domingo, 29 de maio de 2016

Inaugurar...

Ela queria desobedecer medos e frear ansiedades. Ela queria estrear-se num amor e nele, curar-se dos seus passados e metades. Ela queria uma vida que ainda não havia sentido.

Era a mesma vida que havia há muito encontrado. Apenas aguardava a hora certa para ser aquilo que apenas na hora certa poderia sentir.

Só não sabia que a hora certa toda hora por ela atravessava. Continuava a esperar o que não devia ser esperado.

Aguardava para sempre inaugurar o melhor de si.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Bonito...

O medo talvez nos seja, de alguma maneira, a primeira percepção sobre o amar, e a palavra à boca, a primeira expressão sobre o amor. O poema é um amor muito bonito; porque às palavras cabem entre outras coisas, as honestidades. O silêncio talvez nos seja o primeiro modo de sabermos, por serem os outros incapazes de discordar. Ao contrário, amor e medo são discordantes para cada uma das gentes, e equivalentes nisto: dão-nos nenhuma autoridade sobre o sentir. A única submissão de que não sofremos, talvez, seja a das palavras. Por isso falamos sobre amor como se soubéssemos. Como se donos um pouco de nós. Tudo quanto nos põe a viver tira-nos as certezas, essa segurança de que temos algum controle senão no que dizemos. Mas, nem no que dizemos temos controle, ou nem do que ouvimos. Apenas do silêncio, que confere-nos sabedorias pela inexatidão. Silêncio este que desaprendemos quando pouco depois de sermos sementes. O fruto é o poema. Um amor muito bonito. 

Um jeito de amor, e de aprendê-lo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

O que jogo no palco para que se apresente é a sua inconsciência, em contraste com a sua própria claridade. O que ponho em xeque é a sua lucidez, sua astúcia em sempre justificar, em sempre fugir, em criar desculpas, em adiar as coisas. O que levanto dúvida são das suas certezas. Provocarei tanto as suas memórias quanto as suas mentiras, para que percam a pose, para que desçam do salto e, irritadas, entreguem as verdades todas que mantém caladas ou fingidas. O que provocarei são os seus intensos que você muito bem segura sob o verniz da educação, para que gritem suas impaciências, as suas feridas, para que apontem onde você tanto sangra enquanto finge que vive sem nada disto. O que invocarei serão suas confissões sem você precisar nada dizer. O que invocarei serão nossas vaidades, que escondem o que somos ao manter-nos reféns do que gostaríamos de ser. Somos autênticos personagens que se procuram entre atos e cenas que não prevemos. Que as páginas adiante cobrem a transparência que nos falta para enxergarmos aquilo que exatamente não sabemos o quê, mas que ainda nos falta e que sentimos diariamente esta ausência. Que com este livro possamos rondar e farejar este espaço onde nos encontramos inteiros e mais reais do que nunca, mas não sabemos onde.

E apontarmos para lá nossos destinos.

A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail:
guglicardoso@gmail.com
ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

terça-feira, 24 de maio de 2016

Quem sabe...

Sou feito de contrastes 
e contratos
rimas ricas e pobres
versos poucos mas nobres

Sou feito de muros e espaços.
Sou feito de medos e memórias
mentiras e aumentadas vitórias
ilusões e sinceras histórias
que a ninguém convence.

Sou feito de outro
Sou feito de ouro
Sou feito de barro
Sou feliz só no meu bairro
(mas sou feliz também além dele)

Sou transbordante
e o ausente
o conteúdo
e o continente
o presente
e o faltante
o amado 
e o amante
o livro 
e a estante
o inteiro 
e o instante

Sou o moinho 
e a pedra
a queda 
e o ninho
o céu 
e a tela
que na aquarela
sou passarinho

Sou a viúva 
e a casada
a solteirona 
e a namorada
a traída 
e a honrada
sou a tarde 
e a madrugada
daquela que se sabe amada.

Sou assim afeito à poesia
quem sabe falando de asa
possa eu voar um dia?

Sou assim feito de letra
quem sabe juntando todas
tenha-se alguma que aproveita?

domingo, 22 de maio de 2016

O outro...

