sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um lugar...

"E então há um lugar para onde vão os sonhos que a gente desacredita, onde moram os anéis que perdemos, os brincos descasados, o pé de meia preferido, o batom engolido pela bolsa. Há um lugar, um sumidouro, para onde são tragados os sorrisos que não voltam, o cheiro do cabelo, um colarinho manchado, o perfume na manga do vestido, teu nome no bilhete, um gosto de vinho grudado na língua. Ficam lá, suspensos numa órbita improvável e inacessível, ao som de três ou quatro frases para sempre repetidas que a gente procura esquecer. E um dia esquece."

(Patrícia Antoniete)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Brasília...

Acreditamos que Brasília seja um outro país, um outro planeta, quiçá, uma ficção de banca de jornal. Que por lá habitam homens e mulheres distintos dos homens e mulheres de cá, distantes de nós pelo calor, pela corrupção, pela canalhice, além, é claro, pela conta corrente.

Acreditamos porque queremos acreditar. Porque precisamos acreditar. Para podermos apontar os dedos todos da nossa mão como se não fôssemos responsáveis. Como se fôssemos alguma vez sensatos. Como se pudéssemos dizer que são nossos vizinhos, e nunca nós, que os colocaram ali.

Vejam, senhores, condenamos Satanás para no ano seguinte elegermos Belzebu, tendo novamente Satanás como conchavo, vice ou adversário.

A danação é cíclica.

A política é o espelho do povo. E não há por lá outros senão o próprio povo: empresários, advogados, torneiros mecânicos, engenheiros, economistas, jornalistas, professores e toda a sorte de brasileiros que por uma, duas, três vezes vereadores, prefeitos, síndicos de prédio foram levados - por nós - a estarem onde estão.

Que na próxima a ressaca e o pesadelo não venham juntos. 
Já nos basta a caganeira.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os deuses nossos...

Sofre o homem que em marcha põe seus passos de um lado, desejos e sonhos seus na rota de outro, estraçalhando no meio o coração. Dizem as experimentadas idades que nos restará disso a esperança. A felicidade por sua vez, reino que se busca e menos se encontra, oásis que se visita e não se permanece, menos parece fazer sentido quando dela nos despedimos. Oras, razões e lógicas concedemos às tristezas, felicidade tratamos somente como digna conjunção de acasos, e que brevemente atravessamos. Dela nos despedimos por intransigência às suas mudanças. Partimos porque se diminui e não mais cabemos, sem aceitar seu novo tamanho que suficiente seria se, teimosos não insistíssemos por caprichos e abusos. Sem sabermos onde aportar e por lá caber, costumamos amar sozinhos. Abandonamos os santuários dos deuses nossos apenas porque não mais nos convém que sejam os deuses nossos. Essencial aprender que diante de tudo encontramos nossa paz pelo caminho das feridas.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

sábado, 14 de outubro de 2017

Filhos da puta...

Há filhos da puta, muitos. Há os que contigo dividem a mesma repartição, o mesmo bairro e o mesmo andar. Há filhos da puta que aparecem no telejornal; outros que nos cobram o orçamento, a rebimboca inexistente e a propina. Há filhos da puta que defendem o indefensável e os que são defendidos pela mesma razão. Há filhos da puta reeleitos e com grandes chances de reeleição. Há filhos da puta que puxam tapetes, escrevem poemas, cospem quando falam, inflacionam a cerveja, publicam trabalhos de conclusão de curso, frequentam bares, saraus, minimercados, que mudam de assunto e negam o óbvio, que envenenam as esperanças. Aliás, há filhos da puta de todas as raças, credos e condições sociais. 

Acredito que num futuro próximo saberemos deles pelo IBGE.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Lavar o silêncio...

Guardava palavras para usá-las quando muito; quando excesso; quando pela força das marés fosse levado a sentir demasiado. A palavra para proteger-se. Para criar distâncias. Para poder lidar com invisíveis. As palavras e as entrelinhas como a fuga de um deus improvisado. Colecionava palavras para usá-las como companhia. Como um dia ensolarado só porque dissera. Como o vôo de qualquer pássaro porque falara sobre esperanças. Como uma liberdade porque concedera o perdão. Guardava as palavras para maturá-las do lado de dentro. Para engrandecê-las quando as revelasse. Para engrandecer-se porque as disse. Para lavar o silêncio que se completou. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Bolo de cenoura...

Fervia a água para o chá. Deixou o chuveiro aberto para o vapor tomar o box. Três livros recém lidos em cima da mesa de jantar junto ao pão quente. Depois do banho, comeu o pão e tomou sua xícara. De fundo, jazz - sem televisão por hoje. Folheou um dos livros e trocou algumas mensagens pelo celular convidando os amigos para o jantar. Sugeriu os vinhos. Eles, o filme. Isto para amanhã. Despediu-se. E antes de ir para a cama, comeu o pedaço do bolo de cenoura da casa da sua mãe.

Acendeu o abajur e um incenso. Rezou por 5 minutos.
Tomou dois tarja preta. 
E dormiu.

sábado, 7 de outubro de 2017

Como deve ser...

