quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Piada cósmica...

Conheci, ao longo da minha vida, alguns seres especiais (espaciais, infelizmente, jamais) e posso inferir: o homem perfeito é uma grande bobagem. O que existe são seres que aprenderam como atenuar o sofrimento e suas causas e, evidentemente, estão mais próximos do sentimento mais cobiçado pela humanidade, a felicidade.
É claro que existem os iluminados. Mas estes não costumam aparecer por aqui com frequencia.

Os budistas dizem que estamos aprisionados no samsara (o contínuo círculo vicioso de confirmação da existência). Trata-se de uma magnífica explicação sobre o funcionamento da mente humana e todos os estilos de aprisionamento a que estamos submetidos.
O estado de nirvana ou de iluminação se dá quando rompemos o samsara e as causas do sofrimento são, finalmente, controladas, conhecidas e dizimadas.

Crêem os sagrados leitores que o samsara é o contrário de nirvana, como são o paraíso e o inferno para os cristãos? Não.
Na absoluta ausência de dualidade que caracteriza o budismo, samsara é o mesmo que nirvana.

Uma das causas mais comuns de sofrimento advém da nossa insana batalha para provarmos nossa existência. Em geral atribuímos esse papel a outro. Mendigamos por um elogio, uma crítica, algo que nos confirme enquanto seres humanos. As relações conjugais, familiares e sociais são exemplos claros desse tipo de afirmação do ego.

Mas até que ponto existe solidez neste eu e neste outro?
Segundo o tibetado Chogyam Trungpa, em seu genial e definitivo livro O Mito da Liberdade (Ed. Cultrix), "no começo existe apenas o espaço aberto, o zero, aquilo que se autocontém sem relacionamento. Mas, a fim de confirmar este estado zero, somos compelidos a criar o um para provar que o zero existe..."

Ou seja, passamos a vida construindo algo "sólido", um nome, um eu, nos protegendo da morte, e acreditamos que estaremos seguros sobre esse piso. Mas, de repente, escorregamos para fora dele. "Na verdade", conclui Trungpa, "nosso trabalho de prolongar o piso a fim de garantir nosso chão não passa de uma grande piada, a maior de todas, uma piada cósmica."

Samsara e Nirvana
Mas há de me perguntar o sagrado leitor: e o que devemos fazer para escapar dessa e de outras armadilhas do samsara? Pois bem, quase todas as chaves da porta do corredor que liga o samsara ao nirvana estão inseridas nas práticas (a leitura, com certeza, não nos leva a muita coisa), como a da meditação.

Ali, dentro de você, com aquela gritaria que são os seus pensamentos, com a sua respiração ritmada, sentado, a coluna ereta, você estará vivenciando o espaço aberto. O "zero" a que Trungpa se refere. O nada ligado ao nada. Os pensamentos, querendo atribuir nomes às coisas, passando como nuvens. (Alguns insistem em ficar...)

Sobrepostos, Coloridos. Amarfanhados. Passados. Ansiosos. Otimistas. Ilusórios.
Com certeza, depois de alguma vida meditativa, o sagrado leitor há de achar graça, na piada cósmica contada por Chogyam Trungpa.

(Tenzin Chopel)

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