quinta-feira, 17 de abril de 2014

In memorian...

Quando morre um poeta, magoam-se as palavras.
Quando morre um poeta, apagam-se os poentes.
Quando morre um poeta, fecha-se sempre uma janela.
Quando morre um poeta, calam-se as tristezas.
Quando morre um poeta, põe-se a morte em luto a lhe esperar.
Quando morre um poeta, adormecem-se os encantos.
Quando morre um poeta, órfãos todos os mortais.

Quando morre o poeta, o silêncio se faz seu último verso. E um dos mais bonitos.


::: em memória de Gabriel García Márquez :::

terça-feira, 8 de abril de 2014

Encontros...

Celebre todos os encontros da sua vida, pois inevitavelmente levaremos alguma coisa deles, ainda que seja o que não ser e o que não repetir.

sábado, 5 de abril de 2014

Maturidades...

As palavras me dão maturidades que não possuo. Quando escrevo, sou outro que não eu. A poesia me concede por generosidade, as temporárias sabedorias que somente encontro refletidas no papel e que de outro jeito jamais saberia. Amanheço minhas verdades nas palavras quando ainda sou acomodada escuridão.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Revisitada...

Um dia desses, vou-me embora pra Pasárgada. Lá penso em renovar o homem usando borboletas. Durante as manhãs, carregarei água na peneira e desinventarei objetos, às tardes fotografarei o silêncio desenhando o cheiro das árvores. Voarei fora da asa apenas para me encontrar com mulher vestida de sol, e na cama que escolherei nos amaremos por todos os nossos despropósitos. Lá terei os meus problemas resolvidos por decreto, acalmarei reis em conflito, farei as horas afastarem-se estrangeiras, como se o tempo fosse feito de demoras. E te amarei com a memória, imperecível. Lá sentirei a dor do vento por não ser colorido, e mesmo movendo céus e terras, saberei que a maior dor do mundo é aquela que eu mesmo sinto. Lá poderei viver recluso numa casca de noz e considerar-me rei do espaço infinito, servindo-me da solidão e da coragem como companhias para me enfrentar, pois terei chegado no tempo de fazer a travessia, e caso não ouse fazê-la - tenho certeza - terei ficado para sempre à margem de mim mesmo. Lá escreverei o que sinto para diminuir a febre de sentir, mas não inventarei nada, serei simplesmente o mensageiro das minhas sensações. Lá andarei com flores sobre o teu silêncio, pois coisa rara e bonita é a gente poder se comunicar por meio da alma, sem que palavra alguma necessariamente aconteça. Lá serei o único homem a bordo do meu próprio barco, farei do céu o meu telhado e meu desejo será o rastro que ficou das aves. Em cada esquina encontrarei altar para um deus diferente, porque lá nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho. Mas não se preocupe em entender porque tudo que não invento é falso. E quando eu estiver mais triste, mais triste de não ter jeito, tiver morrido dentro do peito e dispensado a própria sorte, quem sabe de Pasárgada eu volte e aqui possa a vida mesma imitar a própria arte.


(Referências diretas a Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Ariano Suassuna, Paulo Leminski, William Shakespeare, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adélia Prado, Mário Quintana, Victor Hugo, Fernando Pessoa, Emil Cioran, Ana Jácomo e Hilda Hilst)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Pedra & Flor...

Gentileza do artista Alexandre Camaleão, autor do Filosofão.

sábado, 8 de março de 2014

Mulher...

Creio existir neste mundo entre os comuns, singulares seres destinados a carregar os frutos maduros da beleza. Seres de delicados detalhes como acesso direto aos reinos do sublime e das estéticas paixões que dão nome às artes. Talvez sejam as mulheres, remissão de Deus por não nos conceder asas. Ou então especial cortesia da criação ao atestar sua perfeita existência na obra realizada. Em cada uma se evidencia a existência dos anjos sobre os chãos pois, são elas quem nos miram a dar-nos os olhos de ressaca. São elas quem nos atestam os milagres, e também os infernos, onde das mais altas dimensões despertam-nos para o amor pela obediência dos olhos aos desejos, arrancando-nos como numa hipnose, o equilíbrio e a lucidez, se expostos a elas por demasiado tempo. Da pele cor do branco mármore - a conceder a forma aos templos sagrados - à negra cor onde habitam as estrelas, trazem consigo a luz, convocando-nos os sonhos, acendendo-nos brandas doçuras e intensos pecados. Aura luz de sol entre as manhãs e dona de todos os abismos, a mais bela entre os jardins. És tu mulher. Dedico a vocês a devoção das minhas palavras...

segunda-feira, 3 de março de 2014

Livro: A Ilha de um homem só.

A Ilha de um homem só.

Este livro contém:
 - Cinquenta e oito histórias e contos em prosa poética;
 - Cinquenta e oito verdades (e mentiras) que não saem de moda;
 - Cinquenta e oito carapuças e provocações;
 - Cinquenta e oito reflexos e reflexões;

Indicado para: torções dos afetos; vista cansada de coração entristecido; fobia de alguns medos; desprendimento dos desamores; desgaste de antigas esperanças, constipação do sorrir; preguiças de semear; vocabulário enriquecedor de encantamentos; fortificante para as coragens e os possíveis; aconchego existencial; despertador; flexões do verbo amar; apoio às serenidades de se viver e morrer de Amor.


       UM FANTABULÁSTICO (OU NEM TANTO) PRESENTE, MIMO, RECUERDO, LEMBRANÇA, SOUVENIR, ETC.

