segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Rebelar-se...

Queremos curar uma verdade incômoda fechando-lhe a porta na cara. Vivemos a fugir da própria sombra como se isto fosse possível. Os corpos amam em excesso como se nada nunca bastasse. Da realidade toda feita de agoras, nos esquivamos. O peito todo cheio de paixões, insinua-se. O medo feito todo de tempo, atira-nos para longe. Vivemos acrescentando cinzas às janelas e dúvidas aos milagres. Inundamo-nos de mundo, mas não de vida, protegidos no claustro das certezas. Moldamos a rotina como sentença que cumprimos sem espaço às reviravoltas. Talvez seja isto mesmo que queiramos. Combinamos fazer de conta que somos vítimas e que responsável é o outro. Ou o resto. Atravessamos o caminho na busca das pequenas imortalidades que nos compõem mas de que não somos feitos. Sem sucessos, permitimo-nos ressentimentos. Somos donos de violências contra nossa própria história. E nela nos prendemos por esta razão. Aguardamos liberdade criando confortos onde nunca há. Aguardamos a mudança para mudarmos. Amamos as contradições e exigimos lógica. Queremos curar uma verdade incômoda fechando-lhe sempre a porta na cara.

Corre risco o escravo ao saber da sua escravidão, rebelar-se, mas sem saber fugir.

sábado, 20 de agosto de 2016

Centopéia...

'Você já usou algum manual de redação?
Qual livro de técnicas para redigir você me indica?

Vez ou outra alguém me pergunta algo do tipo. Nunca parei muito pra pensar como escrevo. Destes livros, a única coisa que li foram as capas. Quando muito os índices. Tenho medo de pensar demais e desaprender; talvez por isso não tenha ido adiante.

Escrever, para mim, é como dançar a dois. Se eu puser a atenção detalhadamente em cada um dos movimentos, acabo me atrapalhando todo. Por isso apenas danço. Erro menos.

Sinto-me abençoado. As palavras me obedecem pelo carinho que a elas dedico. Elas se entregam a mim no instante que eu me entrego a elas. Caso de amor, sabe? Creio que só seja possível assim.

Isso me lembra a história da centopéia.

Uma vez, o besouro a encontrando, perguntou:

- Dona Centopéia, como a senhorita faz para andar?
- Ah?! Como?! Não entendi a pergunta.
- Como você caminha com tantas perninhas? Como se move, como se mexe, qual perninha você põe primeiro e quais as seguintes? Como você as sincroniza todas com exatidão?

E a dona Centopéia que nunca havia parado pra pensar nisso, nunca mais conseguiu andar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Às horas incertas...

Sofro de caminhos mais longos. A tortura do medo, reincido. A verdade mais clara, ignoro. Deixo pendentes tristezas e sintomas para resolver. O ontem serve-me para trazer notícias: do amor insuficiente, do agora insuficiente, do perdão insuficiente. Ocupo-me com personagens que magoam-me e machuco num enredo quase desconhecido. O sucesso me é uma distração, tal como o fracasso. Pesam-me as reticências de que sou feito. Dói-me sempre morrer entre os parágrafos, capítulos, estações e continuar. A ressurreição espero guardada em alguma esquina que ainda não passei. Sofro de pressão alta e baixas altitudes. Quero ser o que de mim ainda não imagino. Parece-me que estar aqui se trata de atrevidamente fazermos frente ao impossível. Os milagres acontecem às horas incertas.

Distraio-me com as flores do poema.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Comum...

É comum que regressemos do primeiro amor cheios de estranheza, filho. Seremos outros, chacoalhados como quem bate cabeça a entregar-se para as mortes seguida de violenta ressaca por continuar a existir. O primeiro amor é tratar-se de tropeçar no inevitável. Voltamos zangados com o mundo. Coisas em nós perdem sentido até que arranjemos outras destinações. Um intervalo abdicado das belezas. Inventaremos medos. Consultaremos desesperanças. Com as sobras de tempo, o tempo desperdiçaremos. Inclusive com monstros a falar-nos sobre a dor. Aprenderemos que tudo é feito de tudo isto, e tudo porque caímos para longe do primeiro amor. Há quem cicatrize a viver felicidade muito triste. Há quem deite a sofrer pelo amor sendo a única alegria a lhe restar. Só não será possível fugir, meu filho. Quem foge parecerá menos pessoa. Deveríamos sempre saber que o primeiro amor é apenas folha solta com que coração começa a escrever o poema. Apenas tristeza pode curar-nos definitivamente da lágrima.

Embora nunca em definitivo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A ir...

