quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Das exigências...

[...] por vezes as coisas boas vão se instalando em nossa vida aos poucos, sem antecipados avisos, barulhos ou exigências de novos espaços, como processos contínuos que nos desarmam e nos expõem novamente ao viver, permitindo-nos escolher e aceitar o acerto, a prosperidade e por-nos disponíveis uma vez mais aos milagres.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Costureiro...

poeta é costureiro:
confecciona amores para os olhos
desaperta a vida nas palavras

do texto ao têxtil
da palavra ao fio 

costura para fora, encantamentos
(não trabalha sob encomenda)

traz o poema aos dedos
e ainda que por vezes se alfinete
garante seu ofício 

pois sabe que a poesia jamais estará
fora de moda.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Charme...

[...] o charme do teu corpo deverá ser equivalente a elegância dos atos que te vestem; tua personalidade deverá ser leve, não importando o peso do corpo. Não disfarce as imperfeições da pele, melhor corrigir as da alma. A beleza real será este equilíbrio dos lados de fora e de dentro, soma fatal que faz com que sejamos quem verdadeiramente somos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

E isso era tudo...

Um dia desses me lembrei de uma visita de fim de semana que fiz com meus pais à casa de um casal amigo deles. Eu devia ter um pouco menos de 10 anos. Lá pelas tantas a cerveja havia acabado; e hoje sei o quão difícil é prosseguir a prosa depois que o copo ameaça secar, e de vez. Saíram então meu pai e seu amigo em legítima cruzada, na busca de reverter o quadro trazendo mais, deixando minha mãe e a mim com a anfitriã e o seu filho. 

Passado algum tempo, os dois voltaram pra casa. Em choque, pálidos, tensos, contando-nos do desespero de testemunharem um acidente de moto. Horrível. Acredito que o motociclista tenha morrido na hora - pelo menos foi isso que me restou imaginar pela quantidade de sangue e os imprecisos detalhes que coloriram minha memória mas que poupo aqui as palavras todas.

Meu pai, transtornado, e olhando para mim por alguns eternos segundos, transformou-se. Começou a falar alto e a gesticular. Na minha direção. Até eu entender o que estava acontecendo e o que ele dizia, fiquei assustado. Usou-se de um bocado de tempo para desfiar rosários e dar-me um sermão imprevisto. O resumo: disse-me que se eu viesse um dia a comprar uma moto trataria de destruí-la, e em seguida me desmontaria inteirinho com ela. Disse-me taxativo, num descontrole shakespeariano nunca visto por mim.

Não sei o que pensou minha mãe e os seus amigos ao escutarem aquilo. Para mim não houve cenário nem figurantes em volta. Éramos nós dois e o seu desespero quem falava. Repreendia-me com a fúria do medo, por um futuro que nunca chegou a acontecer. Eu mal sei andar de bicicleta!

Consegui ver ali o que hoje vejo ainda melhor. Suplicava o jovem pai que seu filho jamais partisse. Gritava seu carinho para que respeitasse o seu cuidado. Deu-me a responsabilidade de não desobedecer, não a ele, mas ao próprio tempo. 

Consegui enxergar ali o que somos todos nós: enquanto para sempre amadurecemos, queremos ser compreendidos ao comunicar o nosso amor e as nossas urgências.

Advertia seu amor sem saber advertir. 
Amava-me.

E isso era o suficiente para entendê-lo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Calar as cicatrizes...

Será que ela já se vê pronta para deixar seu passado? Abandonar cenários e festas e dores e sintomas que ainda sente? O que a deixa ainda calçada nos sapatos pertencidos aos caminhos que não mais florescem porque não podem? Quais os medos de antes traz ela para o depois? Deveria seu coração saber que a luz do dia novo há de dissolver a densidade dos escuros. Deveria despedir-se do vazio que a ronda a permitir o cheio que a preenche. Gritam assim os anjos para que não adoeçamos com as poeiras de capítulos que não merecem a releitura. Assim também espera seu amor que lhe aguarda para escreverem juntos os acertados destinos a que merece. 

Devemos calar as cicatrizes.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os dias santos...

Cumpre o peito saudade maior de todas desde que te amo, pois qualquer demora tua me é todo o tempo. Atravesso ausências para que do outro lado as mãos possam descansar nas tuas, e neste exato dia em que vieste morar nos meus olhos aprendi a retirar versos do silêncio das paisagens. Trouxeste-me vida para dentro da casa e te tornaste meu lar. 

