sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Suculento...

É num caminho torto e desconhecido que por vezes nos deparamos com árvores intrigantes de frutos novos e cores outras, que se curvam a oferecer-nos o gosto do saber e do sentir. É o mistério e o vir-a-ser que se enraízam em terra onde os pés ainda duvidam e resistem em prosseguir, forçando-nos a florescer. O caminho certo nem sempre é suculento.

domingo, 24 de agosto de 2014

Luto...

Morrem apenas aqueles que matamos dentro. Nem a morte com sua imponência pode matar aquele que vive em nós. Ela, na pior e única das hipóteses, leva-nos para longe de quem amamos, mas não mata nenhum dos envolvidos. Dói-nos exatamente por isso, porque não há realmente morte na morte, há apenas uma separação, uma permanente ausência. Não morremos, nenhum morre, apenas o luto em nós define a morte. Só podemos matar e morrer em caso de amor, isso quando o amor já moribundo, pede-nos clemência para o matarmos e a decência para morrer, para morrermos em paz, caso contrário igualmente em paz não viveremos, com aquilo que não respeita a hora de sua morte e mantém-se vivo com ajuda - artificialmente - de atalhos e remendos e mentiras e metades nossas. Por isso quem morre, continua a viver. Só quem matamos, morre. E quem amamos, vive também. O amor sempre trará a vida. Ainda que ela não nos sirva mais.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sabermos nós...

O poeta rouba dores do mundo a confessar as suas próprias; empresta-se de veladas tristezas para devolvê-las nítidas e intensas às palavras. Vende socorro sem salvação; mas se dói e se doa para levar aos olhos outros, desmedido alívio. Antevê amores e suspiros que precedem encontros; descreve tragédias e dúvidas que antecedem o existir. O poeta adoça o real ainda que testemunhe amargos. Coleciona horizontes a enfeitar rua-sem-saída onde mora. Veste-se com seu tamanho a dimensão das grandezas. Sincero às mentiras que conta e encanta, versa sobre os sonhos da semente, pecados angelicais, flores, naufrágios e céu azul. Ainda, porta-voz das sublimes verdades que nunca alcançou, faz dos seus silêncios a autêntica afirmação da vida. Escreve no concreto, o abstrato. Gradua-se no coração alheio e no seu próprio peito. Assim, usa-se o poeta das letras como desculpa para saber de si. Sabermos nós.

domingo, 3 de agosto de 2014

Desamar-me...

silencioso e frágil, ando
a perder-me por entre as folhas do outono
a sentir-me nas gotas inteiras de chuva
a cortar-me engasgado com as palavras
a cegar-me os olhos nas janelas
que me cansam o mundo,
desarmar-me pelos teus sorrisos
desamar-me por envergonhados erros
a sangrar-me nos poentes e despedidas
a sair de casa
e esquecer da primavera;
por morrer de amor.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna...

Dois imortais - vejam só - morrem em menos de uma semana. Dizia Ariano que todo escritor é um mentiroso. Concordo e creio, pois não é a literatura muitas vezes mais generosa que a própria vida? Na vida, morre-se. Nas palavras, eterniza-se. Assim fez Ariano.

Da pedra do reino ao Circo da Onça Malhada, de sua voz rouca e engraçada para os seus silêncios. Na poesia, põe-se sempre a morte de luto.

Talvez peçam os céus a presença de três grandes homens a renovar as escrituras. Talvez sentissem os céus órfãos de histórias. Talvez. Como saber? Não sabemos.

Como diria Chicó: Não sei, só sei que foi assim.

Morrem-se mais uma vez, os viventes.

Descanse em paz, mestre.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Depois do fim...

Esta é a história da mulher que restou depois do fim. Uma mulher que morreu sem morrer depois que o amor se foi e junto levou a vida, deixando-a na miséria do existir. Quando ninguém mais permaneceu, sobrou sua convivência entre os abandonos. Depois do amor, deixou-se de pertencer a lado nenhum, não houve terra nem mar, servindo-lhe céu apenas para doer as noites, quando melhor se escuta tristeza. Depois do fim, calam-se os ventos. Depois do fim, não há caminhos de volta, apenas um único momento sem princípio nem final; não havendo alívio nem para os horizontes. Depois do amor, nada mais nasce ou cresce. Depois do fim, tudo é e continua sendo, ainda que nada mais seja. Depois do amor, qualquer coisa lhe era equívoco ou cansaço, numa vertiginosa queda em si mesma. Depois do fim, o tempo desapareceu, e sua tristeza tornou-se um para sempre; a sua saudade, imensidão. O tempo poderia engolir a luz e fé, pois cedo ou tarde regurgitaria uma e outra ainda vivas, mas não. A dor era tanta que o tempo se dissolveu e a partir do que se acabou, nada mais aconteceu, nem a lucidez, nem o sonhar. O que se movia, girava lento e atordoado, como o mundo e seus pés. Sobraram-lhe apenas tortos e secretos caminhos levando a qualquer desilusão. Depois do fim, engasgou-se facilmente com qualquer recente esperança, como densa fumaça irritante. Depois do amor, aprendeu a solidão apenas a medir distâncias e desistências, enquanto aprendemos nós a reunir ásperos silêncios a acompanhar nossas palavras. Depois de tudo, restou-lhe um nada a ecoar dentro do peito, se é que havia peito depois de tanto. Tornou-se enamorada dos olhares distantes e perdidos e inclinações para o pessimismo. Depois do fim, do tempo e do amor, só lhe restou a poesia.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobretudo...

