terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Alimentos e Tabernáculos (Capítulo IV)

" (...) O Mestre parou diante de um balcão onde, sob o sol ainda fresco, alguns homens disputavam as partes de um carneiro.

- Agrada ao Pai que vos empenheis assim na aplicação da sua palavra - disse ele, com um divertido ar de provocação.

Esta observação alegrou bastante os compradores. Desandaram a rir e logo formou-se um pequeno círculo em torno do "Rabi" que gostava de brincar.Observei a roupa reluzente, os pesados anéis de um saduceu; o homem não pareceu descontente por apreciar uma distração que, em outras circunstâncias, talvez lhe custasse a reputação. De todo lado espocaram gracejos mas, com voz forte e clara, o Mestre interrompeu:

- Meu gracejo não é uma zombaria, meus Irmãos, aprecio vosso ardor em procurar o alimento. Meu Pai gosta de ver-vos manter o corpo que vos deu para suporte de vossa alma.

Aquelas palavras surpreenderam, pois imediatamente instalou-se o mais completo silêncio. O hábito exigia que os sacerdotes, os doutores e os "outros" pregassem o jejum.

- Vede, meus Irmãos, a casa grande e bela que edificastes para o Eterno - disse ele, apontando para um ângulo da sinagoga -, olhai para suas colunas, sob as quais ouvis discorrerem sobre a lei. Vós a vedes daqui; observai como são robustas. Pensai no amor e na força que vós ou vossos pais empregastes para talhar as pedras da sua base. Pois bem, digo-vos, vosso corpo é semelhante àquela casa que se eleva para os céus. Ele possui todo o valor e todas as promessas de uma pedra angular. Assim, o homem deve trabalhar a base que lhe permite elevar-se até ao Reino."No entanto, que pensaríeis de um construtor que resumisse sua arte no fato de empilhar todas as variedades de pedras sem discernimento? Que pensaríeis de um construtor que desprezasse o sentido do corte, que ignorasse o uso do esquadro e do cinzel, que dão à obra o acabamento que ela merece...
Vós o chamaríeis de insensato. Também vos afirmo, meus Irmãos, age de modo a fazer com que o Pai que vive em vós não tenha do que se queixar de sua morada. Não prego para a dimensão nem para a quantidade de pedras que fazeis vossas, prego para o coração que vos permite estimar seu sentido e destinação. Falo também para o coração que vos ajuda a compreender sua proveniência. Assim, não destruireis pelo que vosso corpo reclama sem ter-vos assegurado da finalidade construtiva desse gesto. Apreciais a carne do animal, mas tente cuidado para que o animal não impregne demais vossa carne e não introduza nela sua vitalidade primeira."É a força que vossa alma ainda impõe a esta terra que vos faz desejar tal alimento. Que os que conseguirem se lembrem das palavras da antiga Escritura: ´Dou-vos todas as ervas que contêm semente e que existem em toda a superfície da Terra, e toda a árvore que dá fruto com semente: será este o vosso alimento.

- Quereis dizer, Rabi, que devemos banir toda a carne?!

- Quero dizer que um coração pronto acha por si só o caminho e pode manter-se nele sem que isto lhe seja pesado. Se teu corpo reclama carne de animal, dá-lhe carne de animal, mas saibas que nela, como em qualquer coisa, absorves uma parcela do Pai, um grão de sua Vida que germinou com amor e te é dado com amor.

Estas palavras, que refletiam a opinião da Fraternidade (essênios), criaram um certo remoinho no agrupamento. Alguns chegaram a esboçar um gesto de humor ou de zombaria, e partiram. Perguntas pipocaram por todos os lados, mas o que devia ser saduceu impôs a sua.

- Como podes dizer, Rabi, que o Eterno reside no fundo de todas as coisas? Se fosse assim, como me atreveria a continuar comendo?

Alguns homens riram e o Mestre abriu a multidão para aproximar-se do balcãozinho onde havia pedaços de carne empilhados. Pegou um prontamente e o estendeu a quem quisesse. Todos calaram-se; ignoravam o que significava aquilo. Então, na palma do Mestre, chamazinhas brancas e azuis começaram a aparecer e a crepitar ao redor do pedaço de carne. Dir-se-ia que um gás inflamado, ou alguma energia secreta, saía dele, depois dispersava-se em pequenos sopros de vida.

