sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Agrotóxico...

O cabra:

  • fuma mais que puta apaixonada;
  • bebe diariamente um caminhão-pipa de café;
  • tonéis de aguardente vagabunda;
  • miojo e bacon são seu segundo nome;
  • come frituras e doces como se não houvesse o amanhã;
  • sedentário;
  • viciado em trabalho e Coca-Cola;
  • tem um encosto de estimação;
... e vive pleno até os 145 anos;

O outro cabra:

  • não fuma, não bebe, dorme cedo;
  • medita;
  • abraça árvores;
  • toma chá-verde;
  • evita glúten;
  • leite sem lactose;
  • carboidrato só até às 18h;
  • ouve música clássica;
  • fitness;
  • entusiasta da acupuntura;
  • faz oficina de arte com garrafa PET para desestressar;
  • aplaude o nascer do sol;
... e tem todo tipo de enguiçamento, ziquizira e alteração possível nos exames médicos. Tá quase dando a mãozinha pra São Pedro antes dos 50.

Deve ser o excesso de agrotóxico nas verduras e frutas que consome.
Só pode.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A sério...

Perguntei-me o porquê 
de todos os meus caminhos 
darem no mesmo.

Percebi que era eu o mesmo 
a perguntar-me o porquê 
depois de cada caminho.

Pois não poderia o mesmo 
prever outro, 

nem o outro 
dar no mesmo.

Não mais me levei a sério.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Das despedidas...

Eu nunca saberei como me despedir de ti, visto que não há chance ou ensaio em que eu saia inteiro. Despedir-me é a renúncia de parte do amor que parte e deixa uma lembrança de nós dois. Despedir-me de ti é o mesmo que abrir mão deste meu lado feliz e satisfeito com o mundo, em troca da versão chorosa e arredia de quem ficou preso e perdido pelo caminho. Sobrou-me anestesiada esperança e uma metade que respira mas não sente, que caminha mas não sonha. Hoje sou árida mansidão, um homem sem pressas nem vontades. Sinto dores por não saber no amor ser temporário, e com os vazios no lugar de ti, restam-me todos os desamanhãs. E não irei sorrir nem prosseguir com o que escolhi deixar imóvel no instante em que te encontrei. A tua despedida de amor foi um jeito de morte, e por vezes deveríamos saber fazer qualquer coisa contra o inevitável em nós que não nos desague na tristeza. Eu não soube ser diferente, então a vida irá chamar mas não responderei, enquanto o peito estiver ardendo a sua falta. Eu não previ nem me preparei para o que serei na tua ausência. Depois de ti, ganhei eternidades quando talvez só me reste o tempo. Sou um fiel exemplar dos que não sabem o que fazer depois que o amor vai embora. Serei assim para sempre, morna metade e mais de um mesmo que não convence. Um estado de espera para sonhar e viver outra vez. Agora que regresso aos meus habituais abismos, espero, com braços que não se cansam, com desejos que não secam, por um amor que não muda mesmo quando a lua é outra, ou quando a vida inventa um novo jeito de seguir. Quem sabe um dia eu possa nascer pedra enquanto você flor, pra te namorar sem doer entre os silêncios do jardim e primavera, dessabido da língua das saudades que invernam os homens.

(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Deus qualquer...

leio para iludir-me
leio para tombar-me nos mistérios
leio para por-me na boca dos pássaros
leio para que as dores
sejam mastigadas
pela boca misericordiosa
de um deus
qualquer.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O que nos falta...

Não é amor o que nos falta, não. Toda gente tem amor, esse sol que é sempre sol, é da natureza dele ser assim. O que varia, como variam os instantes, é a quantidade de camadas de nuvens de confusão, de ignorância, de raiva, de medo, que o encobrem. Tem vez até que acinzentam o céu todinho pra depois fazer a vida chover torrenciais embaraços. Tudo bem, chuva sempre passa, tempestade que seja.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta é soltura. É expressão. É desarme. É poder dançar com a vida sem passo marcado. É parar de dar trela pra bobagem. É desacreditar que somos especialistas em afeto. É parar de julgar. É parar de encher barriga de dor. É mudar a faixa do CD que canta o passado com drama.

É escolher deixar de chorar pelo sofrimento vivido em 1815. É levar luz pra conversar com a sombra e deixar que as duas se entendam e se tornem amigas. É a ousadia de descolar o umbigo de qualquer orgulho, arrogância e redondezas.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes nos falta, é perceber que os relacionamentos são mais vivos tanto o quanto são imperfeitos porque perfeição, no contexto humano, é quimera. O amor é perfeito, mas nós, seus recipientes, ainda não. Dizemos tolices, fazemos tolices, quando queremos apenas dizer a nossa admiração ou gratidão ou encanto ou tudo junto.

Todos nós falhamos no amor, e às vezes falhamos muito, mas o que continua a nos mover, mesmo quando nos atrapalhamos, eu acho, é o destino de acertar cada vez mais um pouquinho. De soprar mais um pouquinho as nuvens. De deixar o nosso sol dizer mais um pouquinho o seu tamanho todo.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta, é a capacidade de perdoarmos a nós mesmos e aos outros.

Perdoar com a consciência da terna compaixão, da generosidade, da empatia, porque muitos de nós vivemos boa parte da vida como sóis culpados, como sóis assustados, mas todo sol, por trás de toda culpa, de todo susto, de qualquer enganosa aparência, quer apenas sorrir o seu lume.

Às vezes, apenas ainda não sabe como. Saberá. É da natureza do amor. 
O que nos falta não é aprender o amor. O que nos falta, sobretudo, é desaprender o medo. 

Nisso também, não importam os enredos, estamos todos juntos.

