quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Apesar de...

Apesar das ausências, das más notícias, das saudades, das neuroses, dos erros e dos boicotes, da falta de açúcar ou de sorte, dos excessos de sal, dos medos, das prisões, das palavras, da intolerância ao glúten, à lactose, ao próximo, da insatisfação com o trabalho, com a política, com o amor, com o espelho e com o outro lado dele, vivemos e temos que viver.

Apesar de.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Morrer...

Talvez morrer não seja a questão. A questão talvez seja como terminar, como partir, como deixar de ser se a vida inteira não fomos. Como sair se na vida por inteiro nunca estivemos. Como partir se não soubemos aqui permanecer. Nossa identidade é frágil percepção do que aproveitamos das memórias que carregamos: conjunto de peças e retalhos que se recombinam e se aproveitam conforme conveniências e caminhos. Sabemos de nós naquilo que não esquecemos e por aquilo que preferimos recordar. A questão sobre a morte é o enfrentamento da própria vida, esta, que nunca nos pertenceu o bastante. Talvez morrer seja o ponto aparentemente distante que angustia-nos por não sabermos quem somos. Porque a morte é o descanso para a alma que no corpo habitou. Mas e nós que ainda procuramos pela nossa?

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mansidões...

Amor, escrevo carta para lhe avisar que estou perdendo minhas habituais razões. A lucidez se percebe como chama quase dormida de vela em quarto imenso de mim. Ando perdendo certezas como um corpo perde os pés nas fundas águas. Doutor me disse que ando sofrendo de inexatidão e mansidões por causa de amor incompleto. A metade que me preenche, tomba-me para o lado dos severos sintomas da paixão. Explico. Pelas demoras interiores, sabemos nossos graus de febre e encantamento. Tenho piscado os olhos bem mais lentamente e respirado com bem mais atenção, para não perder detalhes da vida antes despercebidos, para não assustar com ligeiros movimentos qualquer singeleza pousada a minha volta, para saborear diminutas e instantâneas doçuras. Em mim pressa se amansou sem mesmo pedir: nítido sintoma de contentamento. Pois felicidade se sabe pela devagareza de nós. E pela demasia de amor que sofro, sinto movimentos como provocação. Saudade que sinto também agravou o quadro. Assim, ando a dissolver-me anestesiada e quieta. Tão quieta a invejar estátuas. Amor, é urgente que te encontre a salvar esta parte desenganada do tempo e da distância que mora em mim. Por isso lhe escrevo carta, para não me perder de vez. Pois se tardares mais, talvez eu seja qualquer outra que não eu. Enlouquecida, perderei a mim ganhando asas, diluída no firmamento. Depois do amor, seja o céu ou teu lençol, é nele em que me abrigo. Apenas e quando você passou a existir em mim, aprendi a desejar. Desejo então e agora que me salve do equilíbrio morno e da sobriedade cinza dos que não amam ou desamaram. Seu toque criou mundos e amores dentro de mim. Tua presença é o meu momento exato a me fazer colorida.

(Texto do meu livro "A Ilha de um homem só", publicado pela Ed. Penalux)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Afastamento...

Preenchia-se de vazios e era a falta que lhe oprimia o peito. Uma ausência que o acompanhava agravando-se durante as noites. Vivia para esquecer-se; corria para evitar-se. O elevador vazio, o escritório cheio, a academia, o engarrafamento, as ansiedades, o almoço, o jantar, o medo e o olhar distante eram expedientes para jamais encontrar-se consigo. O que diria a si caso pudesse? Qual verdade esfregaria na própria cara? Qual tristeza escolheria para poder chorar? Afastava o amor quando o amor o escolhia. E talvez fosse este seu grande mal. Apenas não maior do que não perceber que era exatamente disto que sofria.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um lugar...

"E então há um lugar para onde vão os sonhos que a gente desacredita, onde moram os anéis que perdemos, os brincos descasados, o pé de meia preferido, o batom engolido pela bolsa. Há um lugar, um sumidouro, para onde são tragados os sorrisos que não voltam, o cheiro do cabelo, um colarinho manchado, o perfume na manga do vestido, teu nome no bilhete, um gosto de vinho grudado na língua. Ficam lá, suspensos numa órbita improvável e inacessível, ao som de três ou quatro frases para sempre repetidas que a gente procura esquecer. E um dia esquece."

(Patrícia Antoniete)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Brasília...

Acreditamos que Brasília seja um outro país, um outro planeta, quiçá, uma ficção de banca de jornal. Que por lá habitam homens e mulheres distintos dos homens e mulheres de cá, distantes de nós pelo calor, pela corrupção, pela canalhice, além, é claro, pela conta corrente.

Acreditamos porque queremos acreditar. Porque precisamos acreditar. Para podermos apontar os dedos todos da nossa mão como se não fôssemos responsáveis. Como se fôssemos alguma vez sensatos. Como se pudéssemos dizer que são nossos vizinhos, e nunca nós, que os colocaram ali.