A multidão recuou um passo.- É um mago - ouvi gritarem de um ponto qualquer - é preciso avisar o Sinédrio!

- Onde estais vendo magia, meus Irmãos? Queríeis uma resposta e foi vosso próprio Pai quem vos falou. Vós o imaginais tão distante que não possa ouvir-vos? Assim, afirmo-vos, e que estas palavras permaneçam em vós para sempre: cada dia de vossa vida, vos alimentais de meu Pai que pretende ser o vosso, vós tomais sua vida. Sede, pois, tabernáculos puros. Aprendei a transformar o amor pelos apetites materiais em amor pelo Eterno que dorme no que cobiçais. Desta forma, conhecereis o Divino que brilha em cada coisa. Eis o começo do verdadeiro caminho.

(...) Não sabíamos como participar da conversa, mas foi fácil perceber que se tratava de prolongamento do que tinha sido dito na véspera na cidade.

- Ensinai os homens a trabalharem a base de seu ser - dizia o Mestre, com um timbre que se assemelhava a um canto. - Quereis que estes homens tenham asas, quando nem sequer tem pés. Se não reconhecem a Terra como sua Mãe nutriz, achais que durante toda sua existência estejam procurando meu Pai desesperadamente?"Uma de vossas funções, de todos vós cujos corações aspiram abrir os outros corações, é ensinar o povo da terra a purificar-se pela base. Com isto quero dizer a persuadir-se da divindade que reside na mais ínfima das coisas e consequentemente a comportar-se. Os resultados que obtereis poderão parecer-vos fáceis, mas não vos enganeis, porque a persuasão é fácil: quem fala com o coração manipula todo o peso das palavras. Vossa missão não será tanto persuadir como fazer compreender e, vos afirmo, existe um universo entre estes dois termos.Aquele que se diz persuadido é quem acaba joguete de seu intelecto e a quem as palavras fazem mudar de opinião ao sabor das filosofias; aquele que, ao contrário, compreende, é quem sabe, porque mergulha em sua própria essência. Assim, direis em nome de meu Pai: contemplai-vos vós próprios em vosso ser íntimo, vós que buscais sem saber o que já encontrastes, vós que já sois homens e possuís tudo em vós.

Mas, meus Irmãos, tende o cuidado de só ensinar o que vossas almas estão aptas a viver.
Que a taça do vosso amor não esteja pela metade, porque muito poucos poderiam dela beber. Peço-vos, pois, em nome de tudo que nos faz viver estes instantes: reformai vossos corpos a fim de transcender aos corpos das multidões. Sabei absorver a essência eterna de todos os alimentos da terra. Que vossas refeições sejam como cerimônias. A arte primordial do Homem verdadeiro é domesticar o alimento, fazê-lo vibrar no ritmo de seu corpo.Não são frases que vos apresento aqui, mas a descrição de um fenômeno concreto, embora infinitamente sutil. Domesticar o alimento é domesticar os próprios pensamentos. Vossos pensamentos são a única força que envenena ou purifica vosso alimento. Assim, pois, se pudésseis ver as regiões e as circunstâncias de vossa criação celeste, não mais ousaríeis dar ao vosso corpo do que um quarto do que habitualmente o nutre...Deveis vivificar a matéria ao comê-la. Deveis compreender também que ao comê-la servis ao grande desígnio da criação, pois tendes o dom de sublimar o que absorveis. Não é o trabalho de vosso corpo que deve parecer-vos essencial nisso, mas o trabalho de vosso espírito, que chamais para vós e que imprime suas ordens em vossa chama etérea. Eu vos digo, irmãos, vosso amor pode ordenar a vosso ser etéreo que modifique as partículas vitais de todo alimento; ele pode dar-lhe o influxo que transmuta essas partículas com vista a outras encarnações nos reinos que são os delas. Compreendei, então, como é grande a responsabilidade do homem desta Terra. Ele é o centro das trocas, o compo de transmutação das forças."

(O Caminho dos Essênios. Ed. Objetiva)

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