terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A crença...

A crença é uma casa do nosso próprio tamanho em que nela por certo tempo habitamos. Tão logo crescemos, e se faz necessário mudar para uma em que melhor possa nos acolher. Maturidade é essa caminhada, entre uma e outra casa, em que é possível se perder ou voltar para casas já conhecidas, muitas vezes por acomodada comodidade. Talvez sábio seja aquele que passou a saber que nenhuma casa realmente lhe pertence, e por isso anda fazendo morada nas verdades de si mesmo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chaves...

Pudera existir uma categoria de homens que, segundo o meu egoísmo, pela contribuição feita à humanidade, deveria viver para os sempres.

Roberto Gomes Bolaños estaria aí, inequivocadamente.

Sua genialidade acompanhou-me por inúmeras tardes da infância e nas infinitas repetições ao longo dos anos. O que aprendi naquela vila, não aprendi mais em lugar nenhum.

Lá, contaram-me que a televisão não precisa ser apelativa. Que pancada nada que tem a ver com violência. Que não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar. Que a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.

Lá, descobri que o Guarujá pode se passar naturalmente por Acapulco.
E que ninguém tem paciência comigo.

Como personagens, são mestres.
Como homens, são ídolos.

Depois deles, o humor tornou-se exigente.
Depois deste ano, o humor tornou-se definitivamente órfão.

E embora sejam inevitáveis as despedidas, para quem a gente ama e gosta, jamais estaremos preparados.

Um homem.
Uma vila.
Um mito.

Encante em paz.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O ininterrupto não-saber...

(...) faz parte da gente sentir-se perdido dentro da gente mesmo. Sem nunca saber ao certo pra onde ir e, quando vai, não saber ao certo se está onde deve estar. E quando se está, não saber bem se fica ou se vai. Ou quando se vai, se deve mesmo ir ou voltar. Se o que nos falta está dentro ou fora ou se nos falta algo realmente. Se seremos para sempre esta incompletude, ou se a inteireza é um mero conceito para continuar caminhando. A vida é um constante não-saber. Que nos empurra e nos arrasta, que maltrata e abençoa. Que nos fere e que nos cura. Que acarinha e nos convida: para a próxima página; para o dobrar da esquina; para o sábado à noite; para o amanhã de manhã. A vida é ininterrupta descoberta, ainda que continuemos sem saber o que precisamos exatamente descobrir. Qual a chave correta que nos alivie, que nos declare se a ansiedade e as culpas que sentimos são de nascença ou fabricadas pelas coisas que nos repetiram ao longo da vida. Se a vida tem que ser isso mesmo. Pois é, a vida é um constante não-saber. Engrenagem sem prévio manual. Jogo de desconhecidas regras. Palco sem estabelecidas falas. Metades que buscamos preencher. O incômodo mais bonito que nossa alma poderia conceber. Que quando não nos leva e nos amansa, nos amorna, nos fazendo repetir os dias em 'stand-by', à espera de que o amanhã dê à nossa vida algum verdadeiro sentido. Ou nos arranhe e nos grite que não há nenhum sentido em esperar o amanhã para, então, sabermos...

domingo, 23 de novembro de 2014

Sagrado...

Quais são os sagrados? Equivoca-se o homem ao pensar que o sagrado habita apenas o altar de uma igreja, o terreiro de candomblé, o templo budista, o Corão, a Bíblia, os Vedas. Encontra-se o sagrado, preguiçoso, na rede que domingo balança à tarde na varanda. Encontra-se o sagrado, ansioso, no tempo de ver o amor atravessar a sala do desembarque no aeroporto. O intervalo entre os ruídos que o existir nos causa e cansa é um dos modos de sagrado. Encontra-se este sagrado, no chá de hortelã final da noite, no tempo macio vivido no edredom sábado de inverno. Sabe-se o sagrado no cheiro bom do almoço e da terra molhada de chuva, no orgasmo que silencia nossos pensamentos. É janela que sabe do pôr-do-sol degradê. O beijo, o olhar de cúmplices e a entrega dos amantes, o quartinho cheio de boas velharias que gostamos de guardar. O sagrado é o espaço que a gente gentilmente impõe contra o cotidiano do mundo. Pode-se nele viver tristeza, luto, dor, mas com a educação de um anfitrião que sabe que o convidado não se permanece. E para além das liturgias e religiosas solenidades, este viés de sagrado tem ritual? Tal qual o cigarro e o cafezinho após a refeição. Entrega e descanso? A poltrona velha e confortável do canto da sala que espera seu dono depois do trabalho. O livro que nos aguarda para ser lido. O abraço que deseja acontecer. O sagrado é o espaço de amizade - e postura de silenciosa veneração - para com a vida. E para consigo mesmo.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

As 3 Marias...

