terça-feira, 13 de novembro de 2007

O charlatão...

Havia um rei que todas as noites costumava dar uma volta pela cidade para ver como estavam as coisas - é claro que ele ia disfarçado. Ele estava bastante intrigado com um homem, um belo jovem que estava sempre sentado debaixo de uma árvore próxima à rua, debaixo da mesma árvore todas as noites.

Por fim, a curiosidade tomou conta do rei, ele fez seu cavalo parar e perguntou ao jovem: "Por que você não vai para sua casa dormir?"
E o jovem respondeu: "As pessoas vão para suas casas dormir porque elas nada tem para guardar. Eu tenho tesouros tão grandes que não posso dormir; preciso guardá-los."

O rei disse: "Que estranho, não vejo nenhum tesouro por aqui."
O jovem explicou: "Esses tesouros estão dentro de mim, o senhor não os pode ver."

Parar todos os dias passou a fazer parte da rotina do rei, porque o jovem era belo e tudo o que ele dizia fazia o rei pensar durante horas. O rei se afeiçoou tanto ao jovem e ficou tão interessado nele que começou a achar que ele era um verdadeiro santo - pois a percepção, o amor, a paz, o silêncio, a meditação, a iluminação, esses eram os tesouros que o jovem guardava; ele não podia dormir, não se podia dar ao luxo de dormir. Só os mendigos podem se dar esse luxo...

A história só começou por causa da curiosidade, mas lentamente o rei passou a respeitar e honrar o jovem, quase como a um guia espiritual.
Certo dia, o rei lhe disse: "Eu sei que você não irá comigo ao palácio, mas penso em você todos os dias. São tantas as vezes que você vem à minha mente que eu adoraria que você fosse hóspede no meu palácio."

O rei pensava que ele não ia concordar - tinha a velha idéia de que os santos renunciam ao mundo -, mas o jovem disse: "Se o senhor sente tanto a minha falta, por que não disse antes? Traga outro cavalo e eu irei com o senhor."

O rei ficou em dúvida: "Que espécie de santo é este, tão acessível?" Mas agora era muito tarde, ele já o convidara. Deu-lhe o melhor quarto do palácio, aquele que era reservado apenas aos hóspedes raros, aos outros reis. Pensou que o jovem ia recusar o quarto, dizendo: "Eu sou um santo; não posso viver neste luxo."
Mas o que ele disse não foi nada parecido com isso. Disse: "Muito bom."

O rei não conseguiu dormir naquela noite, pensando: "Parece que esse sujeito me enganou; ele não é um santo nem nada parecido." Duas, três vezes ele foi olhar pela janela - o santo dormia. E nunca antes ele tinha dormido; ficava sempre sentado debaixo da árvore. Agora ele não guardava o seu tesouro. O rei pensou: "Fui enganado. Este homem é um verdadeiro charlatão."

No segundo dia, o jovem comeu ao lado do rei - todos os tipos de pratos deliciosos, sem austeridade - e gostou da comida. O rei lhe ofereceu roupas novas, dignas de um imperador, ele adorou as roupas. O rei pensou: "Agora, como vou me livrar desse sujeito?" Depois de sete dias, o rei estava cansado e pensando: "Este homem é um completo charlatão, ele está trapaceando."

No sétimo dia, ele disse para esse estranho sujeito: "Eu quero lhe fazer uma pergunta."

E o estranho disse: "Eu sei qual é a sua pergunta. O senhor queria fazê-la há sete dias, mas por cortesia e boas maneiras a segurou - eu estava observando. Mas não lhe vou responder aqui. O senhor pode fazer a pergunta, depois nós sairemos para uma longa cavalgada matinal e então eu vou escolher o lugar certo para dar-lhe a resposta."

O rei disse: "Está bem. A minha primeira pergunta é: Qual é agora a diferença entre você e eu? Você está vivendo como um imperador, mas costumava ser um santo. Agora você não é mais um santo."

O jovem disse: "Apronte os cavalos!" Eles saíram e muitas vezes o rei lembrou-lhe: "Até onde iremos? Você já pode responder."

Finalmente chegaram a um rio que formava uma das fronteiras do reino. O rei disse: "Chegamos agora à minha fronteira. No outro lado do rio é outro reino. Este é um bom lugar para responder."

O jovem disse: "Sim, eu estou indo. O senhor pode ficar com os dois cavalos ou, se quiser, pode vir comigo."
O rei perguntou: "Aonde você vai?"

Ele disse: "Os meus tesouros estão comigo. Aonde quer que eu vá, os meus tesouros estão comigo. O senhor vem comigo ou não?"

O rei disse: "Como posso ir com você? O meu reino, o meu palácio, o trabalho de toda a minha vida estão atrás de mim."

O estranho riu e disse: "Agora o senhor vê a diferença? Eu posso me sentar nu debaixo de uma árvore ou viver num palácio como um imperador porque os meus tesouros estão dentro de mim. Se é debaixo de uma árvore ou se é dentro de um palácio, não faz a mínima diferença. O senhor pode voltar; eu estou indo para o outro reino. Agora não vale mais a pena permanecer no seu reino."

O rei se arrependeu. Tocou os pés do estranho e disse: "Perdoe-me. Eu pensei coisas erradas sobre você. Na verdade, você é um grande santo. Não se vá deixando-me assim; senão, esta mágoa vai doer por toda a minha vida."

O estranho disse: "Para mim, não há dificuldade alguma; eu posso voltar com o senhor. Mas quero alertá-lo. No momento em que nós chegarmos ao palácio, a pergunta sugirá de novo na sua mente. É melhor assim - deixe-me ir embora.

"Eu posso lhe dar um tempo para pensar. Eu posso voltar. Para mim, isso não faz diferença. Mas, para o senhor, é melhor eu deixar o seu reino; é bem melhor. Desse modo, pelo menos o senhor pensará em mim como um santo. Se eu voltar ao palácio, o senhor começará de novo a duvidar. Deixo novamente o palácio depois de sete dias, quando a pergunta se tornar muito penosa para o senhor."

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