-sol azul. Aproximei-me para escutar o que diziam. Falavam mal do rapaz. De uma maneira apaixonada, falavam horrores do rapaz.
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Ela tinha perdido seu viço. Seu viço era seu moço. Ou seu vício, como queiram. A mãe: expressão de uma heróica bombeira que salvou a filha de um incêndio. Em vão, aliás. O amor supera os fatos. Quando é amor, claro. Na minha bola de cristal posso ver os dois juntos. Nesta ou em outra vida. Não tenham dúvidas!

2 comentários:

helen disse...

Nossa, serviu meio pra mim esse texto! =~
Fiquei tensa ao le-lo.
=/

bjs amigo de faculdade!

Ana disse...

Obrigada. E vale a pena vir aqui...