quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Escuta-me...

Ela nunca me escutara. Ela nunca realmente me escutara. Quantas não foram as vezes a dizer-lhe para que não fosse intensa demais, doída demais, derramando-se demais por cada copo cheio, cisco no olho, topada, espinho no pé? Que não fizesse de riacho inundações, pois inundava a ela e a mim. Eu então me afogava e morria. Pedia-lhe que da interminável guerra contra o mundo a lhe oprimir o peito, escolhesse melhor suas batalhas. Ela nunca me escutara. Lutava todas, sofria todas, doía todas. Eu me cortava todo, e inteiro morria. Ignorava-me solenemente como se só falasse coisas erradas, enquanto ela calada vivia cruzada interminável contra a tristeza e as misérias. Não percebia ela que a tristeza nela morava, mas que na mesma morada eu também residia. Dizia-lhe que não se deixasse levar, pois era eu que cada vez mais partia. Dizia-lhe que atravessasse esperançosa os capítulos densos, mas era eu quem me arrastava e nas páginas todas me perdia. Dizia-lhe que só a morte não passa, apenas a morte. Pedia a ela que me ouvisse. Deu 'não' aos meus avisos de não pisar no jardim do amor que cultivávamos, estragando todo o amor que ali crescia. Ela nunca realmente me escutara. Dizia-lhe que se se alegrasse, seriam os dias mais longos e as dores mais curtas, e o amor alcançaria-a descansado, fazendo-me descansar também sem medos ou melindres. Ela nunca me escutara. O excesso de vida doeu-lhe a vida mesma, faltando-me a mim nela continuar vivendo também. Hoje, peço a ela que me escute. Apenas para que o tempo nela pouse. Apenas para que o atravesse. Apenas para que sobreviva. E quem sabe ame, ainda que mais uma vez.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Prontidão...

Cumpre ao amante depositar seus inteiros nos braços da amada, confiando possibilidades aos hábeis tecelões em que nomeamos destino. Cabem aos que amam despedir medos de semente em não se saber um dia raiz. Solicita o amor as interiores habilidades de despertencimento e desapegos. Pede o bem-querer a prontidão de luz que em nós se distraiu; porque somos os inevitáveis servos dos encantamentos que traz a vida, quando nos atravessa com nomes e os cheiros do outro. Curvando espírito em gratidão, bebemos todos das bençãos no rio do tempo. Devedores dos frutos que colhemos, o amor é o real credor dos nossos perfumes.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Teatros...

Sem saber qual o caminho, como acertar os passos? Sem saber qual o enredo, como ensaiar as alegrias? Depois de você, vivo cansado e de improviso, num lugar onde qualquer cômodo é porão, no tempo em que qualquer noite é inverno. Lembrança é tortura, perfume é espinho e sorriso é pecado. O vento tudo leva mas nada traz, e basta pensar-te e vem-me as tempestades todas, o desespero, o afogamento a me consumir nas marés que arrastam-me para longe da terra firme, dos nossos planos, de algum descanso, de mim mesmo. Não trabalho mais com as esperanças. Abundam mais desilusões em minha vida do que nos teatros. Há mais tristeza no peito do que nos cemitérios. O mundo agora anda sereno, pois resulta que todas as coisas em mim estão mortas. Se ao menos eu pudesse dormir sem sonhar, viver sem sonhar, respirar sem medo. Atravesso minha existência sem sua comoção, despedindo-me do sentido que dei aos meus passados e inícios. Queria era apenas buscar um final feliz, ainda que eu tente acreditar que não possa haver nenhum final. Exatamente para que não seja tarde demais.

domingo, 14 de setembro de 2014

À mulher que ainda não amei...

Hoje decidi escrever à mulher que amo, mas ainda não a conheço. À mulher que ainda não sei que amo, mas que hoje virei a amar. Escrevo-lhe a confessar antes de que eu a encontre, antes que nos encontremos, que eu nunca te aguardei. Isto porque nunca acreditei no teu existir. Fui feito e moldado a partir das tuas ausências, atravessei o tempo e me virei na vida desacreditado do teu nome. A única procura permanente de ti era achar-te em qualquer coisa que fui, pois para mim era lógico: como encontrar-te se não sei quem tu és? Como reconhecer quem nunca me foi apresentado? Por isso, sobrou-me todo o tempo para perder-me. Às vésperas das juras vazias de amor que espalhei, senti paixões e estas com o amor confundi. Quando não os expedientes do desejo, eram os requintes da carência. O tempo envenenou-me apenas de descrédito e lascívia. Enganado, muito enganei; vazio, muito roubei. Falava de liberdade para capturar corações. Fingia incentivar primaveras quando queria provar dos frutos. Colecionei troféus, mágoas e desfechos truncados. Assim, como poderia acreditar em ti pois, não serias tu a acreditar em mim e nas minhas ladainhas. Não se profana o sagrado e, por sentir-me amante dos pecados, jamais poderia eu te aguardar. De toda aridez a desdizer qualquer sentido, sobrou-me o oásis da poesia, lugar em que descanso velhas e ranzinzas certezas, entre elas de que nunca saberia do amor. E num desaviso da razão aprendi a ver o óbvio: tanto disse que nunca te saberia, descobri que nunca não é hoje. Nunca é mesmo nunca e, por isso, na brecha do contrato firmado entre a coerência e o tempo, sinto hoje que virás. Deito palavra no papel a pedir ao céu para regar teus pés a te confundir com as flores. Quero vir colher-te no poente deste dia enquanto atravesso o caminho torto dos agoras para o teu amor amanhã me endireitar. Despertarei mais cedo apenas para o meu amor beijar-te antes do vento. Dormirei mais tarde para namorar teus sonhos. Venha, venha logo. E quando chegares, entra, para que tua alma se ponha no meu corpo e possa eu realmente viver. Quando chegares, entra. Sinta-se em casa dentro de mim.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Cama...