"As estrelas são os olhos de quem morreu de amor" (Mia Couto)

Era uma vez menino a habitar o chão do mundo num passado em que os horizontes ainda não haviam nascido, época onde nem as palavras nem os medos haviam também sido criados. Por lá, menino via-se refletido nas águas do rio do tempo como desambiciosa semente. Sabia a vida que menino-semente era preguiçoso demais para seus amanhãs, e receava ela ficar ele paralisado por entre velhos ontens e esquecer de florescer. 

Assim, convocou três anjinhos guardiões das noites e dos sonhos, que cintilavam em céus distantes a cruzar seu caminho e causar despertamentos. Vestindo-as de amor, deu cor e destino a cada uma delas. Dizem antigas vozes que os primeiros nomes nasceram naquela ocasião. 

A primeira, tornou-se vermelha menina de negros cabelos a acender insuspeitas paixões dentro do seu corpo. Fez menino transbordar-se a descaber no próprio peito. Todo fruto tornou-se abundante; todo desejo era uma ordem; todo o céu lhe pertenceu. Descobriu ser raiz o anúncio das asas, todo espinho trazer consigo uma flor. Namorou bençãos e infernos, descobrindo adormecidas e contrastantes forças que dentro de si habitavam. Aprendeu os primeiros contornos e ardências do amor. Deixou de ser menino-semente para ganhar a dimensão dos homens. Tornou-se demasiado humano. 

A segunda, negra mulher de distantes reinos, aproximou-se de menino-homem a mostrar-lhe o árduo ofício de navegar o próprio caminho. Ensinou-o a levantar velas, assumir compromissos e direções, despedir-se para além das dores para aportar em outros amanhãs, remando sempre contra as contrárias marés a caminho da sorte. Aprendendo a velejar nas próprias sombras, despertou-se para ser farol de si e dos outros por entre as tempestades. Amadureceu seu espírito e ganhou humanidades. Tornou-se responsável homem. 

A terceira, tornou-se mulher da pele clara a pisar-lhe o pé e arranhar seu rosto. Roubou tesouros, dissolveu sentidos. Menino aprendeu os amargos ofícios da raiva, a lhe trabalhar verdades e atribuir-lhe ilusões, costurar cicatrizes e amansar demônios. E na travessia dos espinhosos invernos, ao seu lado aprendeu o mais importante: a esquecida prática da alma, predicado reservado até então aos deuses: o perdoar. Quando se ergueu, percebeu do alto que mulher quando feria, feria-se a si mesma sem saber, e deixando escorrer a seiva da sua serenidade sufocava-se na própria sombra. Acolheu-a e cuidou. Aprendeu a dedicar-se e por amor fez-se luz a derramar nas tristezas do seu não-florescer. Devolveu-lhe a beleza, os sonhos e promessas de jardim que sabem os ventos que arrastam para longe as mágoas. Tornou-se homem de alma límpida a despedir as mentiras próprias e alheias. Tornou-se homem a curar e permitir ser curado. 

Aprendeu assim também e para sempre a gratidão que ensinam as dores.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Encante em paz, poeta.

Palavrório tropeçoso metido (a besta) a dedicatória e homenagem ao menino Manoel de Barros:

Um dia eu brinquei de ser Manoelito,
e do barro se fez o homem
e do homem a poesia.
Aprendi a ver no azul o canto dos pássaros
e na quina das mesas o encanto das coisas
Destreinei meu verbo letrado
que se encantou e amanheceu semente
passei namorar palavras
dormi de olhos atentos para nos sonhos
não me distrair das cores
Aprendi que infância não entende ponto final.
e desaprendi a amar, só para aprender a amar de novo
descobri que verso, valsa e vento são filhos dos olhos e da lua
Meu lápis é vocabulário de livro da própria vida.
Se o poeta tira da palavra o seu sustento,
faço hora-extra para a poesia.
Um dia pretendo me casar com ela.


"A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”. (Manoel de Barros)

domingo, 9 de novembro de 2014

Passagem...

