sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Adormecida...

Tornou-se feia pelo amor que amaldiçoou. Tornou-se feia pelo amor que impróprio dele bebeu. Tornou-se feia pela parte da vida que não viveu e pela parte sua que enganou. Tornou-se feia pelos amargos que não despediu e pelo perdão que jamais estendeu. Tornou-se feia pelas raivas que engoliu e pelo medo que a carregou para lugar nenhum. Tornou-se feia pelas maledicências. Tornou-se feia pelas tristezas que de maneira inexata se acostumou. Tornou-se feia pelo sonho que não a despertou. Tornou-se feia porque aceitou tornar-se feia. Tornou-se feia porque nunca se reconheceu.

Definitivamente era bela. Adormecida.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Reflexo...

Seguro minhas palavras como os cacos de um vitral, como se sua leitura pudesse recompor os caminhos pela claridade de uma ordem silenciosa dada apenas pelas entrelinhas.

A palavra é o reflexo incompleto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Meu conto Zen...

Partiu o jovem discípulo em direção à floresta sem entender as palavras do seu mestre, que disse haver por lá duas ideias e uma só verdade. Caminhou por dias até achar uma poça de água imunda que sua indecisão refletia, pois não sabia se daquela água devia beber para matar a sede ou seguir adiante buscando abrigo. Começou a recitar seus sutras pensando que algum deus pudesse lhe dar uma intuição, uma graça, uma resposta, mas nada aconteceu. Ele era a única maré entre os silêncios. E ao perceber que a sua reza era fruto do seu desespero, lembrou do mestre dizendo ser a reza a voz da gratidão. Assim, sinceramente agradeceu por ter encontrado aquilo que precisava e, ao levar suas mãos à água, sentiu entre os dedos uma chave no fundo repousada. Ao nascer do sol, seguiu caminhada até encontrar velho casebre de porta sem fechadura. O jovem sentiu-se muito estúpido por deixar frustração o envenenar. Quando voltou ao templo com a chave e a história da porta, o mestre riu daquilo tudo e com amor lhe disse: Sente-se você estúpido porque nadou contra a corrente da vida o tempo inteiro. A estupidez se encontra em você, mas a genuína inteligência ainda não. A inteligência está na realidade que de você se utiliza para revelar-se. Você não se permitiu vê-la, tampouco escutá-la. Pensa você ser o único responsável pelas suas ideias e criações? Não amado, a vida se faz em você, para aquilo que ela mesma busca alcançar: criações e ideias ainda mais sublimes. Seus passos não são nada, pois são parte do infinito. Após sua morte, a sua vida como o reflexo da eternidade transformará você naquilo que você é: a própria vida. És imortal, meu filho. Por isto, com o quê lutas? A liberdade e a beleza se encontram na própria porta e na chave em si que carregam o saber nelas mesmas. O encontro de uma com a outra apenas declara aquilo que são. E você ainda não é, mesmo que já seja, sem saber. Eis a verdade da floresta que eu queria transmitir.

"Uma vez escrito, o discurso sai a vagar por toda parte, não é entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve". (Platão)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Controle de qualidade...

Queremos que o outro nos ame como não nos amamos. Aguardamos que o amor venha a salvar-nos da decadência de não sabermos amar cada vez que amamos, confiando que o amor do outro venha cuidar daquilo que não cuidamos em nós. O amor próprio é o início, jamais a chegada. Como esperar que o outro nos ame se não nos amamos?

O outro só nos completa quando complementa.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mais e menos...

Que possamos ser mais, sendo menos; pois são os detalhes que compõem as grandezas de nós. Que tenhamos muito, mesmo com pouco; pois será para alma sempre o suficiente. Que as boas lembranças sejam referências de quem realmente somos, neste espaço entre o agora e os amanhãs, e que estejamos sempre atentos ao fato de que a felicidade mora aqui ao lado, e que desocupada nos espera visita, ainda que não batamos na sua porta, pelas distrações da nossa casa.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Talvez...

Talvez não fosse o momento, a semana, o humor. Talvez não fosse a discussão ou o cansaço. Talvez não fosse ela. Talvez não fosse ele. Talvez não fosse amor. Mas, continuavam sem saber se ele ou ela, se isto ou aquilo, porque saber exigiria doer. Mais do que já doíam como se não vivessem. Como se não amassem. Como se não fugissem.

Talvez.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Anúncio...

Os olhos despedem a atenção para tragédias já tão acostumados por cansaços e absurdos. Dão-nos para escolher muitos vilões e poucos enredos. Dão-nos papel nenhum, senão o de trouxa. E o que nos dariam de especial senão o cheque?

O canto amargo dos pássaros ainda anunciará as primaveras.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Inexistências...


Sou melhor quando não estou. Sou um charmoso espelho sem reflexos, uma divertida festa sem convidados. Pois as inexistências me completam e os acasos me apontam a direção. Sou um bom livro esquecido; uma coleção de memórias a não significar um inteiro, um recorte de ausências, uma história sem identidades. Vai ver o meu passado seja uma gaveta sem utilidade, empoeirada, e mais uma coleção de papéis, erros e decepções que não revelam nada sobre o amanhã. Sou um porém e uma breve esperança, e que não me leva a lugar nenhum. Porque o que me move nesta vida é a angústia de não saber o que fazer parado. A minha busca é também o meu incômodo por não se contentar; pois o que me empurra não é o que me falta, mas sim o que me sobra.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Lembrança...

(...) e quando sem esperar, olhou menina o seu rosto refletido no espelho, levou o coração à boca que então vestiu sorriso. Lembrou-se de respirar macio no seu despertar; lembrou-se de despedir do sol ao entardecer; lembrou-se de elogiar cada uma das suas novas escolhas. Lembrou de não mais sentir saudades de ser feliz. Saiu de casa de vestido colorido e fita verde no cabelo. Ela era o seu próprio presente. E de nada mais precisava para ser o seu futuro também.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Credores...

À vida resmungamos pequenas palavras sem muita delicadeza: dignos do tamanho que acreditamos ser bastante. Calar-se seria saber-nos credores de pouca abundância. Uma culpa por não semearmos melhor o próprio existir.