quarta-feira, 27 de maio de 2015

Vaidades...

Quero lhe dizer que faz algum tempo que não sei mais onde piso. E isso é bom. Cansei dos territórios conhecidos em que me desconheci, medindo com passos meus azares e medos, não me poupando para nenhum dos absurdos que se tornou minha vida. Quero lhe dizer que ainda não sei quais sentimentos pesam na balança das decisões, e desconheço quais deles não são o fingimento de outros que vivo a sentir. Talvez eu demore para saber que o amor foi na verdade apego, carências repletas de inconscientes estratégias a deixá-lo mais aconchegante entre a linear angústia que em razão dele sinto, sofro e me entristeço. Talvez eu demore muito para saber que os laços que crio e amores que sinto são frutos do medo que fantasiado me engana. Talvez eu não venha nunca a saber, e mesmo sem saber o que prevalece em mim, decidi abrir mão do que pensei ser necessário carregar para seguir, mas que percebi há muito carregar e não sair do lugar. Aceitei o risco de errar para ser mais feliz. A vida não é jogo de soma exata e de alcançáveis perfeições. Quero lhe dizer que hoje busco tornar-me uma vez mais aquele que há tempos deixei de ser. Que é possível alterar a rota de colisão do destino com as tristezas. Sendo a vida miseravelmente única, breve e desconexa, se não buscarmos fazer sentido para nós mesmos, nada fará. Então ficaremos à margem da própria vida, que nos acontece enquanto não estamos, seja porque nos procuramos em qualquer ilusão de conforto, seja porque desistimos de nos encontrarmos. Decidir ser feliz não é fácil como decidir o lugar para se passar as férias. Decidir pela felicidade é um constante e árduo exercício de desapego das partes de nós que nos habituamos mas se encontram mortas e que não nos servem mais. Decidir pela felicidade é por em xeque aquilo que carregamos e nunca nos perguntamos se precisamos daquilo para continuar. 

Ao enganar o mundo, tardei-me enganando a mim mesmo.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Charuto...

acendo um charuto
que não fumo

no copo derramo o whisky
que não bebo

e dói-me o peito pelo amor
que distante

era todo meu.

domingo, 24 de maio de 2015

Atenção...

Eis abaixo uma lista de coisas aleatórias de que não gosto e que talvez vocês pouco ou nada se importem, mas que publico mesmo assim:
  • Coentro;
  • Licor de anis;
  • Moela;
  • Plantão da Rede Globo;
  • Gente que conversa tocando na gente o tempo todo;
  • Crocs;
  • Pagofunk, pagonejo e qualquer combinação possível entre estes elementos;
  • Regina Casé em qualquer programa que participe;
  • Dilma;
  • Aécio;
  • Jean Willys;
  • Jair Bolsonaro;
  • Átila, o rei dos hunos;
  • Acordar antes das 10 (da madrugada);
  • Vinho bom (prefiro aqueles açucarados vagabundos)
  • Colarinho demais na cerveja que mais parece colchão Castor.
  • 86,7% da MPB;
  • Gente que me marca com 850 outras pessoas em cards de flor, bichinho ou sensuais;
  • Gente que comenta publicações excessivamente com cards de flor, bichinho ou sensuais;
  • Risada escandalosa;
  • Reuniões;
  • Videokê;
  • Homícidio triplamente qualificado;
  • Pasta americana;
  • Bolo com ameixa (na verdade qualquer doce com ameixa);
  • Arroz com passas;
  • Maionese com maçã;
  • Fulano que só publica conteúdo político de direta;
  • Beltrano que só publica conteúdo político de esquerda;
  • Difteria;
  • Dinâmicas de grupo;
  • Quem berra enquanto conversa no celular;
  • Quem me pede pra escrever poesia sob encomenda;
  • Turbulência;
  • Flatulência;
  • Mortadela;
  • Tênia "solium" e "saginata";
  • Whisky;
  • Jogos mortais 1, 2, 3 até o último.
  • Churrasco grego;
  • Sarapatel;
  • Caixa Econômica Federal;
  • Etc.
É possível que alguns por aqui se enquadrem nesta lista com algo que sejam ou façam. Gostaria de comunicar que as reincidências enchem os meus pacovás e provavelmente os de outros tantos que não souberam como lhe dizer, talvez por vergonha ou educação. Caso você venha a se identificar mas não tenha certeza, pode vir me perguntar, sem problema. Caso você tenha se reconhecido de imediato, peço que pare. 

Não é tão difícil fazer um mundo melhor para se viver.

Obrigado.

domingo, 17 de maio de 2015

Se queres...