Possível aos teus olhos, tua estante e às tuas mãos.
A Ilha pode ser sua!
O preço: R$ 30,00 + 6,00 (frete fixo) ou, troca-se por feijões mágicos.
A quem interessar possa, mande-me um e-mail.
Contato: guglicardoso@gmail.com
facebook.com/guglicardoso

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O homem que sabia milagres...

Era uma vez homem que sempre existiu, tendo entrado pela tangente na própria vida sem precisar nunca ter nascido. Dizia ele ter a mesma idade do mundo, sobrando para especulatórias teorias que precisassem o inexato e distante momento que em ele se aconteceu. "Somente o tempo me deu autoridades de existir" ria-se, "graduei-me gente desavisado das idades. As memórias dos outros foram os lençóis que me deitei, os sonhos alheios foram os frutos que comi. De mim não sei, o que sei é apenas o que os outros me contaram". E dessabido do seu próprio nascimento, não lhe sobrava espaço para carregar a própria morte. "Só morre quem nasce e quem não nasce não pode morrer." Mas não se sentia afortunado por isso, era antes um condenado aos estáticos eternos. Ainda que sua presença atiçasse adormecidas sementes e iluminasse os escuros, nada servia por quase nada sentir. "Planejamos demais a vida e a perdemos entre nossos ensaios. Eu não previ nem planejei e por isso ainda a tenho inteira. E de improviso entre as dores sem saber morrer, mais as perdi do que as ganhei, sobrando-me menos do que o contrário. Pelos vazios que colecionei, descompareci para as tristezas, desapareci para os tormentos do viver. Sou ausente nos compromissos que nos pedem os sofrimentos, mas também as alegrias. Tudo isto porque sempre vivo e nunca morro!" Sofria o pobre homem por nada sofrer. Um dia, apareceu-lhe num copo de cachaça a voz da sua consciência: "o que sabes da felicidade?" Não sabia o que responder. Desatinou em infinitas constatações. Talvez sabendo o que fosse sofrimento, saberia o que é ser feliz, porque sem também saber da felicidade, sabia, de nada saberia da vida. O que adiantava se manter mergulhado mas não poder respirar, falar de boca cheia sem saber gosto? A tristeza é condição para a felicidade, e vice-versa. Uma não caminha sem a outra; são irmãs que nos visitam com regularidade, em que a primeira entra quando a segunda se retira. E não lhe sobrando outras certezas, implorou por um milagre. Seu milagre era sua morte. E a vida assim lhe concedeu. Meses depois morreu de amor, para renascer num amanhã qualquer mais homem e mais vivo por aí. Descobriu que por ser mortal cabem-nos infinitas vidas, com seus doces e seus amargos. Melhor do que uma inteira sem sal.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Prisão...

Eu vivi por tanto tempo atrás das palavras e de mim mesmo. Amei letras e promessas ao invés das pessoas. Inverti a ordem das coisas e da felicidade em minha vida. Prisioneiro de mim e dos meus papéis, vivi enclausurado nos meus dias iguais, nas minhas velhas mágoas e canções. Encarcerei-me junto ao outro quando o arrastei para dentro da minha cela quotidiana. Além dos sonhos, permiti-me algumas fugas e banhos de sol, para me lembrar como era estar livre para os milagres. Eu mesmo havia escolhido minha pena e meu pesar sem o meu perdão. Contei-me histórias para me conformar de que estava bom ali, de que eu merecia e de que era suficiente. Eu sinceramente fingi acreditar; abandonei a vastidão do céu que um dia me pertenceu. Acreditei que, se todo mundo a minha volta cumpria suas penas e cinzas arrastando suas misérias, por que comigo deveria ser diferente? Por que não deveria seguir os mesmos passos, habitando os mesmos tamanhos? Por que somente eu deveria continuar com essa leveza e o brilho nos olhos? Pois eram eles que falavam de Amor, e não eu. Aí então me juntei ao coro dos contentes e descobri: A pena que por liberalidade buscamos é um amor nosso que não real, e que projetado nos engana. A ele nos agarramos e cegos entramos na trama, até que exaustos tentamos escapar mas, sem sucesso. Enraizados no ontem das nossas escolhas, custa-nos mover o mundo para habitarmos outro mais feliz, abandonando o que não nos serve mais. Enquanto a vida nos aponta repetidas razões para escolhermos o novo e com ele o risco de sermos felizes, preferimos nos apegar às justificativas e pretextos que criamos para nos mantermos no mais do mesmo e não sairmos do lugar. Vivemos presos à mesma ideia de que ainda poderemos ser felizes com o que não dá mais certo. Custa-nos tempo, energia e até equilíbrio para perceber que certas relações são hábitos e costumes, e o "amor", palavra oca na boca dos que repetem para anestesiar infelicidades e acreditar que mantém suas escolhas porque deliberadamente querem, não pelo medo dos vazios, carências e milhares de boas desculpas com que nos convencemos a ficar onde estamos, não arriscando nossos empoeirados confortos, nossa felicidade bem arrumada, nosso planejado fim de semana. Queremos a felicidade tendo medo de ser feliz. Um dia, medi os pesos e pesei as vantagens de ser feliz. Hoje sinto o gosto da liberdade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Entre...

O poeta entretanto, 
entre tantos, entretinha-se:
com a palavra a seduzir os homens
com a poesia a degustar do mundo.