40 dias depois e 10 kg a menos. 

Não, uma não tem que ver com a outra mas mencionei a última para chamar a atenção. Coisa que vivemos a fazer por aqui, aliás. Neste tempo quase sabático, não peregrinei pelo deserto nem vivi de pão e água. Não encontrei Jesus, apenas vendedores da Jequiti, atendentes da Vivo e testemunhas de Jeová. Não recebi convites senão para chás de bebês que não pude ir. A iluminação não veio. A mega-sena também não. Mas, como não virão pelos Correios ainda mantenho a fé. Não coloquei as leituras em dia, como gostaria. Não aprendi um novo ofício. Não fui ao Rock in Rio. Não ganhei um triplex no Guarujá. Não contraí outros vícios ou novas dívidas. Não virei coach. Não me tornei monge, tampouco executivo. Não lançarei livro. Apenas saí do modo precário e contínuo de sobrevivência. Dar-se uma folga para respirar o offline leva-nos a perceber quão anestesiados estamos pelo cotidiano. Pelas redes sociais e suas recompensas emocionais. Permanecer diariamente nesta caixa de ressonância que reforça e multiplica exatamente aquilo que criticamos e que gostamos, exila-nos da realidade por devorar nosso tempo e energia preciosos por conta de um fazer compulsivo; pela repetição de um mais do mesmo a distrair-nos das coisas que realmente importam. E convenhamos, aqui não é uma delas. Mas, por não viver de direitos autorais como alguns podem acreditar, cá estou a soprar o pó das palavras que ainda não disse. A dizer as coisas certas na hora errada. E vice versa.

Um detox existencial deste ar poluído e problematizado, repleto de selfies e cards motivacionais. Para continuar. Como deve ser.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A língua...

Um dia resolvi me vestir de poesia como a minha própria vida e então nasci palavra. Um dia resolvi caminhar nas flores que eu mesmo joguei e então me fiz perfume. Vivo num reino em que se guardam as cores da alma; onde o vento é o senhor das promessas, que levam sementes ao jardim das possibilidades. Aqui me alimento com um só grão de açúcar onde mora toda a doçura do mundo. Aqui me escondo da saudade, pois no reino não mora o vazio. Outro dia resolvi fugir da boca e do papel pra me sentir silêncio, e aprendi que muitas vezes as palavras são mera distração quando o amor não se sente. Sabendo o amor, é o silêncio quem declara. O coração quando confessa, nem sempre faz barulho. A poesia quando a alma versa, nem sempre rosto tem. O amor se encontra nos olhos que desnudam os espinhos do tempo e desembaraçam histórias; um romance inteiro num só abraço. Quando me esforcei inteiro pra te pertencer, é porque eu já não me pertencia mais. Antes do sol nascer nos sabíamos ciranda; antes do anoitecer, eu me sabia você. 

Contigo aprendi a navegar na deliciosa língua da poesia.

domingo, 24 de setembro de 2017

Riacho...

Chorava. O desamparo era um riacho. O desamparo pela solidão, pelo medo, pelas noites, pelo outro. Chorava. O abandono era um soluço. O abandono dos pais, do amor, o abandono de si. Chorava os capítulos, as histórias, erros e vidas inteiras. Chorava suas prisões, seus nós, ruas sem saída, suas despedidas, seu mofo, insistências e desistências. Chorava como se bastasse. Como se se traduzisse. Como se despedisse. Como se libertasse. O alívio era um riacho. A levá-lo para muito longe. A trazê-lo para mais perto.

Chorou.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sem conseguir sonhar...

Ela sabe que merecia mais, poderia mais e que teria se arriscasse, mas resolveu não sair de dentro. Prendeu-se a si mesma, desaprendendo a arte de despedir-se do que não serve mais, pois ela sabe que deveria ser mais feliz e alcançar alturas que seus velhos pesos hoje não permitem, mas diz ao mundo que para soltá-los não é tão fácil assim. Como pobre substituto de uma nova vida que lhe aguarda, perde-se em mundanas distrações, colecionando pequenas conquistas a não aliviar em nada. Adia com isso, a rota de colisão com sua inevitável tristeza. Sem ousar sair de casa ou do próprio medo, conta a si mesma que isso não será o seu destino e que logo se encontrará com a mudança. Convence a todos ainda não ser o momento, visto que precisa resolver questões de toda a ordem para poder livre se ver, devendo para isso reduzir agora os riscos, os danos e as dores. Não sabe que sua justificativa é também sua covardia, não percebendo que o que busca é inalcançável exatamente para não alcançá-lo, pois teria que encarar a sua própria responsabilidade. Anestesia-se assim, para aquilo que sabe ser seu, mas que até agora não foi. Acostumou-se com espinhos, cinzas, ausências e ilusões, enamorando-se do morno pelos hábitos. Afogou-se sem mar. Caiu sem nem haver os céus. Morreu sem precisar morrer. Morreu sem conseguir viver. Viveu sem conseguir sonhar.