Talvez seja preciso irmos um pouco além do que acreditamos. Talvez seja preciso lidarmos com o que convenientemente vivemos a negar. Talvez seja preciso lembrarmos de que o outro é o nosso espelho e que aquilo do que nele vemos é exatamente o que não enxergamos em nós. Talvez seja essencial lembrarmos que o outro é também a nossa própria projeção. O que recusamos em nós, acusamos no próximo. O outro poderá despertar em nós a raiva, a impaciência, a insegurança, o ciúmes, a inveja, por conta do que mal resolvido trouxemos e que atualizamos nas nossas relações presentes. A auto estima será posta em xeque diariamente através de quem nos atravessa, e o outro é o convite e a provocação para a nossa própria e incômoda confissão ao refletir a nossa imagem. Através da relação com o outro me reconheço no que sou ou no que não carrego. Apenas com o tempo contínuo a projeção será diluída, sobrando-nos a verdade do outro a comunicar a nossa própria verdade, antes oculta pelas qualidades e ideias que somente elas insistíamos ver. Não há saída, pois, seremos ou desmascarados pela ilusão ou entregues pela realidade. Não há nada fora que nos incomode que não seja algo dentro a nos incomodar. Não há o que critiquemos que não seja algo que possamos criticar em nós. Não há nada do outro que não seja nosso, e vice-versa. Seremos sempre as convenientes vítimas de nós mesmos ao nos enganarmos em apontarmos para alguém culpas como desculpas para não assumirmos a responsabilidade pelo que tão difícil nos parece assumir.

Talvez seja essencial lembrarmos que o outro somos nós, e que nós somos o outro. E que não há diferença. Se assim nos parece, trata-se desta ilusão que insistimos manter. 
E sofrer por ela.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

E o óbvio...

Quantas coisas não dizemos que assim são apenas para nos convencermos de que são assim?

Vendemos certezas apenas para nós mesmos comprarmos. Falamos para nos escutarmos e nos sentirmos melhores com isso.

Somos capazes de acreditar em mentiras sabendo de alguma maneira que mentiras são, apenas porque nos dão qualquer ilusória garantia.

Queremos eliminar as dúvidas exatamente porque elas nos são inevitáveis.

A questão é que ao sufocarmos as dúvidas, ignoramos também as verdades.

E o óbvio costuma se calar quando se trata de nós.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Equívoco...

O mundo pensa felicidades; todas elas acusam o prazer e sofre o mundo por esta razão. As palavras usamos como resgate do que não se é tranquilo trazer às superfícies. As palavras falamos para atenuarmos intensos por as usarmos com toda a intensidade. Atiramos pedra para não nos atirarmos dela - isto fazemos. Prolongamos a palavra fertilizados por esta descoberta: ela faz por nós o que não fazemos por nós mesmos. Um pouco em cada oportunidade e vamos disto nos convencendo; convencendo-nos das palavras gloriosas. Cada som a viver por si, como alma perfeita a tocar a nossa própria como uma harpa feita de silêncios. A palavra a tocá-la e traduzi-la, escutando-a acerca das decisões para os próximos gestos; denunciando-nos mais resistente do que julgávamos, e mais frágil do que pensamos. A própria vida a admirar-se no espelho. A mentira a acreditar-se no espelho. A verdade a descobrir-se na palavra. Devoramos a música crua, o tempo sem ensaios, a dor sem preparos, o amor ainda falidos. O que não se revelar palavra, se tornará sintoma. Entendemos assim enquanto acreditamos carregar sentimentos incorretos. Morremos pelos venenos do equívoco.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sementinha...

Quem és tu, pequena sementinha para saber os contornos dos teus amanhãs? Como ousas definir o destino somente numa péssima previsão? Não sabes que da janela cinza apenas cinza enxergas? Que audácia é esta em dispensar a providência dos teus caminhos, prometendo a si, tristezas numa próxima estação? Quem és tu para prever os passos da vida se vives a tropeçar? Sabem as sombras profundas raízes mas cuida a luz, das sombras, e não o contrário. 

Contente-se e ocupe-se do agora. 
É a única coisa que verdadeiramente tens, 
e a única que verdadeiramente herdarás.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Coma profundo...

Queridos camafeus de nozes,

Uma narrativa constrói-se através da compreensão dos acontecimentos. Se esta compreensão é apreendida através dos conceitos de algo que busca através da relação destes mesmos conceitos explicar a realidade, o risco é encaixarmos o que as coisas são nas conclusões a que chegaremos, e assim, a realidade ficará de fora. 

Pode-se não perceber o quanto se é afetado por comprar discursos onde há coerência, mas não verdade. Onde há certezas, mas não verdade. Não à toa a lógica é uma ciência e a argumentação uma arte. Todas elas bem longe das opiniões de facebook. 