Em ti as belezas nascem antes do ventre e florescem antes do chão, tuas lembranças me são sempre um sorrir, teus beijos preenchem minha boca de céu, tua voz soa-me a música amada, bebo dos dias onde vivem teus cheiros.

Deixa-me nascer no próximo desenho teu; é na ponta dos teus dedos que sabem as borboletas. Deixa-me ser para ti o que não é o mundo e sermos um descanso em festa, amando-nos no devorar lento das horas. 

Ao teu nome escrevo a devoção das minhas palavras. És o amor onde nunca me dói.
Celebro-te como o meu próprio nascimento.
Celebro-te como um dia santo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Guardo-me...

Guardo-me para os amanhãs que muitas vezes não vivo. Desperdiço-me nos amanhãs que sem eu esperar me consomem. Sonho para me salvar naquilo que ainda não sou. Vivo para realizar aquilo que ainda não sei.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Às vésperas...

Às vésperas de um novo ano, escutamos com maior atenção as interiores vozes que nos permeiam, ao amansarmos acumulados cansaços de um ciclo que se encerra. As verdades que nos sempre falam mas que abafamos por inúmeras razões, contam-nos agora com estratégica intensidade, das esperanças que retornam com fôlego e força para cumprirmos os compromissos e promessas que nos justificam sobre este chão. Assim, cabe à poesia trazer à claridade, as marés que nos compõem. E diz ela, primeiramente, que nos tornemos mais nós mesmos, ainda que para isso precisemos despedir uma boa parte do que somos. Que o espelho não seja causa de grandes importâncias ou preocupações mas, seja nosso reflexo, o fiel confessionário dos nossos contornos. Agigantemos os sonhos, patrocinemos nossas coragens, não respeitando as demandas da tristeza, mas acolhendo toda e qualquer lágrima que justa resolver nos visitar. Recusemos ao máximo com ensaiada disciplina, os círculos viciosos das paixões que nos custam saúde e equilíbrio emocional. Desapeguemo-nos do que tem verniz de amor mas é carência, medo, controle ou egoísmo. Aprendamos que a inveja é sintoma de imaturidade, devendo ser tratado quem sente com doses de generosidade e paciência. Aceitemos sempre - e desarmados - os elogios que nos dedicam, separando com prudência as sementes do bem querer das más ervas da bajulação interesseira. Quando necessário falar, cuidemos para não declararmos uma verdade que não tenhamos certeza que será verdade amanhã também. Saibamos que sem quaisquer objetivos e pelo acaso poderemos ser carregados. Não atribuamos ao azar o que é de nossa responsabilidade. Curemo-nos nas despedidas, curemos o próximo pelas chegadas. Que possamos ser como a gota d´água que, mesmo diante do imenso mar, ainda tenha o que lhe acrescentar. Que daqui pra frente possamos juntar coragem suficiente para aquelas decisões e riscos que a vida nos pede para nos fazer mais felizes. E se inevitavelmente e por acaso a dor em nós tardar, que por ela amanheçamos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A crença...

A crença é uma casa do nosso próprio tamanho em que nela por certo tempo habitamos. Tão logo crescemos, e se faz necessário mudar para uma em que melhor possa nos acolher. Maturidade é essa caminhada, entre uma e outra casa, em que é possível se perder ou voltar para casas já conhecidas, muitas vezes por acomodada comodidade. Talvez sábio seja aquele que passou a saber que nenhuma casa realmente lhe pertence, e por isso anda fazendo morada nas verdades de si mesmo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chaves...

Pudera existir uma categoria de homens que, segundo o meu egoísmo, pela contribuição feita à humanidade, deveria viver para os sempres.

Roberto Gomes Bolaños estaria aí, inequivocadamente.

Sua genialidade acompanhou-me por inúmeras tardes da infância e nas infinitas repetições ao longo dos anos. O que aprendi naquela vila, não aprendi mais em lugar nenhum.

Lá, contaram-me que a televisão não precisa ser apelativa. Que pancada nada que tem a ver com violência. Que não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar. Que a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.

Lá, descobri que o Guarujá pode se passar naturalmente por Acapulco.
E que ninguém tem paciência comigo.

Como personagens, são mestres.
Como homens, são ídolos.

Depois deles, o humor tornou-se exigente.
Depois deste ano, o humor tornou-se definitivamente órfão.

E embora sejam inevitáveis as despedidas, para quem a gente ama e gosta, jamais estaremos preparados.

Um homem.
Uma vila.
Um mito.

Encante em paz.