segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Para te amar melhor...

ando a salvar-me todo dia nos teus sorrisos.
no amor fiz canção 
a adormecer tuas ausências e 
apagar-me os escuros

deito-me apenas para os desejos estendidos no teu corpo.

às noites, em romaria 
venho visitar tua beleza.

sou um ser habitado por teu nome
procurem-me e nela 
e a mim me encontrarão

templo a dispensar-me as preces. 
não os lençóis.

inventei-te antes para te encontrar

escrevo por isso:
para te amar melhor.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Má proprietária...

Desconfiada e incomodada pelo silêncio, fazia questão de distrair-se com as inevitáveis vozes vindas do interior de si, a dizerem-lhe tudo, explicarem-lhe tanto, falarem demasiado sem resolver-lhe nada. O silêncio lhe era uma angústia porque ouvi-lo seria equivalente a escutar-se. O medo era de que pudesse ouvir sabidas feiuras e insuspeitas virtudes: tanto umas quanto outras jamais bem vindas desde miúda. O silêncio era uma liberdade que não alcançava. A liberdade que dizia não conseguir. A liberdade evitada sem suspeitar que evitava. Sua perteza e já começavam ansiedades e outras distrações. Ouvir-se seria ver-se. Ver-se seria sentir-se. E saber-se. Saber dos ocultos enganos que com a personalidade se confundiam. E despejá-los como inquilinos do próprio peito. 

Má proprietária.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Tempo lento...

As verdades acalmam-se sempre em tempo lento. 
Assim, seguem as tristezas a se diminuírem 
na razão direta do que dentro 
se revela.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Dezembrar...

Havemos de dezembrar. Dizia eu. Faltava pouco para o fim do ano. Era o meu pai, nos tempos de maior conversa, que o pedia. Depois de cada dificuldade, esperava que dezembrássemos todos. Que era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo. A resistir.

(Valter Hugo Mãe in: A desumanização)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Para molhar...

Deus concedeu
para a vida árida e seca
sempre lágrimas
para molhar.

Deus nos deu assim
o alívio
e as esperanças.

domingo, 27 de novembro de 2016

Sem distinção...

A pessoa se atira ao precipício pelos seus próprios tropeços e crê que a vida lhe enviará brancas andorinhas para que numa se segure e, assim, salve-se da queda.

A realidade lhe manda urubus e ela, por isso mesmo, os ignora diante da espera pelo socorro que não enxerga porque crê.

O precipício a engolirá sem distinção de credo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tripas...

Disse que aprenderia sobre o amor à força de o observar. Pesquisaria-o como um animal de tripas à mostra. Haveria de o ressuscitar para si. Talvez espere que se acalme o tempo para deitar os olhos sobre o próprio peito despercebido. Cansada de rejeitar o mundo pela anulação, queria o mesmo, mas por conta das felicidades. De boca cheia de silêncios, era mais triste do que nós. Isto por conta da memória que a assombrava como uma velha morta. À espera do significado de não se despedir, andava a corrigir a proposta das lembranças só quando dormia. Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, para que voasse com a urgência grande de esquecer assuntos. Aprenderia sobre o amor à força de o observar. Como nunca fez: ao fechar os olhos e enxergar a casa excêntrica da sua própria alma. Haveria de a ressuscitar para si.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Grande...

Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, 
para que voasse com a urgência grande 
de esquecer assuntos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Elogio...

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Facebook...

Vou trabalhar, vou à academia, vou à faculdade, vou ao banheiro, vou à balada, vou ao proctologista, vou dormir, vou vomitar. Diretas, indiretas, frases de impacto, correntes, maledicências, incoerências, mimimis, blablablás e mais do mesmo. Gente pedindo paz e gente querendo confusão. Experts em economia, ciências políticas, falta de noção, sociologia, educação, psicologia, clichês, filosofia, babaquice, literatura, egocentrismo, coitadismo e polêmicas. Imagens motivacionais, animaizinhos, piadinhas, fotos posadas e posudas, gente bacanuda para além da inveja e do recalque, sempre por cima da carne seca. Pessoas sempre felizes, amigos para sempre, lugares paradisíacos, festas inesquecíveis, jantares maravilhosos, viagens fantabulásticas. A família da propaganda de margarina, namorados de propaganda de pasta de dente. Fãs instantâneos de quem acabou de morrer. Comentaristas políticos, futebolísticos, religiosos, de teledramaturgia e da vida alheia. Citações do escritor da moda, do pensador da época, poemas açucarados, frases de música engajada e mela-cueca. Briga de egos. Guerra de vaidades. Polêmicas. O politicamente correto. Textões. Textões. Textões. Convites infernais para joguinhos, páginas, comunidades, eventos e para o raio que nos parta. Afetações, intolerâncias e muita, muita burrice. Entusiastas das banalidades e de tragédias. Muitos animais se levando à sério demais e outros tantos bichos não catalogados.

Se nada disso houvesse, nada sobraría(mos).
Cidade fantasma.
 
Silêncios.