segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Feliz-para-todo-sempre...

Creio existir nesta terra almas com facilidades para o desenlace dos nós que nós e outros tantos criamos. Gente sem muitas alergias. Gente com afinidades para aquilo que enxergamos como sorte. Assim como outras doem-se mais facilmente pelas intensidades com que vivem, sentindo com maior gravidade o peso das suas aflições, sujeitas às tempestades na maior parte do tempo. Estas, de propensão aos cinzas e não por coincidência, parecem levar com alguma exatidão seus pés aos espinhos. Cabe lembrarmos que quando tristeza em nós por demais visita, felicidade não bate à porta. Esquecido isso e convencidos ficamos pela sua lábia a não mais acreditarmos que somos destinados às alturas tantas e caminhos muitos que nos esperam os destinos. 

Afinal, ninguém deixa visita sozinha em casa.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Urgências e demoras...

[...] enquanto o tempo com suas demoras faz girar o mundo e acontecer a vida, com a tua inesperada travessia em mim, passei a sofrer de urgências. Depois de ti, não acompanho ritmos nem respeito prazos, os dias se dissolveram em noites e as noites em esperas. Antes de entardecer e já amanheço sem descansos. Antes de prometer e já me cumpro, apenas para adiantar-me de algum jeito. Sobra-nos tudo, falta-nos as horas. Sobra-nos desejo, falta-me a lucidez. Ando a dormir sendo metades em que parte busca-te por entre os sonhos, e a outra mantém-se alerta a esperar tua volta. Lanço-me ao passado para cumprir minhas lembranças, revivendo abraço que não foi dado e a palavra que não foi dita. Busco-te uma vez mais para corrigir minhas tristezas e apagar ausências que sabem meu nome, mas desconhecem o teu quando por perto. És a confissão do meu mais íntimo pensamento. Por isto, sofro,  porque o teu amor se fez espelho e, sabendo de ti meu amor, saberei de mim também.

(Guilherme Antunes & Jhully Inácio)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Dos mistérios...

As infâncias nos ensinam encantamentos. Aí, quando adultos, o tempo vira relógio.

Deus, hoje, desalojado das preces despediu-se para fazer morada no amanhã:
lugar este onde estamos sempre a chegar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Vassalo...

Acreditava minha avó ser o peito compartimento infinito para acomodar céus e infernos. A sua recomendação era de que se alimentasse o amor para moderarmos sua fúria sobre nós. Que se impossível os afetos, déssemos somente água, saudades ou alguma ilusão para que se distraísse de si e do seu próprio tamanho. Caso contrário, dizia, tornar-se-ia criança medrosa num poço escuro. Como se já não o fosse por aceitar menos do que si mesmo. Acreditava minha avó ser o peito lugar inevitável sujeito sempre aos próprios desequilíbrios e desmandos da cabeça: a raiva seria como charco de tinta negra a sujar os interiores céus; a mágoa como se uma nuvem morresse de voar, repetidamente. A felicidade seria a temporária ciranda das nossas verdades. Acreditava minha avó ser o peito hospedaria para sentimentos confusos que haviam sempre de ir no dia próximo. Apenas ao amor era concedido a solidão necessária para caber-lhe a própria companhia. Apenas ao amor, no peito, era concedido permanências. Aos sábios, como dono. Aos demais, como vassalo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Sempre...

O amor toma-me sempre nos braços.
(imagem: @carolguimaraesfoto)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Impede-nos

A própria clausura do fracasso impede-nos de percebê-lo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

9 horas...

São 9 horas. Como combinado. A esta altura, estarei sorrindo para ti. São 9 horas e somos felizes. São 9 horas e não há tempo. São 9 horas e carregamos todos os sonhos do mundo. A esta altura, estarás sorrindo para mim. Caso-me contigo para antes e depois dos ponteiros, pois não há dia ou hora melhor para casar contigo senão o dia ou a hora em que te amo. São 9 horas. Como combinamos. À nossa volta, os pais, irmãos, a vida, os anjos, os frutos, Deus, os padrinhos, o amor.

A esta altura, todos sorrindo para nós.
E em cada um de nós, para sempre.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Criminoso...

indiciado por rebeldia
contra as tristezas,
exigia o coração
responder em
liberdade:

premeditava um poema.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Embora...

Pois deveríamos estancar nossas feridas com amor próprio. Remendar-nos. Encontrar-nos com a nossa saudade mais recente. Permitir-nos aquele frescor desta nova insegurança que nos deixa seguros do que sentimos, para encararmos quais as emoções já estão maduras para irem embora de casa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Adormecida...

Tornou-se feia pelo amor que amaldiçoou. Tornou-se feia pelo amor que impróprio dele bebeu. Tornou-se feia pela parte da vida que não viveu e pela parte sua que enganou. Tornou-se feia pelos amargos que não despediu e pelo perdão que jamais estendeu. Tornou-se feia pelas raivas que engoliu e pelo medo que a carregou para lugar nenhum. Tornou-se feia pelas maledicências. Tornou-se feia pelas tristezas que de maneira inexata se acostumou. Tornou-se feia pelo sonho que não a despertou. Tornou-se feia porque aceitou tornar-se feia. Tornou-se feia porque nunca se reconheceu.

Definitivamente era bela. Adormecida.