(Ana Jácomo ::: Um carinho que ganhei de suas mãos e que depois de tanto tempo cá comigo decidi semear aos olhos que precisam se encontrar com ele. Assim como um dia ela semeou aos meus. Espero que me perdoe)

domingo, 31 de janeiro de 2016

Óbito...

"O amor morreu". Assim, decretei a morte do amor. Como riacho que esqueceu de seguir e definhou, como tarde que desacreditada anoiteceu. Como lágrima seca ou batom gasto, o amor morreu estirado no chão do cansaço. O amor morreu porque matei o amor. Deixei-o morrer ferido por descaso, dissolvido no abandono. Quanto não gargalhei quando avisava o amor sumir em razão da minha própria ausência. Maltratei com meus medos, controles e farpas. Torturei com jogo de palavras e invertendo os papéis, fiz acreditar que a culpa era sempre do amor. Joguei todo o meu peso em cima dele e o acusei de não mais me trazer levezas. Eu perverti o amor. O amor morreu porque o destrocei com minha boca cheia de dentes e vomitei verdades; aniquilei com meus sintomas de boicote, assustei com meu vício de não se contentar, envenenei com meus egoísmos cotidianos, deixei-o distraído na esquina para me divertir com meus convites todos errados. Escolhi o pecado para ser minha amante, despedi o sagrado e escolhi o mundano para ser meu par. Cometi crimes, mas dele não fui cúmplice. Calei sua boca e aleguei legítima defesa dos meus erros. Cuspi e menti porque ele era meu, e sendo meu, achei que pudesse fazer o que bem quisesse. Esqueci do detalhe que o amor tem vontade própria e dói muito facilmente. Eu o expulsei de mim a suaves pontapés, pela repetição das imaturidades, com destrambelhamentos emocionais e caprichos desnecessários. Bati a porta na sua cara. E ela foi embora como se não houvesse ninguém para esquecer. Nem a escuridão me sobrou, nem a saudade quis ficar. Nunca mais eu matei, nunca mais pude amar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Soneto de indiferença...

Eu fui teu verso, eu fui a tua lira!
Brinquei, no teu olhar, em trajes de ouro
Tornei-me a carapaça de um besouro
Que – por não mais servir – ele retira!

Levaste à boca o pão que eu repartira
Com as mãos que te ofertaram meu tesouro
Meteste, entre os meus dedos, mau agouro
Sou hoje o teu reverso, outra mentira!

Mas posso asseverar que não me importa
Fertilizar a terra pr’outra horta
E ver arrebentarem-lhe as raízes

Eis o que faço e tu jamais o fazes
De minha parte eu fiz, com a vida, as pazes
Enquanto és inimigo, mas não dizes!

(Clarrissa Yemisi)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Se escute...

Há sempre algo para ouvirmos em nós e em nós nos reconhecermos.

O que nos pede o corpo? O que nos aponta a ansiedade? O que nos cala o medo? O que grita a raiva? O que nos revela a dor? O que esconde o orgulho? O que oculta o egoísmo? O que mendiga a carência? O que exigem os ressentimentos? O que nos confessam os sonhos? O que nos avisa a intuição? O que nos fala o espírito? O que nos demonstram os barulhos? O que nos ensinam os silêncios?

O que é o desequilíbrio senão linguagem a avisar-nos sobre aquilo que não ouvimos?

domingo, 24 de janeiro de 2016

Sopro...

Ensinou-me o seu amor com carinho de vento a soprar cortinas e varrer tristezas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Enquanto isso...

Quão insistentes somos com coisas que jamais deveríamos insistir? Insistimos, por exemplo, em esperar que aquela versão que um dia fomos e tanto gostávamos - mais segura, menos ansiosa, mais leve e independente - possa voltar. Enquanto isso, nos adiamos. Por não nos sentirmos com os dois pés no próprio existir, nos encarceramos nos ideais do que se deveria ser, prendendo-nos nas certezas que adotamos para não lidarmos com a inexatidão da vida que nos porá em xeque caso permitamos abandonar o controle daquilo que não é possível controlar: a vida mesma. Eis a rotina, que reduzimos o viver como repetição a dar-nos a segurança pelo falso controle que sentimos. Enquanto não nos reinauguramos num futuro tão bom ou melhor quanto o próprio passado, nos consolamos com estes controles a nos ocuparmos e distrações a nos aliviarmos de algum vazio - feito ele de tristezas, ressentimentos, culpas, medos, inseguranças - que preenchemos com comida, sexo, compras ou alguma outra fuga ou compulsão qualquer. E pelo tempo que amontoa em cima das nossas cabeças o que não queremos ser, resistimos às verdades com mentiras tão sinceras quanto, a nos sentirmos próximos de um alívio que perseguimos e ao mesmo tempo ignoramos. A resistência em doer é por vezes pior do que a própria dor, ou seja, convivemos com dores para evitarmos outras, antecipamos o sofrimento para evitá-lo, sem precisarmos lidar com o que enxergamos como erro, feio ou inadmissível em nós; sem precisarmos perdoar e libertar, ir embora e a dizer não. Adiamo-nos pela inconsciência que insistimos contra o que poderemos vir a ser e perder o que provavelmente não nos faria falta. Assim, continuamos a fazer coisas e usar dos hábitos que mais queremos nos livrar, tentando evitar o que já nos aconteceu. Estamos vivendo ao contrário, sobrevivendo porque acreditamos que voltaremos ainda a viver com a luz que se estilhaçou em algum momento da nossa história, enquanto morremos um pouco mais e mais cegos a cada dia, sem sabermos que a questão é olhar para além dos olhos para enxergarmos a nós mesmos de forma honesta, já distantes dos monstros mofados que um dia entulhamos dentro.