Uma vez mais chegava ao guichê. Do outro lado do vidro Marcela, e Bete e Jonas. Colegas de André, Flávia e Kamila. Estes, do guichê da companhia no destino impresso na passagem. Conheceu todos, um por um, pela manhã cedo. Ainda era hora do almoço e provavelmente era a oitava viagem do protagonista. Para o mesmo lugar. O trecho da estrada curta permitia o alto número: quatro idas e quatro voltas. Viajava para chegar, e depois retornar. Os funcionários notaram sua reincidência no balcão. Já haviam presenciado situação semelhante com um louco. A família precisou buscá-lo, aliviada pelo reencontro. Era um homem desorientado. Ele não, estava lúcido e decidido a fazer isso, mais uma vez. A viver isso, uma vez mais. Assim queria, assim desejava. Assim precisava. Semanas atrás a rota significava uma espera: alcançar os braços da sua amada. Hoje, era uma espera para ninguém. Viajava para tentar despedir-se das dores assim que embarcasse. Era um pouco de si que desejava deixar pra trás, fugindo de si para encontrar-se do outro lado, quem sabe. Repetia o trajeto numa tentativa de deslembrar, de apagar os anos com quilômetros, sendo ali apenas um intervalo entre o tudo e o nada. Uma dor em intervalo. Uma viagem para desconectar-se do mundo, dos compromissos. O que poderia lhe acontecer no trajeto? Qual notícia poderia alcançá-lo ali? Talvez e somente a morte, num acidente, numa fatalidade. Mas com ela não se importava, ele já havia morrido. Viajava para tentar mesmo era viver novamente. Qualquer outra indelicadeza da vida haveria de esperar sua chegada. Repetia placas e cenários para nunca mais ser o mesmo. Abandonava no acostamento suas mágoas. A cada curva livrava-se das duras verdades que disse quando pela última vez partiu. Por isso refazia-se no caminho, como que para tirar aquela mancha difícil que escurece a alma depois do adeus.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Escuta-me...

Ela nunca me escutara. Ela nunca realmente me escutara. Quantas não foram as vezes a dizer-lhe para que não fosse intensa demais, doída demais, derramando-se demais por cada copo cheio, cisco no olho, topada, espinho no pé? Que não fizesse de riacho inundações, pois inundava a ela e a mim. Eu então me afogava e morria. Pedia-lhe que da interminável guerra contra o mundo a lhe oprimir o peito, escolhesse melhor suas batalhas. Ela nunca me escutara. Lutava todas, sofria todas, doía todas. Eu me cortava todo, e inteiro morria. Ignorava-me solenemente como se só falasse coisas erradas, enquanto ela calada vivia cruzada interminável contra a tristeza e as misérias. Não percebia ela que a tristeza nela morava, mas que na mesma morada eu também residia. Dizia-lhe que não se deixasse levar, pois era eu que cada vez mais partia. Dizia-lhe que atravessasse esperançosa os capítulos densos, mas era eu quem me arrastava e nas páginas todas me perdia. Dizia-lhe que só a morte não passa, apenas a morte. Pedia a ela que me ouvisse. Deu 'não' aos meus avisos de não pisar no jardim do amor que cultivávamos, estragando todo o amor que ali crescia. Ela nunca realmente me escutara. Dizia-lhe que se se alegrasse, seriam os dias mais longos e as dores mais curtas, e o amor alcançaria-a descansado, fazendo-me descansar também sem medos ou melindres. Ela nunca me escutara. O excesso de vida doeu-lhe a vida mesma, faltando-me a mim nela continuar vivendo também. Hoje, peço a ela que me escute. Apenas para que o tempo nela pouse. Apenas para que o atravesse. Apenas para que sobreviva. E quem sabe ame, ainda que mais uma vez.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Prontidão...

Cumpre ao amante depositar seus inteiros nos braços da amada, confiando possibilidades aos hábeis tecelões em que nomeamos destino. Cabem aos que amam despedir medos de semente em não se saber um dia raiz. Solicita o amor as interiores habilidades de despertencimento e desapegos. Pede o bem-querer a prontidão de luz que em nós se distraiu; porque somos os inevitáveis servos dos encantamentos que traz a vida, quando nos atravessa com nomes e os cheiros do outro. Curvando espírito em gratidão, bebemos todos das bençãos no rio do tempo. Devedores dos frutos que colhemos, o amor é o real credor dos nossos perfumes.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Teatros...

Sem saber qual o caminho, como acertar os passos? Sem saber qual o enredo, como ensaiar as alegrias? Depois de você, vivo cansado e de improviso, num lugar onde qualquer cômodo é porão, no tempo em que qualquer noite é inverno. Lembrança é tortura, perfume é espinho e sorriso é pecado. O vento tudo leva mas nada traz, e basta pensar-te e vem-me as tempestades todas, o desespero, o afogamento a me consumir nas marés que arrastam-me para longe da terra firme, dos nossos planos, de algum descanso, de mim mesmo. Não trabalho mais com as esperanças. Abundam mais desilusões em minha vida do que nos teatros. Há mais tristeza no peito do que nos cemitérios. O mundo agora anda sereno, pois resulta que todas as coisas em mim estão mortas. Se ao menos eu pudesse dormir sem sonhar, viver sem sonhar, respirar sem medo. Atravesso minha existência sem sua comoção, despedindo-me do sentido que dei aos meus passados e inícios. Queria era apenas buscar um final feliz, ainda que eu tente acreditar que não possa haver nenhum final. Exatamente para que não seja tarde demais.