Aproveita-se da tristeza a poesia, mas não eu. Peço a Deus que delas me dispense. Se puder, não sinto. Se precisar, não escrevo. Se necessário for, calo-me para que a palavra dita não me arranque a dignidade que me permitem os silêncios. Calo-me para que nenhum sentimento corte por tornar-se pontiagudo verbo. Calo-me para que nenhum olhar de compaixão me atravesse ou em mim ecoe. Calo-me como devem calar-se os que morrem. Sobretudo de amor.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nada...

Em mim jaz um nada, impertinente, instalado abaixo da minha cotidiana superfície de pormenores. Um vazio imponente a oprimir o peito, que se amontoa e me sufoca de ausências. Um nada resultado da série de desesperos e desencontros comigo mesmo. Um nada que presente me apaga, me atenua, me digere. O caos, o precipício a me encarnar e assombrar de angustiosa amplidão, escancarando minha frágil e única condição de existente, deixando-me miserável neste império das coisas postas. Um nada que não repouso nem silêncio; a constante tensão entre o sentir e minhas dúvidas; um ruído e o rondar da loucura à espreita; uma inquietude a me devorar regurgitando impaciências e fraquezas. O medo como único habitante em mim. O erro como um dos meus modos de ser. A verdade que sempre vive exatamente naquilo que não alcanço. O nada como minha única certeza e fardo. A sombra como meu mais seguro reflexo, pois nada tenho que não seja emprestado, nada sou que não seja breve, nada faço que não seja engano, nada peço a não ser socorro. O mundo é estranhamente recíproco ao meu nada, ecoando minhas impurezas, que apenas nele me preservo, pois não há lugar que eu permaneça e não destrua, nem há amor que eu não despeça. Aqui, protejo-me do meu desrespeito, do meu descompromisso com a vida. Este nada que me desorienta, também me equilibra.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pressa...

Queria dedicar-me mais às minhas tristezas, saboreá-las com calma e cuidado os seus amargos; dar sentido e peso - exato ou maior - a cada uma das minhas lágrimas. Queria remoer-me muito mais pelos cantos de casa, não somente pelo que não fui, mas por quem não serei, permitindo-me ser menos do que sou. Desejaria deixar-me sucumbir e estilhaçar diante da rotina dos dias que opressora e urgente cobra-me prontidão, ignorando minhas necessidades de ausência, distância e recuperação. Queria consumar-me no insuportável silêncio que denso preenche o quarto, a prender-me inerte e sem vida entre os lençóis, restando-me energia apenas para dissolver-me ao longo das madrugadas em minuciosas análises de perdas e perturbações, sem mais fazer as pazes com o sono leve. Queria atravessar as tardes alimentando-me com repetidos pensamentos de derrota e auto-boicote. Sentindo anestesiado o espírito, gostaria apenas de dores pontiagudas no peito. Queria ver-me de vítima frente ao espelho, abandonar em algum lugar a ser esquecido, a paixão e a fé. Gostaria de poder envenenar a inocência que carrego, lentamente. Desejaria todos os céus nublados, para que acompanhassem os meus humores, que os invernos soubessem de mim e durassem anos, que as janelas não anunciassem nunca mais o amanhecer. Gostaria de passar feriados inteiros com minhas frustrações, cultivar remorsos e sentir doenças. Queria sentir-me íntimo das angústias e lembrar-me com riqueza das ansiedades todas com quem convivi. Queria curtir um sossego com as minhas desesperanças. Mas não posso. O amor me convidou para sair. Não tenho tempo para nada disso.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O amor é uma linguagem de sinais...

O teu pouso em mim fez alongar os dias e alegrar os passeios. Contento-me hoje com qualquer cor, escuto preces nas vozes do vento. Amar-te faz que tu sejas inventada para a beleza, pois apenas através da tua boca posso saber das primaveras. Ponho coração em romaria para encontrar teu nome e não mais regressar, visto que o amor é um gesto sem retornos. E os olhos que trago são para ver-te nascer entre as folhas do tempo, a pele para no teu corpo sentir o fim dos meus invernos. Na sorte de silêncio que não comparece tristeza, festejo poesia das coisas inteiras que tu me dás e nunca possuí. Calo-me por isso; para que cantes. O amor é uma linguagem de sinais.