terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Resoluções...

Aquele frio que já lhe cortou alma era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andou cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor no colo o seu próprio peito. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo lhe brindou com sementes muitas, queria agora era curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e aprender o que não havia até ontem aprendido: lembrar que no palco da vida somente ele poderá ser seu antagonista. Cansado de refletir tristezas, passou a espelhar em si a própria luz. Há ainda de construir novos caminhos a denunciar suas escolhas de fé. Salvar-se-á de vez, daqui pra frente.

E sem resoluções a fazer ele quer olhar-se e descobrir quem ele é. De verdade.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

L'étranger...

Aqui, sofremos de infinitas turbulências emocionais. Às vezes sofremos sem causas ou motivos, mas carregamos sempre o peito congestionado de tristezas. Ruminamos desnecessárias expectativas. O coração, expomos às náufragas escolhas da paixão; passando a viver de sentimentos recicláveis e buscando emoções em rodízio, amando apenas a metade de nós mesmos. Sentimos saudades de ser e pressas de existir. Colocamos vaidades e carências para conversar, enquanto calamos o silêncio à força. Compramos imediatos prazeres e esperanças de curta duração, vivendo nos bastidores aguardando nossa adiada estréia com os dois pés na Vida. Não aceitamos impermanências mas rifamos os amanhãs. Queremos o excesso e também o anti-ácido. O erro e as honras. O pecado junto a absolvição. Cultivamos medos de estimação, praticando mentiras não assumindo verdades. Versamos sobre os desapegos, mas colecionamos esquinas. Cantamos doçuras mas gostamos de adoçante. Pregamos liberdades mas vendemos nossa Alma na liquidação; falamos de inspiração e nos falta o ar. Desconversamos sempre o espelho. Quem sabe num próximo desencontro da Vida, por um acaso nos encontremos. Quando palavra nos chegará espinho e seremos mansidão. Quando tumulto nos pedir atenção e seremos a quietude dos desertos. Quando virá aflição e seremos cura. Talvez ainda vibremos em outras frequência e experimentemos uma nova versão de nós. Quem sabe a gente ainda não assuste nossas mágoas com gritos e revoluções interiores; ou lembremos que sempre e nunca são somente advérbios e escolhas, jamais sentenças. Ou que o preço pela sinceridade é menor do que o que gastamos para mantermos nossas complexas ilusões do caminho. Será que se realmente um dia nós fôssemos nós mesmos, não doeria menos?

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Casei-me...

Mulher, lembra-te do dia que a moça do caixa sorriu a dizer-nos que tu eras esposa atenciosa comigo enquanto colocávamos as compras no carrinho? Ali, casei-me contigo. Casei-me contigo quando decidiste perder o por do sol para ganhar o meu abraço. Quando tu choraste por medo de perder-me. Quando adotaste as borboletas como mensagem secreta de amor. Casei-me contigo ao final daquela noite por cantar versão engraçada de música antiga mas com meu nome. Casei-me contigo no primeiro silêncio nosso do café da manhã. Ao te farejar nos lençóis da minha cama, na toalha de banho, na blusa esquecida na cadeira. Quando pela primeira vez entrelaçaste tuas pernas nas minhas. Quando me vi a ligar-te de madrugada por conta e culpa das saudades. Casei-me contigo ao te ver a mulher mais linda pronta pra festa, e ao tornar-te ainda mais bela nua depois dela. Casei-me contigo ao lhe apresentar meu pior defeito e tu a fingir que nada viu. Casei-me contigo quando sentiste conhecer-me desde os eternos. Quando escolhemos não enjoarmos nunca do mesmo restaurante. Casei-me contigo ao ver tua roupa conquistando minhas gavetas. Ao ver a minha velha roupa conquistando teu corpo nos domingos. Casei-me contigo antes do primeiro sonho que te sonhei. Casei-me contigo depois do último. A primeira foto. O primeiro beijo. A primeira música. Casei-me contigo quando me flagrei chamando-te de poesia e musa. Quando percebi que havia aprendido a escrever apenas para encontrar-te. 

Casei-me contigo para assim te namorar para sempre.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Começar...

Ele precisa por em dia os milagres, afastar-se dos medos e pecados. Ele tem urgências para escrever e exorcizar os seus enganos, crenças erradas e fatalidades. Ele tem pressas para curar-se do que acredita que deve se curar. Ele tem data marcada para estrear-se. Ele não pode esperar pelo que já esperou demais. Ele se põe como adequado, correto, direito, puro para poder merecer. Ele não sabe o que é merecer. Ele atualiza suas esperanças por conta das angústias. Ele espera a revelação, a intervenção, o salto, a descontinuidade. Ele se banha para jamais se sujar. Ele se pune por não se sentir outro, melhor, mais digno. Ele não pode mais esperar pelo que já esperou demais. A ansiedade é a muleta com que se dirige ao peito. Sente ânsias. Sente o medo. E mal sabe que ao desistir de tudo poderá tudo então (lhe) começar. 

Diariamente...

