domingo, 26 de abril de 2015

Perdoa-me...

Pudesse eu chorar esta tua tristeza presa no teu canto.
Pudesse eu ouvir e tu falar da tua dor, diminuindo-a apenas por me dizê-la.
Pudesse eu apagar teu desapego e aliviar tuas dores de vento.
Pudesse eu apanhar no teu lugar, por doer-me menos deste jeito.
Pudesse eu tirar com as mãos os teus escuros todos de dentro.
Pudesse eu te promover a passarinho, converter-te em nuvem, celebrar-te riacho, tirando tuas intenções tolas de pedra.
Pudesse eu fazer-te semente uma vez mais e lhe prometer as primaveras.
Pudesse eu reanimar teus passos e ressuscitar teus sonhos.
Perdoa amor, por ser abraço somente alívio, e por ser ombro mero descanso.
Perdoa amor, por não conseguir fazer do meu corpo o teu recomeço.

Perdoa meu amor, por curar-te apenas na poesia.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Experiência...

Nunca olhar para alguém como um escritor experiente. Não existe isso. Nenhum escritor tem experiência. Escrever é uma coisa próxima de amar, nunca se tem experiência em amar. Ama-se sempre pela primeira vez e com risco, com esta coisa que parece que é a última vez.

(Mia Couto)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Correntes...

Estar é um improviso e ser é permanência, mas uma permanência descuidada por nós. Somos uma fragilidade desatenta às marés que nos atingem incessantemente. Não sabemos se as correntes nos levarão à terra firme ou nos afogarão de vez. Por isso desejamos as sempre mesmas e já conhecidas correntes. Acostumados com suas direções, sabemos pelo hábito para onde nos levarão. E então fazemos do imenso oceano, nossa particular e limitada lagoa, a navegarmos em círculos como se fosse tudo, como se fosse o bastante. E assim tememos as demais pois não sabemos o que será de nós para além das paisagens que não conhecemos. O medo nos desenraíza ao mesmo tempo em que nos prende no mesmo lugar. O não-saber nos apavora e nos desequilibra. Mas quem sabe se permitirmos que a ondulação do ir e vir das coisas mesmas não nos leve àquele lugar, real, e inédito onde possamos aportar e encontrar descanso, mas que por ora só alcançamos no espelho da poesia?

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Autobiografia...

Eu já contei estrelas. Eu já namorei o erro. Eu já fui casado. Eu já bebi demais. Eu já bebi de menos. Eu já me acidentei num outro país. Eu já vendi gelo pra esquimó. Eu já vendi a alma. E já libertei outras. Eu já queimei o arroz, o pão e o filme. Eu já driblei a morte. Eu já dublei minha mãe. Eu já tomei alucinógeno, semancol e chá de sumiço. Eu já me apaixonei pelo sotaque. Eu já abracei meus mestres. Eu já lutei e também fugi. Eu já matei e também morri. Já me atraiu a feiura. Já me cansou a doçura. Eu já chorei no colo da noite, nos braços da solidão, no peito de uma mulher. Eu já dormi em banco de praça. Eu já perdi o ônibus, o ponto, o equilíbrio e a educação. Eu já deixei livros pela metade, planos pela metade, amores pela metade. Eu já confessei e menti. Já atravessei noites em claro e dias no escuro da minha própria consciência. Já tomei banho de chuva, de balde, de mangueira, me sujei de doce e lavei roupa suja em mesa de bar. Eu já fui obsceno. Eu já fui santo. Já cantei na banda, no coral, o bingo e a mulher do próximo. Já pedi perdão e não perdoei. Quem me derrubou já levantei. Já cirandei sob um cajueiro. Já parei o carro para ir só lá no banheiro. Já contei piada em velório. Já chorei em festa. Já naveguei, já levitei, já mergulhei e dormi entre as flores do jardim. Eu já perdi a comanda, a hora, a inocência, a paciência, eu já perdi a linha. Eu já vi milagres, por-do-sol na praia e já me fiz de cego. Eu já perdi a fé e encontrei o amor. Eu já me senti tão foda que me fodi inteiro. Eu já perdi amizades e muito dinheiro. Eu já virei bom moço, pecador, sonhador, eu já virei o jogo, eu já virei o rosto, as costas, eu já me virei sozinho. Eu já fui tanto me sentindo um nada. Eu já fui um nada sendo para alguém um tudo. Eu já menti a idade. Eu já fui celebrado. Eu já fui esquecido. Já acabei e salvei relacionamentos, os meus e de outros. Já paguei promessas e apaguei às pressas. Já dancei forró, valsa, tango, samba e também fiz muita gente dançar. Já rasguei a seda, o verbo, o contrato, o contato, a camisa. Eu já caí no buraco, em tentação, no conto do vigário e em si. Já colecionei moedas, mágoas, amantes, arrependimento. Já fui cético, devoto, arrogante, patético, simpático, generoso e amante; já dei pendura em restaurante. Já armei a barraca, o barraco, o circo. Já arrumei a cama, um drama e confusão. Já salvei uma vida e desejei o mal. Já me senti um lixo e me achei o tal.  Já matei charada, o tempo, a aula e os sonhos.

