quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sobressaltos...

Dizia aquilo para me enganar, mas gostava muito que ele fizesse o esforço para me enganar. A dar-me colo e dizer-me flores, como se levasse carícias para o interior todo do corpo. Anunciava pequenas esperanças, muitas delas, para que poucas viesse eu a lembrar e a cobrá-lo por elas. Apontava-me pássaros como contrário aos medos, a migrarem para longe de mim qualquer um deles. E eu, com tanta impressão de enganar-me aqui sobre tudo, gostava muito que ele fizesse o esforço para me enganar. A dar-me o mundo em pequenas gotas, para que não me engasgasse com ele. Havendo tantas histórias e ruas e pessoas dava-me ele de beber o suficiente para que não me afogasse, ensinando-me a navegar aos poucos em mim mesma sem sobressaltos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Piada...

Apegam-se à coisas demais para sofrer os que insistem em exigir que a vida garanta qualquer verdade sobre nós, sem que percebam isto os insistentes. Quem poderá negar? Asseguramos certezas como imutáveis para mantermos alguma coerência, aparentamos alguma solidez sem nos flagrarmos nas inevitáveis contradições que carregamos. Somos rigorosamente lógicos porque a lógica nos falta. Dizemos o que as coisas são para escutarmos o que as coisas são e assim nos convencermos. E não ouse a vida nos desmentir nem o outro nos desdizer: somos frágeis para contrariedades. Por isto nos agarramos às convicções de que sabemos porque assim pensamos, para não nos perdermos na inexatidão de todas as coisas. Apegamo-nos à bloco de admiráveis e confortáveis verdades perdendo a própria generosidade por querermos controlar a vida. O amor - próprio e alheio - passará por um rígido controle de qualidade. Seremos inflexíveis com o inesperado. Não daremos o braço a torcer ao que nos revele, não abriremos exceções ao que nos desminta. Enquadraremos o amor e o restante em nossa particular área de segurança: não levaremos o peito para conhecer o outro ou a si mesmo; não riremos de nós com facilidade nem nos perdoaremos porque erramos. Pouparemos felicidade para evitarmos as dores. Anestesiaremos as dores com outras. E não sendo possível iluminarmos o total território dos amanhãs, exigiremos promessas, garantias, precauções, construindo personagem que ao público finge saber relacionar-se e lidar com seus azares. Distrairemos os sentimentos com a ansiedade de quem exige o controle dos próprios sentimentos, e tudo porque não sabemos sentir, doer, viver, partir. Como quem não quer mais perder porque não sabe o que tem a ganhar, nos levaremos a sério demais.

O bom humor se vier a não perdoar, nos tornará piada. De mau gosto.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que não lembramos...

O amor jurava lembrar-se. Mas não naquele momento. Quem sabe para amanhã haveria de ter mais sortes. Ela gostava da ideia de ajudá-lo quando soubesse ao certo o que fazer. O mundo era um lugar de gente enganada, menos o amor. O amor apenas não lembrava. Por ora e por hábito, substituíamos deus pela oração e a felicidade por ideias poéticas a colocarmos versos no lugar de cada coisa. Para lermos depois, enquanto o amor não se lembra. Para reescrevermos depois, muitas vezes, enquanto não lembramos do amor. Talvez o poema seja como termos encontrado uma coisa perdida há muito. Que não lembrávamos.

domingo, 1 de maio de 2016

Por um dia...

Às vezes por um dia em que não somos; por um dia em que deixamos de ser; por este um dia em que nos pegamos desprevenidos sendo aquilo que não gostaríamos, não significa dizer então que estamos condenados a ser o que neste dia fomos, nem afirmar que em razão deste dia não possuímos aquilo que já possuímos.

Ou seja, por um dia em que faltemos com amor não significa dizer que não amamos. Por um dia em que faltemos com a bondade não significa falar que somos maldosos.

Carregamos tanto a escuridão da nossa ignorância quanto a luz do nosso aprendizado; trazemos conosco tanto os invernos quanto as primaveras a revezarem-se conforme o palco que atuamos. Isto serve para mostrar-nos o quanto nos falta e o quanto já conquistamos. Isto serve para mostrar-nos que somos muito mais do que pensamos e que somos menos do que acreditamos ser.

Afinal, acreditar não é necessariamente saber.

As verdades, tão contraditórias quanto possíveis, servem-nos tanto para dar voz às virtudes quanto para calar as vaidades. As verdades, tão opostas quanto reais, podem coexistir em nós como capítulos que nos ensinam o que há ainda para ser trabalhado, para ser descartado e para ser construído.

Tenhamos a compaixão com nossas alternâncias, que avisam-nos que não somos absolutamente bons nem completamente maus, e sim que estamos na travessia para nos reconhecermos, e a partir disso, atuarmos na versão mais nobre de nós mesmos.

sábado, 30 de abril de 2016

O lado silente do poema...

