sexta-feira, 3 de julho de 2015

Aquilo...

 A gente sempre destrói aquilo que mais ama
em campo aberto ou em uma emboscada
alguns com a leveza do carinho
outros com a dureza da palavra
os covardes destroem com um beijo
os valentes com uma espada. 

(Oscar Wilde)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pragmático...

Eu tinha um plano. E o plano era desviar dos meus erros. Invejo todos os que erram, mas não como eu. Invejo os que erram com simplicidade, com objetividade. Invejo aqueles que cometem o erro e ponto final, que erram e não se complicam, que erram e não são infelizes para sempre. Invejo aqueles que são pragmáticos, que são práticos para existir, que cometem erros, acertos, e são felizes; que são práticos para recomeçar. Queria isso, ser pragmático, para não sofrer com as minhas descabidas elucubrações, sem por em xeque minhas certezas e ameaçar minha sanidade. Queria ser prático, sem inventar frágeis teorias para os meus possíveis. Inventando-as torturo-me, boicoto-me, enveneno-me, destruo-me; e numa fração de segundo. O que me é suficiente. Eu queria a praticidade dos que não são tempestades e nem desconfiam disso; gente sem apegos intermináveis, angústias diárias e aflições em excesso, que não fazem das pequenas coisas, coisas que as engulam. Eu queria a simplicidade do homem que se salvou do desastre decidindo ir por outro caminho. Eu queria a sabedoria daqueles que despedem suas armadilhas emocionais na hora certa, que dispensam amores que não dão mais frutos, que mais consomem e amargam do que adoçam. Eu queria ser pragmático para não multiplicar perguntas ou cismar com respostas. Eu queria não me afogar com qualquer mágoa ou colecionar ressentimentos como grife que diariamente visto. Eu queria a facilidade de quem estende o coração pra tomar sol, rir com facilidade e perdoar como se não doesse. Eu queria ser prático para deixar pra lá e não apontar o dedo, não ruminar, delirar e levar pra cama o que não me fará dormir. Eu queria ser pragmático para despedir do erro e seguir jornada, sem crises, traumas, velórios, labirintos, punições. Eu queria ser descomplicado para matar o medo e não dar vida a mais outros dois. Eu queria ser prático para não pensar demais, falar demais, oscilar demais, perder o encanto. Eu queria ser pragmático para ser incapaz de arrastar o passado comigo e com ele fazer cálculos e previsões pessimistas. Eu queria ser prático para não ter tempo de ser injusto; para não viver constantemente as batalhas mentais onde sempre sairei ferido. Eu queria ser pragmático como quem assume as consequências e com silenciosa coragem descarta a culpa; não anuncia nem sente o luto antes de morrer. Quero me despedir de vez e não morrer aos poucos. 

Como sempre faço.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Atenciosamente...

Onde fecho a torneira? 
Onde se encontra o registro? 
Como se tapa o buraco? 
O lugar por onde me sai o excesso de vida
é o lugar por onde me entra o excesso de mundo.

A não sentir tanto,
a não pensar muito,
a não me doer todo,
a não viver demais

alguém me dê a medida,
alguém aponte com exatidão:
Como devo sentir o que sinto?
Como devo pensar no que penso?
Como devo morrer no que deve partir?
Como proceder com o que resolveu ficar?

Alguém me conte como se comportar.
Como é não morrer sempre pelo exagero
com um intenso cravado no peito,
por um transbordamento a sufocar-me 
a própria alma.

Por favor, dêem-me a cura das alternâncias,
das incongruências,
das contradições,
dos altos e baixos.

Aceito dores de parto
a livrar-me de vez destas angústias.

Atenciosamente.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Palhaço...

[...] porque depois de profundas tristezas que nos escolhem vez ou outra nesta vida, para continuarmos fazendo sentido para nós mesmos, precisamos nos reinventar. Assim faz o palhaço ao escolher seu novo número, quando a versão antiga de si já não agrada mais a ninguém. Para ele, meu filho, o silêncio de sua platéia é esta profunda tristeza de que lhe falo.

domingo, 28 de junho de 2015

A minha fé...

banho-me na poesia
a secar-me as mágoas tantas.

ilumino-me no poema
a apagar-me os medos todos.

diluo-me nas letras
a ganhar-me alguma solidez.

recordo dentro de um verso
o que fora busco esquecer.

entre raízes, razões
mentiras e mistérios
acredito:

a palavra também é minha fé.

sábado, 27 de junho de 2015

Lábios...

Ele está a dizer as coisas com cuidado como se lhe guardasse o próprio amor na boca. Como se fora um fruto, um filho, e ao falar à sua amada dá a luz por entre os lábios sem se dar conta que se faz noite.

Um homem amado jamais anoitece.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Recomeçar...

Parece-me, filho, que carregamos defeito de nascença: estaremos sempre desconfortáveis em nossa própria felicidade. Por isso nela não permanecemos, partindo para regressarmos inúmeras vezes. Veja, não a boicotamos. Isto é aparente, uma das tantas mentiras que contamos para não lidarmos com a verdade. Bebemos o suficiente para sentirmos sede novamente. A felicidade demasiado longa amarga-nos.

O homem sempre criará desculpas para recomeçar melhor os seus destinos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Da paixão...

beijo-te a seguir como se fora o primeiro beijo.
beijo-te o primeiro como se fora o único.
amo-te com a força das marés sob a lua cheia. 
amo-te como dragão cheio de fúria.
amo-te como a devoção da taça ao vinho.
amo-te como se pudesse empreender milagres.
não sou outro que não tu mesma enquanto te amo.
não separo o tempo do espaço nos abraços.
não separo teu nome da minha boca nos sorrisos.
não afasto tua paixão da minha pele
nem dos destinos.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Atravessá-la...

A mim me parece, filho, que o amor quase sempre encontra os despreparados. E só saberemos se somos um deles se o amor vier a nos encontrar. Eis dolorosa ironia, não haver outra maneira de nos livrarmos da dúvida sem atravessá-la.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Dialética...

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

(Vinicius de Moraes)