descansa teu mundo entre os lençóis.
minha mão nos teus cabelos dão-te início ao sono que te vigio 
e aos sonhos em que te aguardo.
nos teus silêncios de alma desnuda costuro intenções.
conto os desejos de atravessar calendários contigo,
sendo teu nome a prece a me guardar nas noites 
e dar-me sempre os dias.
para o lado de cá das cortinas, 
a vida me acontece no teu poema de olhos fechados, 
no intervalo deste nosso descanso, 
antes de recomeçarmos...

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Carta...

[...] Sim, é um outro momento, uma descontinuidade de mim, um premeditado mas gentil abandono de mim, que faço por não me servir mais aos propósitos e sonhos que guardo. Descobri que é urgente praticar verdades que sabemos bem decoradas; explicamo-las, ensinamo-las, mas não sabemos a textura, o cheiro, o gosto de cada uma delas. Somos versados nas teorias, jamais no viver.

Praticar verdades descartando verdades - as provisórias - que levaram-me à lugar nenhum. Colecionei-as até a asfixia. É tempo de nascer de novo e respirar macio.

Por isso venho comunicar das minhas ambições de meus inteiros. Serão ousados invisíveis que busco conquistar. Declarando-os e ganham o peso da realidade registrada no ar, passando a viver entre nós como coisas ditas. E no momento declarado, passamos a ser responsáveis por eles, como um novo filho que nos pede atenção e destino.

Parto de dentro de mim para alcançar-me. Do outro lado da margem neste rio do tempo há minhas riquezas, e para tê-las é preciso abrir mão de certos cenários que não cabem mais nos meus passos.

Ando a namorar comigo, ando a namorar aquilo que havia esquecido e por sorte e descuido do azar, lembrei. Não tenho mais tempo de relacionar-me com as tristezas que por tantas noites convidei a dormirem comigo entre os lençóis.

Ao deixar o passado, eu mesmo me dei o presente.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Suculento...

É num caminho torto e desconhecido que por vezes nos deparamos com árvores intrigantes de frutos novos e cores outras, que se curvam a oferecer-nos o gosto do saber e do sentir. É o mistério e o vir-a-ser que se enraízam em terra onde os pés ainda duvidam e resistem em prosseguir, forçando-nos a florescer. O caminho certo nem sempre é suculento.

domingo, 24 de agosto de 2014

Luto...

Morrem apenas aqueles que matamos dentro. Nem a morte com sua imponência pode matar aquele que vive em nós. Ela, na pior e única das hipóteses, leva-nos para longe de quem amamos, mas não mata nenhum dos envolvidos. Dói-nos exatamente por isso, porque não há realmente morte na morte, há apenas uma separação, uma permanente ausência. Não morremos, nenhum morre, apenas o luto em nós define a morte. Só podemos matar e morrer em caso de amor, isso quando o amor já moribundo, pede-nos clemência para o matarmos e a decência para morrer, para morrermos em paz, caso contrário igualmente em paz não viveremos, com aquilo que não respeita a hora de sua morte e mantém-se vivo com ajuda - artificialmente - de atalhos e remendos e mentiras e metades nossas. Por isso quem morre, continua a viver. Só quem matamos, morre. E quem amamos, vive também. O amor sempre trará a vida. Ainda que ela não nos sirva mais.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sabermos nós...

O poeta rouba dores do mundo a confessar as suas próprias; empresta-se de veladas tristezas para devolvê-las nítidas e intensas às palavras. Vende socorro sem salvação; mas se dói e se doa para levar aos olhos outros, desmedido alívio. Antevê amores e suspiros que precedem encontros; descreve tragédias e dúvidas que antecedem o existir. O poeta adoça o real ainda que testemunhe amargos. Coleciona horizontes a enfeitar rua-sem-saída onde mora. Veste-se com seu tamanho a dimensão das grandezas. Sincero às mentiras que conta e encanta, versa sobre os sonhos da semente, pecados angelicais, flores, naufrágios e céu azul. Ainda, porta-voz das sublimes verdades que nunca alcançou, faz dos seus silêncios a autêntica afirmação da vida. Escreve no concreto, o abstrato. Gradua-se no coração alheio e no seu próprio peito. Assim, usa-se o poeta das letras como desculpa para saber de si. Sabermos nós.

domingo, 3 de agosto de 2014

Desamar-me...

silencioso e frágil, ando
a perder-me por entre as folhas do outono
a sentir-me nas gotas inteiras de chuva
a cortar-me engasgado com as palavras
a cegar-me os olhos nas janelas
que me cansam o mundo,
desarmar-me pelos teus sorrisos
desamar-me por envergonhados erros
a sangrar-me nos poentes e despedidas
a sair de casa
e esquecer da primavera;
por morrer de amor.