Vejam, senhores, condenamos Satanás para no ano seguinte elegermos Belzebu, tendo novamente Satanás como conchavo, vice ou adversário.

A danação é cíclica.

A política é o espelho do povo. E não há por lá outros senão o próprio povo: empresários, advogados, torneiros mecânicos, engenheiros, economistas, jornalistas, professores e toda a sorte de brasileiros que por uma, duas, três vezes vereadores, prefeitos, síndicos de prédio foram levados - por nós - a estarem onde estão.

Que na próxima a ressaca e o pesadelo não venham juntos. 
Já nos basta a caganeira.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os deuses nossos...

Sofre o homem que em marcha põe seus passos de um lado, desejos e sonhos seus na rota de outro, estraçalhando no meio o coração. Dizem as experimentadas idades que nos restará disso a esperança. A felicidade por sua vez, reino que se busca e menos se encontra, oásis que se visita e não se permanece, menos parece fazer sentido quando dela nos despedimos. Oras, razões e lógicas concedemos às tristezas, felicidade tratamos somente como digna conjunção de acasos, e que brevemente atravessamos. Dela nos despedimos por intransigência às suas mudanças. Partimos porque se diminui e não mais cabemos, sem aceitar seu novo tamanho que suficiente seria se, teimosos não insistíssemos por caprichos e abusos. Sem sabermos onde aportar e por lá caber, costumamos amar sozinhos. Abandonamos os santuários dos deuses nossos apenas porque não mais nos convém que sejam os deuses nossos. Essencial aprender que diante de tudo encontramos nossa paz pelo caminho das feridas.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

sábado, 14 de outubro de 2017

Filhos da puta...

Há filhos da puta, muitos. Há os que contigo dividem a mesma repartição, o mesmo bairro e o mesmo andar. Há filhos da puta que aparecem no telejornal; outros que nos cobram o orçamento, a rebimboca inexistente e a propina. Há filhos da puta que defendem o indefensável e os que são defendidos pela mesma razão. Há filhos da puta reeleitos e com grandes chances de reeleição. Há filhos da puta que puxam tapetes, escrevem poemas, cospem quando falam, inflacionam a cerveja, publicam trabalhos de conclusão de curso, frequentam bares, saraus, minimercados, que mudam de assunto e negam o óbvio, que envenenam as esperanças. Aliás, há filhos da puta de todas as raças, credos e condições sociais. 

Acredito que num futuro próximo saberemos deles pelo IBGE.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Bolo de cenoura...

Fervia a água para o chá. Deixou o chuveiro aberto para o vapor tomar o box. Três livros recém lidos em cima da mesa de jantar junto ao pão quente. Depois do banho, comeu o pão e tomou sua xícara. De fundo, jazz - sem televisão por hoje. Folheou um dos livros e trocou algumas mensagens pelo celular convidando os amigos para o jantar. Sugeriu os vinhos. Eles, o filme. Isto para amanhã. Despediu-se. E antes de ir para a cama, comeu o pedaço do bolo de cenoura da casa da sua mãe.

Acendeu o abajur e um incenso. Rezou por 5 minutos.
Tomou dois tarja preta. 
E dormiu.

sábado, 7 de outubro de 2017

Como deve ser...

40 dias depois e 10 kg a menos. 

Não, uma não tem que ver com a outra mas mencionei a última para chamar a atenção. Coisa que vivemos a fazer por aqui, aliás. Neste tempo quase sabático, não peregrinei pelo deserto nem vivi de pão e água. Não encontrei Jesus, apenas vendedores da Jequiti, atendentes da Vivo e testemunhas de Jeová. Não recebi convites senão para chás de bebês que não pude ir. A iluminação não veio. A mega-sena também não. Mas, como não virão pelos Correios ainda mantenho a fé. Não coloquei as leituras em dia, como gostaria. Não aprendi um novo ofício. Não fui ao Rock in Rio. Não ganhei um triplex no Guarujá. Não contraí outros vícios ou novas dívidas. Não virei coach. Não me tornei monge, tampouco executivo. Não lançarei livro. Apenas saí do modo precário e contínuo de sobrevivência. Dar-se uma folga para respirar o offline leva-nos a perceber quão anestesiados estamos pelo cotidiano. Pelas redes sociais e suas recompensas emocionais. Permanecer diariamente nesta caixa de ressonância que reforça e multiplica exatamente aquilo que criticamos e que gostamos, exila-nos da realidade por devorar nosso tempo e energia preciosos por conta de um fazer compulsivo; pela repetição de um mais do mesmo a distrair-nos das coisas que realmente importam. E convenhamos, aqui não é uma delas. Mas, por não viver de direitos autorais como alguns podem acreditar, cá estou a soprar o pó das palavras que ainda não disse. A dizer as coisas certas na hora errada. E vice versa.

Um detox existencial deste ar poluído e problematizado, repleto de selfies e cards motivacionais. Para continuar. Como deve ser.