sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Amantes...

são as palavras do poeta
suas amantes:

todas grávidas de sonhos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Documentário...

"Dá-me a tua mão", pediu ele. E após segundos inteiros dos seus olhos pretos, ela deu-lhe a mão. Ela a ele aí se confiou. Deu-lhe as mãos como se lhe desse todo o corpo, como se a ele entregasse seu cansaço, todo seu descanso, como se exposta confiasse sua própria alma, atravessando seus próprios precipícios. "Promete que nada vai acontecer?", prendia-o no instante de sua interrogação. "Prometo que tudo vai acontecer", sorria. Nele, as últimas palavras da noite. Nela, os últimos medos. Na cama larga, adormeceram. 

Não houve tempo de assistirem ao documentário.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Inferno...

Eu irei para o inferno. Com passagem só de ida e sem chances de cancelamento. Eu irei para o inferno e chegarei com honrarias de um chefe de Estado, com o prestígio de um líder religioso, como o ganhador de um prêmio Nobel. Receberei as mais calorosas boas vindas, camarote com porcelana chinesa e mil toalhas brancas. Serei finalmente um sucesso, celebrado pela minha incoerência, festejado pela competência em ser emocionalmente incompetente. Serei aplaudido de pé pelos meus desperdícios: de tempo, do outro, de mim. Serei abraçado por todos os amores que por capricho joguei fora. Autógrafos por todas as chances que por orgulho descartei. Serei aclamado por acreditar nos deuses mais pagãos - como o sofrimento - e dar minha vida toda a ele em sacrifício. Serei notícia pela minha cegueira existencial, manchete pela exímia habilidade em transformar frustrações em raiva e destruição. Ganharei medalhas por me arrepender muito mais vezes do que ter feito melhor. Creio até que ganharia a chave da cidade se lá fosse uma. Serei palestrante a contar como coleciono todas as contradições do mundo e exijo coerência de todos que me cercam. Serei convidado à jantar para explicar como nego meus erros e transformo responsabilidade em culpa para jogar nos outros. Ganharei prêmios pelo vitimismo e troféus por escolher as palavras certas para dizer coisas erradas. Darei aulas por andar em círculos e deixar o que me serve escapar por um triz; por convenientemente acreditar que a vida é injusta e o mundo me é um eterno devedor, podendo com meu ressentimento cobrar a todos das maneiras mais infantis. E antes da minha primeira entrevista coletiva, chorarei nos bastidores. Por não ter roupa que usar, pois ir para o inferno é ficar nu. Diante de si mesmo. E não saber lidar com a vergonha que nos despiu e nos contou que costumamos nos colocar sozinhos no inferno para não sermos mandados para lá.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Das naturais inclinações...

Das naturais inclinações ao equilíbrio, à sobriedade e à temperança em que está sujeito o homem, delas todas se desvia com peculiar destreza nos finais de semana. Para que nos reservarmos se reservada já está a mesa no bar? As nossas virtudes costumam ter mais força nos dias úteis, assim como o arrependimento melhor mostra seu vigor a partir dos domingos. 

Como bem falou Oscar Wilde: posso resistir a tudo, menos à uma tentação.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O medo...

Ela sentia o medo. Não um medo a paralisá-la, como rezam os temores em suas habituais cartilhas. Era o medo que a convidava a lançar-se em tudo aquilo que nunca vivera. A pedir-lhe obediências de abandonar seguros caminhos que a prendiam nela mesma. A incinerar velhas certezas por fazer-se ainda hoje a sua própria luz. O medo era seu frescor, a porta aberta, a novidade. Desejava-o. Equivalia ao momento anterior de um salto, o maior deles. A hesitação a dissolver-se na coragem; a coragem a absorver-se no prazer. Sabia, não regressaria mais para si. Sabia que, ao perder-se de vez, reencontrar-se-ia, precisando para isso atravessar os tormentos de um renascer. Subir no mais alto degrau de sua história e sacrificá-lo para ganhar a vida, atirando-se de lá caindo sobre si mesma, destruindo a si mesma por inteiro, sem quaisquer fragmentos a colar e recompor. Sem projeções ou passadas ideias seria outra, liberta dos contornos que a confinaram em suas metades e tristes confortos. Cairia para levantar-se. O medo era também este, de reconhecer-se indomável para todos os sempres, sem nunca mais por os pés no chão e virar raiz. Não haveria mais chão. 

A esta queda, chamou-a de amor.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Aos estúpidos...

[...] O amor, meu filho, por vezes carrega horas erradas. Sobra-nos então para os azares, razão de nossos descaminhos. Porque o amor num dia amadurece e não nos damos conta; amadurecemos num outro sem ele conosco acompanhar. O risco é este: que ele mude a ser outra coisa, e nós, a sermos outros, doendo pelos frutos que deixamos de colher. Sobra-nos sempre para os azares, onde em ambos os casos nos sentiremos estúpidos. Amor e tristeza também acontecem aos estúpidos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Mudo...

Para que o homem escreva se faz necessária uma dose de caos. Será o desequilíbrio na sua dinâmica interior a dar passagem para os significados. A instabilidade da psiqué cria a necessidade em deixar a porta aberta para que escapem suas emoções, e é pela inexatidão de si que a porta se mantém aberta e a palavra nos alivia, pois, fosse o homem sistema fechado e morreríamos sufocados por excesso de mundo. A loucura seria certa se não pudéssemos nos derramar no verbo. A letra nos corta para que a pressão não nos estoure, libertando-nos momentaneamente da nossa condenação: a desordem da nossa própria existência. E será o caos o meio e a forma a fazer-nos atentar para a impermanência das coisas; a palavra filha do vento. A nossa impermanência e incompletude pedem o apoio das palavras. Somos mancos. Na perfeição não há linguagem. Não há o que dizer. Há contemplação, silêncio e repouso, opostos à nossa condição aflitiva. Escrever é um descanso no cansaço de ser e estar. Imperfeitos. Escrevemos para dar consistência às esperanças, para convocarmos alguma redenção, ainda que versemos exatamente pelos seus contrários. A palavra é o único lugar onde a mentira nos acontece, seja ela a nos salvar ou a nos perder.

Deus é mudo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

As superfícies...

Cultivamos as superfícies pois desaprendemos a enxergar os invisíveis todos que nos compõem e saber das verdadeiras riquezas que carregamos. Através do outro nos reconhecemos, mas o outro não pode ir muito além. Aí então consumimos elogios e críticas sem saber quem somos. Sofremos por não saber quem somos. Sofremos como se o outro dissesse a verdade sobre nós.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Desistir dos olhos...

O amor acaba quando poesia desiste dos olhos. O amor se despede quando janela se torna janela apenas e as estrelas, pontos no céu; quando sonhar se faz tão-somente intervalo entre os dias. O amor acaba pela reincidente aridez de dentro, por laço que endurece, espinho que cativas, ferida que cultivas, distâncias que nascem entre nós e a vida, entre nós e o outro. E o que dizer do amor que jamais morreu por não ter fim mas que hoje deixou de ser? Qual linha, palavra ou ausência traça o limite entre o que éramos do que não mais seremos? Talvez o amor só deixe de ser por nunca ter sido o que havia de se tornar: amor.

A poesia acaba quando amor desiste dos olhos.

(escritos de 2012)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Das exigências...

[...] por vezes as coisas boas vão se instalando em nossa vida aos poucos, sem antecipados avisos, barulhos ou exigências de novos espaços, como processos contínuos que nos desarmam e nos expõem novamente ao viver, permitindo-nos escolher e aceitar o acerto, a prosperidade e por-nos disponíveis uma vez mais aos milagres.