Aí então eu me encontrei. E finalmente comecei a viver.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Versado nos abismos...

Ela pensa que sofro da mesma altura dela, que vejo o mesmo que ela vê, que o sol e a luz me alcançam do mesmo jeito que a ela enfeita, e que os monstros são equivalentes aos que ela sente. Não sinto, não vejo, não me alcançam e não sofro. Minhas quedas são maiores porque minha altura é maior. Vejo outras distâncias e minhas confusões não são equivalentes, ainda que muito se pareçam. Percorri inteiros labirintos enquanto ela ainda se familiariza com a desorientação. Mas isso não é vantagem meu caro, foi apenas o risco e o tempo de amadurecer. Hoje sou versado nos abismos.

domingo, 12 de abril de 2015

Atrevimento...

Antes de qualquer coisa e de mais nada: amo-te. Amo-te com tudo o que sou e que tenho. E peço-lhe perdão exatamente por isso: por amar-te com tudo o que sou e que tenho. Por amar-te com todos meus medos como nossas testemunhas. Por amar-te com meus sofrimentos como uma distância a mais. Por amar-te com toda minha insegurança como boicote. Por amar-te sem tempo para ser inteiro enquanto corro para sair do labirinto. Por amar-te no exato instante que te machuco, pois, amo-te também nos intervalos em que não te amo. Amo-te sempre sujeito aos precipícios e contradições, entre ciúmes demoníacos e angelical desapego. Amo-te à beira da morte, à beira dos sonhos, à beira da exaustão, da redenção e da loucura. O teu amor dá-me de beber junto aos milagres, pois, teu amor condena-me no exato instante que me humaniza, fragiliza-me no exato instante que me fortalece. Amo-te por isso: pela beleza da pétala mesmo diante dos ventos. Amo-te pelos excessos tantos, pelas ausências todas. Amo-te por ser o amor a fragrância a despertar cada um dos meus fantasmas, e por ser o amor a arma com que venço diariamente cada um deles. Amo-te fadado aos recomeços. Amo-te fadado a pedir sempre perdão, por cada chance que me dás para ser mais amor. Amo-te por exigir que retire de cena minha tristeza, que apague o diálogo da minha dor, que despeça do elenco meu egoísmo. Amo-te por anunciar comigo a vitória da luz, ainda que eu adormeça uma noite mais com medo dos meus próprios escuros. Amo-te para que as lágrimas que provocas me libertem. Amo-te para que as lágrimas que provoco te floresçam. Amo-te com tudo o que tenho e que sou. E peço licença por isso: por amar-te com tudo o que tenho e que sou.

Amo-te pelo atrevimento para ser feliz contigo.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cuidar...

Antes de falar, 
faça com que suas palavras passem por três portões;

no primeiro portão se pergunte: 
O que direi será verdade?

no segundo portão:
O que direi será necessário?

e no terceiro portão:
O que direi será amável?

(Sabedoria Sufi)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Inexatidão...

Não há prontos roteiros, apenas personagens e diálogos improvisados dos nossos (des)encontros. Um amor que inesperado nasce ou que tão logo deixou de ser. Não há necessários caminhos, apenas os que servem e os que não. Não há porta correta, apenas as que abrem e as que não. A melhor escolha às vezes pode ser não escolher. A melhor resposta pode ser nada dizer. A cura que serve às vezes é sentir doer. Às vezes para viver é preciso ter que aqui morrer. Não há acertadas previsões, além dos sonhos, das esperanças e dos desejos. Destino é a possibilidade que você tem em decidir olhar para um só caminho e escolher segui-lo. A inexatidão-de-nós é a mais comum das angústias, e a nossa mais bonita liberdade.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sobranças...

Sobram-me as noites, sobram-me os dias, sobram-me as tardes, sobram-me as manhãs, restam-me as madrugadas. Sobra-me a cama, sobra-me a sala, sobra-me o sofá, sobra-me a rede, sobra-me o quintal, resta-me a casa inteira. Sobra-me o trabalho, sobra-me o happy hour, sobram-me os amigos, sobram-me as bebedeiras, sobram-me os feriados, as férias, sobra-me tempo para qualquer coisa, restam-me os domingos. Sobra-me a toalha da mesa, a massa para lasanha, o vinho na geladeira, sobram-me os chás e os temperos, sobram-me os livros, restam-me as dedicatórias. Sobram-me os cenários, sobram-me os medos, sobra-me o silêncio, o vazio, o remorso, sobram-me os sonhos, resta-me o sono. Sobram-me os planos, restam-me os planos. Sobram-me lembranças, resta-me esquecer. 

Sobra-me tudo. 
Falta-me você.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Precariedade...

entre as tristezas, pousam-me as fragilidades:
ciência da precariedade de todas as coisas.

impermanência e despedidas como inevitáveis temas 
do lado oposto do sentir.

reunindo pecados afastei-me do sol para ver melhor
tudo quanto me põe a viver parece cansaço

e por ser-me o destino um assombro
e sorrir-me sempre o passado,
te aguardo para sempre na memória das ruínas.