quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Uma vez mais...

uma vez mais tratarei de lhe falar sobre a elegância das nuvens
explicando-lhe a importância da primavera 
a necessidade dos invernos;

uma vez mais faremos amor pela primeira vez;
falarei poemas. não importa se meus ou de outros, 
visto que são poemas;

uma vez mais dançaremos no quarto qualquer canção que escolheremos nossa;

uma vez mais descobriremos o lirismo dos silêncios;
uma vez mais lhe darei broncas por seres tão injusta consigo;
uma vez mais desconheceremos quando voltaremos a doer;
e da inocência faremos a cura da inocência que perdemos;

nossos dias são lugares felizes, amor
nossos corpos tem ângulos exatos
coragens e covardias nos serão exatamente suficientes.

amo-te para acalmar as horas todas
beijo-te com a urgência de um para sempre
deixa-me tão aberto ao mundo para que não precise dele;

uma vez mais, amor,
era este desassossego
de que precisava.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Cuidado...

Cuidado: a infelicidade quando muita na vida, afoga-nos para dentro de nós, criando risco de se desesperados, agarrarmos qualquer coisa ou pessoa que para nada nos serve ou ajuda. Passamos a viver o velho ditado: para quem está afundando, jacaré é tronco. Um tronco existencial e afetivo, no caso.

A carência deve ser compreendida como um pedido de socorro de nós para nós mesmos - e não um estado de mendicância - para não nos deixarmos à deriva, e recuperarmos o amor próprio que em algum momento da jornada se perdeu ou foi atirado ao mar por alguém que permitimos após convidarmos a embarcar conosco.

Há marés interiores que se tratam de avisos de retorno à terra firme. A alma sempre pressente as tempestades.

Sem amor próprio, entulhamos lixos e desencontros, nomes e desesperanças que aumentam enquanto nós diminuímos, conforme o tempo passa e nada muda.

Sem amor próprio, não adianta. Não haverá porto que nos deixe aportar em paz.

É apenas com o amor próprio recomposto que retomamos a dignidade. Dignos e sentimo-nos suficientes para então abandonar misérias que atraímos sem nunca nos pertencer, despedindo personagens que não cabem mais em nossos cenários, descartando cenários que não cabem mais em nossos amanhãs.

De posse do amor próprio, contamos nossas próprias histórias.
Sem ele, somos apenas rascunho.

domingo, 30 de agosto de 2015

Destino...

'Desde quando felicidade é destino?' - pensava. As pessoas faziam coisas com ideias exatas de cumprir roteiros como se ao final felicidade as aguardasse. Como se fosse conquista, como se devêssemos exaurir tristezas para o devido merecimento, como resultado direto de acertadas escolhas. Não conhecia quem houvesse aportado na felicidade. Não conhecia quem a houvesse buscado e pela busca encontrado. Assim, tinha direitos em desviar-se das tristezas. O desvio mesmo lhe era uma pequena felicidade. Como todas as outras felicidades. Pequenas. Como todas as grandes felicidades.

Não importava.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Tola...

Parecia ela precisar repensar sempre seus sentimentos para que se mantivessem afinados com a dor. Eram as releituras de sua miséria a esmiuçar os próprios erros e os alheios que lhe afetavam, ensaiando e repassando diálogos e outros pretéritos incômodos, prendendo-se a cada um deles, fosse pela culpa ou pelo ressentimento. Bebia ela o veneno da frustração, da raiva e da tristeza. Era assim como cultivava sua tolice. Sentia-se tola, definitivamente, não conseguindo deixar de ser apenas por se saber que é.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Para calar-me...

Não me atreveria ensaiar palavras de impacto - como vejo tantas por aí - a declarar amor aos teus olhos, justamente por seres tu a leitora. Liberto-te dos clichês amorosos açucarados meu amor, embora paradoxalmente vivamos todos e cada um deles no dia-a-dia.

Quão descabido são os expedientes do mais do mesmo que usam os amantes para afirmar união e jurar fidelidades? Pergunto em nosso caso: afirmar o quê? Não venho cá afirmar aquilo que o nosso amor sabe o que é. E se se encantam os outros com o que escrevo, é por mera casualidade, pois, pensam que vivem o mesmo que nós e se encontram aqui refletidos. A única semelhança entre eles e nós é que também somos um casal.

As palavras vendem coisas - e por sinal prometem mais do que entregam - tais como suspiros e certezas. Mas as entrelinhas confessam verdades, e outras coisas pela razão exata de serem entrelinhas. Costuro palavras que apenas em ti caem bem, embora as tentem vestir os outros. Apenas tu podes decifrá-las. Decifrar-me. Beber de mim e matar a sede. E peço que tu leias no silêncio do nosso quarto depois do orgasmo. Encontrarás no meu corpo e no abraço aquilo que sempre declaro sem nunca dizer.

As palavras são os pretextos do amor para calar-me.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os erros nossos...

Sofremos pela ausência das raízes que a nós nos inventaram;
quão reais são os desesperos e artificiais as alegrias?

Ressentimo-nos do vento que continua a bater 
sem respeito a qualquer tragédia,
pois para longe do que é certo ou parece-nos acertado
continuamos a fazer coisas sem saber ou por uma lúcida estupidez.

Ignorantes, perdemos ainda mais por cultivarmos a dor das perdas.
Ignorantes, atrasaremos ainda mais por descontarmos esta dor nas primaveras.

Rezamos antes de dormir para que os outros 
venham a perdoar os erros nossos.

A esperança é que amanhã estejamos mais despertos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Maturidade...

As idades vão além das velas assopradas, meu filho. Despindo-se a ideia de tempo em que atravessamos as coisas postas, elas pouco tem que ver com os calendários. A idade mostra-se no que costuramos e como costuramos com aquilo que vivemos. A idade mostra-se na resposta que damos às perguntas que fazemos e na pergunta que fazemos às respostas que nos dão, conforme trocamos de cenário ao longo dos passos. A idade mostra-se na palavra a concedermos gentileza e a gentileza que concedemos por calar. O que se verifica nos documentos faz-se apenas referência à história dos lugares nossos e da geografia do próprio corpo.

A expressão de uma idade bem vivida, filho, chama-se maturidade.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Qual amanhã?

Ver-te os teus detalhes todos; teus traços, tuas expressões; como mexe a boca, como puxa o "r", as entonações, as pausas, o teu perfume; o laço que tens no cabelo; como apoia os braços na mesa, para onde vão teus olhos quando sem jeito, quando se lembram, quando prestam atenção nas minhas mãos enquanto distraído falo. 

Vital será respirar através dos teus olhos e dos teus sorrisos.
Vital será ficar para o por do sol contigo porque és tu a beleza do por do sol.

Ah, mulher! 
De qual sonho vieste? 
Com qual sonho te vestes? 
Com qual palavra te despes? 
Com qual silêncio me teces?

E em qual amanhã tu me amas?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Expectativas...

Expectativa é teimosia antiga nossa, filho, em que exigimos aos agoras aquilo que não lhes cabe. É noite mal dormida para adiantar manhãs. A semente que no descaso à sua primavera quer no inverno vender seus próprios frutos. Um presente vivendo de futuro e o futuro vivendo já de romances. O cigarro que se apaga sem direito tragarmos. Devorar o relógio, o estômago, a paciência. Irmã rebelde das esperanças, expectativa é dispensa dos caminhos e apego às chegadas. Filha mais nova da ansiedade, é o disfarçado avesso das entregas.

Ali, meu filho, amor não resiste muito não.


"Só se está intraquilo enquanto se tem esperanças". (Hermann Hesse)