Não há o que me impeça, mas não faço, permaneço, e ainda insisto. Admiro os absurdos: o excesso de mundo para o pouco de vida a que me permito. Os convites insistentes para as verdades que não aceito e que salvariam-me da minha própria apatia e palidez. O que me é tão pouco, quero demasiado. O que me é demasiado, quero pouco. Ou nada. Temo que o viver não seja o que empurrar, inclusive este momento exato em que sou, estou e nunca me basto (ou muito me perco). Percebam: vivo sem conviver em paz com os advérbios. Aprendi a dormir, e somente sonhar. Não há nada o que me impeça, mas insisto, não o faço, não vou, não vôo. 

Mas continuamos a ir, sempre.

domingo, 14 de agosto de 2016

Curtos...

Pais são curtos. Pai e mãe são curtos porque não se demoram; não importa o tempo, não se demoram. Como nossos melhores espelhos não nos dão suficiente tempo - para que os enxerguemos como gostaríamos nós de ser enxergados. Das mágoas que sentimos e não diluímos. Das verdades que fazem com que sejam aquilo que também somos mas que insistimos em negar. Do amor que ensinam pelas linhas retas do cuidado ou pelos erros que igualmente cometemos ao tentarmos o acerto. Nós somos nossos pais pelas semelhanças, pela exatidão ou pelos avessos; o que aceitamos ou recusamos: nós os somos. E os pais são curtos, pois não se demoram o suficiente para que os aceitemos como uma das pontes para nós mesmos. À beira da vida, na procura do "eu", eles estarão juntos e de algum jeito, trejeitos, memórias, genética, presença, ausência inclusive. Amaram como nos puderam amar. Assim como amamos como sabemos amar. Assim como não sabemos amar. Assim como insistimos saber. Os pais são curtos porque não nos dão tempo de nos consertarmos para perdoarmos seus defeitos que nos doem e para verdadeiramente agradecermos. Os pais são curtos porque os carregamos ignorando a humanidade de que todos somos (des)feitos. Os pais são breves pelas lembranças demais com que se revelam em nós. Os pais são breves para celebrarem a tempo conosco o que ainda não encontramos, e que do mesmo modo buscaram para além dos seus próprios pais. A nós que resistimos tanto para aceitá-los. A eles que aceitaram ou não nossas resistências, não importa. A nós e a eles, aos pais e filhos que no papel de filhos e pais fizeram o que foi possível fazer, a gratidão possível de um homem ainda incompleto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Consigo...

A maioria de nós cai na armadilha do medo, seja ela qual seja. Uma que entramos por liberalidade, sem convites ou convocações exteriores. O homem costuma abrigar-se daquilo que o desafia e o atemoriza nas celas que escolhe, e que dela não sai por convencer-se de que está preso e que por alguma oculta conveniência esquece que a chave o tempo todo se encontra consigo. Assim crê, e espera. Uma idéia com a verdade se parece porque passamos nela a acreditar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Terra seca...

Como a solidão, este jardim abandonado anoitece. Guardo derrotas, como se guardasse segredos. Anoiteço sobre este jardim. Agora, entre as ruínas, sou igual a estas árvores que morreram no instante em que tudo deixou de fazer sentido. No momento em que partiste, deixei de fazer sentido. O sangue, dentro de mim, é como esta terra seca. A noite não será suficiente para lhe devolver a vida. A noite será como veneno dentro desta terra e dentro de mim porque o céu da noite terá a cor dos meus cabelos, o negro absoluto do meu vestido. A noite será a certeza de que existes entre a multidão. Muito longe daqui, és uma sombra entre a multidão.

(José Luis Peixoto)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Rio das flores...

Regressava uma vez mais do rio das flores. Era como dava nome aos seus sonhos com ela. O nome lhe era precioso, a despistá-lo temporariamente das tristezas mais cortantes que dele não se separavam. Os lençóis serviam-lhe à noite para as saudades. A janela, a fixar seu olhar despovoado de si. A tristeza quem lhe convocava junto aos cansaços para adormecer. Do rio das flores bebia o que havia de nunca mais morrer. Bebia para embriagar-se e lidar com os dias próximos, atravessando-os com o cuidado para não dissolver ausências. E antes que cada memória repousasse num lugar esquecido de seu próprio corpo, sonhava, para lá viver como quem tivesse feito o certo, amado certo, amado melhor, sem qualquer agressão às pétalas. Abria os olhos e ressentia-se. O medo era de não mais poder viver. Sair da cama numa manhã chuvosa de amor perdido era, definitivamente, um ato de coragem.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fantasmas...

A vida, meu filho, já me foi causa de receios e temores. Tive medo do amor se aproximar e eu sempre estragá-lo: a viver suspeito de que ninguém para mim serviria por não servir para ninguém; colecionando ao longo do tempo não memórias, apenas silenciosos fantasmas e fracassos interiores. E por muito sofrer por causas e motivos que criei e permiti por não saber amar, descobri que o medo que tanto senti não foi por conta da vida acontecer-me sempre toda errada. Sentia medo exatamente por ela poder acontecer-me como algo inesperado e certo.

Um tipo estúpido de precaução que para evitar doermos pela perda, filho, perdemos já antecipadamente.