A realidade não será enxergada, ou melhor, será sim, pelo filtro permitido entre o sujeito e a própria realidade. Um filtro feito de ideias anteriores a moldar os olhos de quem vê.

A ideologia é isto, e pressupõe que as ideias e certezas que promove são anteriores à realidade que a explica, encaixando esta no inevitável limitado tamanho daquela.

A partir de então e de maneira sutil, a realidade passará pela legitimidade do que o sujeito entender como legítimo, dizendo o que a realidade é pelo que ela deve ser. Outras narrativas serão tidas como falsas, canalhas, burras, etc.

São poucos os que se permitem ir para o outro lado e entender como o outro é e vê. Na impossibilidade, nega-se. Na impossibilidade, acusa-se, odeia-se, destrói-se. Afinal, a verdade é minha e o erro, do outro. A leitura é minha e a miopia, do outro. A bondade é minha e a maldade, do outro. 

A simplificação das coisas elimina o raciocínio e por consequência a verdadeira reflexão. Compraremos certezas com rótulos de verdades que ditarão silenciosamente o que as coisas são por como devemos entender o que as coisas são. Sem qualquer possibilidade de fuga.

O sujeito acredita que pensa sozinho mas sozinho ele não pensa. Ele pensa que vê mas enxerga a sua própria projeção. E ele acredita que sabe, mas na maioria das vezes ele acredita. Acredita que sabe. Acredita que vê.

Suas conclusões são influenciadas pelas preferências, equívocos, pontos cegos, emoções, etc. Emprestam-lhe deduções e pré-conceitos, cenários e cores. Quão difícil é enxergarmos as falhas do nosso próprio pensamento?

Nós tateamos a realidade através da linguagem; e se esta for limitada você entenderá a partir dos cacoetes verbais e mentais que explicam uma coisa ignorando outra, distorcendo tudo adiante.

Uma coisa poderá ser outra coisa de acordo com a intenção e a articulação das palavras. Assim foram com os sofistas. Assim apareceu Sócrates para por ordem no barraco.

E assim voltamos para a cena política, onde uma palavra torna-se outra e esta outra torna-se conveniente para alguma narrativa. Assim nos encontramos, onde nos sabemos certo e o outro absolutamente errado.

Aqui, poucos pensam. Aqui, muitos pensam que pensam. 
Assim se aproveitam tanto destes quanto daqueles.

Assim, os idiotas úteis que jamais saberão idiotas úteis, servirão a propagar através da legimitidade concedida pelas suas cartilhas, a compreensão da realidade e o interesse de muitos.

Ontem, comemos o pão que o diabo amassou.
Hoje, o diabo que nos carregue.

A nossa inteligência está em coma profundo.

Lei da gravidade...

Eu, tão dependente de mim, quero tornar-me independente do que ando sendo, para saber-me frágil diante do que sou, exposto às verdades que nego para fingir-me ser enquanto me finjo forte. Eu, tão exageradamente atento ao que sou e repito ser, quero permitir-me, pôr-me disponível e aberto à vida para que ela entre a dizer-me aquilo que preciso ouvir, mas que nunca escutei pelos barulhos que sempre fiz. Eu, tão dependente de mim, que não me permito ir a lugar nenhum para além daquilo que conheço, quero recusar os convites dos medos e convocações diárias dos passados para que eu fique, e então partir do que tenho há tanto tempo sido junto às tristezas que acumulei. Sair do lugar que estou para habitar o lugar que sou; e dar-me sentido. Reinventar-me sem saber exatamente como, dar-me sentido sem encaixar-me exatamente onde; dar-me sentido não por estar pronto mas por procurá-lo. Não quero o sentido persistente e único a ilusoriamente entregar-me uma paz de mão beijada. Quero o sentido plural de mim a cada época em que sou: o sentido quando amo; o sentido quando perco; o sentido quando cuido; sem o desejo de algo pronto. A felicidade não me pede oferendas para me atender, aliás, ela não deixa de se oferecer para mim. Nós é que a perdemos pela sua sutileza; pelo seu sutil reflexo com os inteiros e com os agoras; enquanto a transferimos para alguma próxima estação, quando seremos alguma coisa que ainda não somos. Quanto gastamos para nos evitarmos? Quanto investimento para reinventarmos a verdade e o erro que não permitimos sem jamais o percebermos como a arte de revelarmos, não o certo, não a verdade, mas a nós próprios como verdadeiros, sem manipularmos a vida pelo que somos ou deixamos de ser.

Queremos ignorar a lei da gravidade por medo de não querer continuar caindo.