O mundo se cala quando choro. Ficam apenas os ventos à superfície a empurrar pequenas coisas vulgares. Enquanto choro estabeleço o lugar exato de mim e coerência ao tempo para que se aquiete; que se descanse enquanto sou. Possuem-me as lágrimas e eu nada mais possuo, e isto me agrada. A vida se revela em mim quando choro. Chorar exige-me todo para um só lugar em que choro, deixando-me para o lado mais vazio das coisas. A lágrima dá-me substância e intensidade de quem sepulta pressas e barulhos. Para além delas, não sou verdade. Significo-me com o meu corpo inteiro: limpo ou sujo, todo eu no aqui me pertenço. Difícil dizer coisas que não se sabem ser ditas; tão silenciosas como a breve lucidez que entrega-nos desprevenidos ao que sentimos. A renúncia de que nada mais seja além do ato mesmo de chorar, prestando atenção ao dentro, subtraído todos os cenários. Choro e não penso; absorvo-o e permito-me sentir a realidade que não frequento entre os dias comuns. Sem pensar e sem mais o que em mim perseguir, sinto-me livre para os limites da minha possibilidade. A fugaz libertação dos papéis, diálogos, compromissos, personagens e o medo de que inevitavelmente voltarei a me recompor e continuar consumindo minha vida pelas metades sem chegar antes a nada.

A lágrima é o lado absolutamente silente do poema.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

 Teoria Geral do Desassossego
(um ensaio dos afetos)

Um convite à maneira mais agradável de ignorar a vida e ao mesmo tempo afirmá-la; uma leitura em que falo aos teus olhos as coisas todas cheias de significado ao mesmo tempo que lhe digo de nossa insignificância. E explico que isto não é em nada ruim, visto que pelo vão das fragilidades acontecem-nos os milagres. E junto às questões e motivos que bem explico de nossa reincidência aos abismos, aos contrários e às promessas; trago receituário de amanhecimentos, notas e instruções para asas e os desapegos. Por facilitarmos sempre o fim daquilo que amamos, explico-lhes o que sei do amor pelo que o amor não é. Ou não deveria ser. A todos nós com sentimentos tediosos de domingo ou segunda, trago-lhes a notícia sobre o outro lado de nós pouco usado e que sabe ser outra coisa que não apenas cansaço e mais do mesmo. Venho celebrar as ilusões e chamar-te a festejarmos por reconhecê-las e podermos por isso descartá-las. Este livro tem tanto o peso das tuas tristezas como o das tuas esperanças. Dependerá de qual página teu peito decida aportar. Mas eis minha provocação: que tu não aportes, que tu saias por aí a atravessar tuas próprias marés e gradue-se num degrau acima daquele que por tanto tempo parado estiveste.

A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail: 
guglicardoso@gmail.com
ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Palanque...

A questão é que por não nos aceitarmos, queremos antecipar o que buscamos, ficando por esta exata razão para trás de nós mesmos. Há uma parte do que somos forçando a barra para se ser o que ainda não se é, adiantando conclusões e criando certezas em cativeiro a permitirmos dar-nos algum roteiro para ser trilhado; jeito de nos sentirmos um pouco menos desorientados com o que somos.

O resultado será a tensão pela corda bamba que atravessaremos entre o passado que não fomos e o futuro em que "devemos ser". A cobrança tornar-se-á culpa pelo que não conseguimos alcançar. Por não nos enquadrarmos nas possibilidades que não escolhemos, inventamos de entender que por essa razão perdemos o alvo.

Mas será que não é exatamente pelo caminho já percorrido, mesmo aos trancos e barrancos, que então podemos fazer sentido para nós próprios? Visto que é a soma das machadadas nas nossas crenças e que não nos demos conta que farão a diferença, ainda que aguardemos que a próxima e última machadada seja a responsável pela libertação daquilo que decidimos nos prender.

Enquanto não nos aceitarmos agora e deixarmos de acreditar que tudo em nós deverá passar por um rígido controle de qualidade, nada estará bom, nada será o suficiente, algo ainda e sempre faltará, e qualquer coisa será palanque para que os nossos medos e fraquezas tanto falem a convencer-nos a continuar nos boicotando.

Essencial...

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

(Bernardo Soares)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Hoje...

Hoje, peço à vida ser abençoado e necessário abandono, para que o que restar de mim daqui pra frente seja a minha redenção, para que os amanhãs me acolham e me recebam outro, inteiro. Para que a próxima página esteja em branco e o coração, preenchido. Para que entre os meus erros, esteja também o meu próprio perdão. Entre os meus apertos, um horizonte em que lá eu honre os meus possíveis. Por isso escrevo, como prece, para acender luz, como pedido de absolvição da minha própria consciência; como pedido de renúncia dos medos que não me traduzem. Agora é o momento de reaver as asas. Por isso escrevo, como se aqui eu pudesse me confessar e me lembrar do que posso ser quando me sinto livre e amo; e do que posso ser ao me libertar naquilo que escrevo.

Hoje, eu me celebro.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Charme...

Diante do espelho, olhei-me, como que para ter uma conversa para a minha particular educação. Não me atrevia a perguntar nada. O coração que através dos olhos me falava. Sentia-se ele desajustado de mim, acreditando-me tanto adiado quanto atrasado para alguns saberes. Disse-me: repetes as flores e reclamas da primavera. Queres saber-se fruto sem amadurecer. Queres conhecer dos gostos ignorando sempre o amargo. A sedução não te pertence, visto que é arte do vento a mover com graça os panos que te envolvem. Isto posto, não enganes ninguém com tuas curvas ou palavras, para que fujas tu dos teus sentimentos burros. O charme do teu corpo deverá ser equivalente a elegância dos atos que te vestem; tua personalidade deverá ser leve, não importe o peso do corpo. Não disfarce mais as imperfeições da pele, melhor corrigir as da alma. A beleza real será este equilíbrio dos lados de fora e de dentro, soma fatal que faz com que sejamos quem verdadeiramente somos.