Ela quer ir embora de todos os fracassos. Ela não quer a cura, mas livrar-se deles. Ela tem urgências que apoiam a estupidez de insistir naquilo que diariamente a diminui. Busca o amor a ponta pés, embola a linha dos caminhos e fatalidades, barganha com a felicidade seu próprio sofrimento. Ela engole palavras pontiagudas e morre pelo excesso de mundo, diariamente. Ela reza de costas para os amanhãs e distrai-se frente aos precipícios. Ela discorda dos erros mas os promove. Ela anuncia esperanças mas as boicota. Seu altar são as fugas que enfeita. Seus deuses são convocados pela tristeza. A gratidão resvala no seu corpo e este expulsa a sua sorte. A porta estreita, a porta aberta, o peito aberto mantém-se dela segura distância. O sonho é o lugar onde se corrige. Ela quer ir embora de todos os medos. Ela não quer a cura, mas livrar-se deles. Busca o amor cheia de dentes para dilacerá-lo na sua casa. Ela não quer somente a cura, mas livrar-se dela. Dela mesma. Como se ela não fosse sua própria casa, seu próprio amor, sua única esperança e inevitável destino.

Diariamente.

No tempo...

A ansiedade é uma fuga cheia de medos. Uma invencionice para alcançar lugar nenhum. Uma incompetência para ajustar-se no corpo, na palavra, no tempo. A onipotência da fragilidade. A ansiedade é um medo cheio de fugas. Uma invencionice para se estar em lugar nenhum. Uma incompetência para transbordar-se do corpo, na palavra, no próprio tempo. A onipresença da vulnerabilidade. Uma estupidez em que recusamos diariamente os méritos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Apesar de...

Apesar das ausências, das más notícias, das saudades, das neuroses, dos erros e dos boicotes, da falta de açúcar ou de sorte, dos excessos de sal, dos medos, das prisões, das palavras, da intolerância ao glúten, à lactose, ao próximo, da insatisfação com o trabalho, com a política, com o amor, com o espelho e com o outro lado dele, vivemos e temos que viver.

Apesar de.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Morrer...

Talvez morrer não seja a questão. A questão talvez seja como terminar, como partir, como deixar de ser se a vida inteira não fomos. Como sair se na vida por inteiro nunca estivemos. Como partir se não soubemos aqui permanecer. Nossa identidade é frágil percepção do que aproveitamos das memórias que carregamos: conjunto de peças e retalhos que se recombinam e se aproveitam conforme conveniências e caminhos. Sabemos de nós naquilo que não esquecemos e por aquilo que preferimos recordar. A questão sobre a morte é o enfrentamento da própria vida, esta, que nunca nos pertenceu o bastante. Talvez morrer seja o ponto aparentemente distante que angustia-nos por não sabermos quem somos. Porque a morte é o descanso para a alma que no corpo habitou. Mas e nós que ainda procuramos pela nossa?

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mansidões...

Amor, escrevo carta para lhe avisar que estou perdendo minhas habituais razões. A lucidez se percebe como chama quase dormida de vela em quarto imenso de mim. Ando perdendo certezas como um corpo perde os pés nas fundas águas. Doutor me disse que ando sofrendo de inexatidão e mansidões por causa de amor incompleto. A metade que me preenche, tomba-me para o lado dos severos sintomas da paixão. Explico. Pelas demoras interiores, sabemos nossos graus de febre e encantamento. Tenho piscado os olhos bem mais lentamente e respirado com bem mais atenção, para não perder detalhes da vida antes despercebidos, para não assustar com ligeiros movimentos qualquer singeleza pousada a minha volta, para saborear diminutas e instantâneas doçuras. Em mim pressa se amansou sem mesmo pedir: nítido sintoma de contentamento. Pois felicidade se sabe pela devagareza de nós. E pela demasia de amor que sofro, sinto movimentos como provocação. Saudade que sinto também agravou o quadro. Assim, ando a dissolver-me anestesiada e quieta. Tão quieta a invejar estátuas. Amor, é urgente que te encontre a salvar esta parte desenganada do tempo e da distância que mora em mim. Por isso lhe escrevo carta, para não me perder de vez. Pois se tardares mais, talvez eu seja qualquer outra que não eu. Enlouquecida, perderei a mim ganhando asas, diluída no firmamento. Depois do amor, seja o céu ou teu lençol, é nele em que me abrigo. Apenas e quando você passou a existir em mim, aprendi a desejar. Desejo então e agora que me salve do equilíbrio morno e da sobriedade cinza dos que não amam ou desamaram. Seu toque criou mundos e amores dentro de mim. Tua presença é o meu momento exato a me fazer colorida.

(Texto do meu livro "A Ilha de um homem só", publicado pela Ed. Penalux)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Afastamento...

Preenchia-se de vazios e era a falta que lhe oprimia o peito. Uma ausência que o acompanhava agravando-se durante as noites. Vivia para esquecer-se; corria para evitar-se. O elevador vazio, o escritório cheio, a academia, o engarrafamento, as ansiedades, o almoço, o jantar, o medo e o olhar distante eram expedientes para jamais encontrar-se consigo. O que diria a si caso pudesse? Qual verdade esfregaria na própria cara? Qual tristeza escolheria para poder chorar? Afastava o amor quando o amor o escolhia. E talvez fosse este seu grande mal. Apenas não maior do que não perceber que era exatamente disto que sofria.