Mulher, se queres me amar peço: ama com força, com os dentes, ama com as unhas, com os olhos, o quadril, as tempestades, ama com tuas vísceras, tua ira, ama como se viesses a criar os deuses todos. Ama com a intensidade das marés sob a lua cheia. Ama a aliviar-me da minha própria e finita condição; a dar-me vida e aniquilar-me ininterruptamente. Ama para afastar o ar ou matéria qualquer que nos afaste a boca. E bebe de mim, come de mim, sorva saliva como alma a diluir na tua. Ama para escrever-nos o futuro e apagar-nos o passado. Ama como uma neurose, como doença, e como a cura. Ama como tua maior ambição e o teu mais nobre desapego. Ama como a dor jubilosa do orgasmo, e cale o tempo entre as tuas pernas, cale a dúvida entre os teus gemidos. Lambe-me o queixo e a paz que estendemos entre os lençóis. Ama para interrupção suave do tempo, para o cessar brusco do mundo. Apertar o peito, dilatar pupilas, derramar o sonho, incendiar a lágrima, o sangue, vencer a morte. 

Deita-me na cama dos absurdos, e brinda-nos o amor.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Remissão...

[...] frente aos abismos que nos sujeitamos, diante de uma quase invencível angústia que nos exaure ou de uma dúvida existencial que nos paralise; frente a um medo que nos sufoque e nos diminua, seja lá como for, sempre no limiar de nós mesmos será inevitável fazermos escolhas. Buscamos para além das confusões a que nos permitimos entrar, qualquer decisão que nos reintegre e nos absorva e nos absolva dos erros que cometemos por termos sido metade desde muito tempo. Mas por não sabermos qual o acertado caminho para nossos pés, nem de casa saímos. Vivemos calculando demais os riscos que receosos e distraídos, deixamos coragem partir pela porta. A remissão dos nossos pecados é a felicidade a que nos permitiremos daqui em diante.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Tesão...

Ela quer ser olhada. Ela busca ser olhada. Mirada, contemplada, despida. Clama por olhos abusados que cruzem com os seus. Dedicados. Olhos amantes. Olhos atentos a saber dos silêncios que gemem seus desejos. Anseia ser encontrada como alguém jamais a procurou. Um olhar devasso a devassar suas entrelinhas. A enxergar suas invisíveis confissões. A sua própria existência. Um olhar que a decifre e a devore. Sonha por dissolver-se no par de olhos que a mergulhe. Que a asfixie. Que a salve. Acredita que os olhos podem ser perigosos. Acredita que os olhos devem ser perigosos. Quer sentir-se nua. Quer sentir-se plena. Busca a ventura do salto acompanhada ao precipício. Somente o amor pode realizar o salto. Somente o amor pode despi-la.

Ela quer sentir-se amada.
E amar é ver.

O amor é o tesão maior.

terça-feira, 5 de maio de 2015

O passo de dança...

[...] respondo que tu deverias acreditar nas almas gêmeas. Penso que deverias acreditar em tudo, pois, de que nos serviria o contrário? Não crer em nada nos priva do risco de que alguma coisa neste todo seja verdade. Crer na metade continua a privar-nos do risco de que algo a mais do que cremos seja verdade. Os mitos, os contos de fada, os sonhos, as paixões, as sementes, a esperança, o passo de dança, os recomeços e também as almas gêmeas. Deverias permitir que o encanto te alcance e te aconteça porque depende de ti. Acreditar é permitir que a mágica seja verdade, que o amor seja verdade, que o milagre seja e que nós também sejamos.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Cartas...

[...] as cartas são como lacrados silêncios grávidos de palavras e carregados de mundo. Eu fazia futuros quando escrevia, e ao recebê-las dava luz ao passado do outro em minhas mãos. Sentia a responsabilidade de um profeta, alfabetizado para colocar nos papéis as andorinhas. E é certamente um ritual pagão antigo, este de respeitarmos o tempo; a arte do refinamento das promessas e das esperanças. Coisa que perdemos atualmente.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Arranhe...

Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma...

(Clarice Lispector)

Selfies...

Uma observação a qualquer hora:

Se todos aqueles que postam suas trilhares de selfies acompanhadas de frasezinhas motivacionais e filosóficas praticassem realmente o que enfeitam suas poses sejam elas no espelho, na festa, na praia, na rua, na chuva ou na fazenda, o mundo talvez - talvez - fosse lugar um bocadinho melhor.

E caso assim fosse, ironicamente teríamos menos selfies com frasezinhas motivacionais e filosóficas.

Quanta sabedoria fotográfica nas redes sociais; a cada álbum de fotos que vejo e me sinto sendo dispensado da psicoterapia pela sabedoria fotogênica alheia.

Oremos.