sexta-feira, 31 de julho de 2015

Ao balconista...

Bom dia, senhor.

Quero lhe devolver os conselhos todos que comprei e não me adiantaram. Quero trocá-los por receita pronta, ou fórmula. Mando manipular. Mando buscar. Mando trazer. Dinheiro não me falta, isso não é problema. Apenas me dê um alívio para os meus desesperos. Preciso de algo para a dissolução imediata das minhas angústias. Qualquer coisa para a absolvição das culpas. Tem?! Vitamina para combater contradições e nós na garganta? Pomada para evitar sofrimentos antecipados? E para o durante e o depois, nada na prateleira? Comprimidos para não se engasgar com as mágoas, para digerir as perdas. Algum repelente contra os medos, será que aqui encontro? Um chá para diminuir exigências e ressentimentos. Um fortificante para os meus sonhos, um inibidor de ansiedades? Não precisa ser genérico. E para coração partido, acha que é caso sério? Devo procurar um especialista?

Não, não quero nada para desaparecer senhor. Não acho que seria bom, sabe?
Sinto-me ausente de mim faz tempo demais...

Tudo bem. Eu aguardo o senhor ir ao estoque. Enquanto isso, distraio-me.

Como sempre faço.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Atalhos...

Dói-nos desalojar certezas. Talvez seja a vida apenas para isso: desalojar certezas. A certeza por demais guardada torna-se mentira a ser vivida. O risco é dizermos buscar verdades e nos contentarmos com certezas. Queremos seguir com exatidão, ainda que seja no seguro caminho dos abismos.

Temos afinidades com os atalhos.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Vencidos...

estragou-se o poema: 
envenenamos o amor. 

ainda o leio para iludir-me, 
leio para acalmar lugares 
e empurrar alguma tristeza 
para fora de mim.

facilitamos
o fim de todas as coisas
que amamos

pois o homem
poderoso criador de deuses
criará demônios.

invoco milagres vencidos.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O amor mesmo...

O amor, meu filho, tanto retira quando nos dá. Dá-nos certezas tirando-nos as certezas. Dá-nos raízes arrancando-nos as velhas. Dissolve-nos do medo brindando-nos com outros medos tantos. Assim serão com os descansos que viremos a ganhar e a perder, coragens que descobriremos e coragens que não saberemos mais. Assim será também e principalmente, com a nossa própria lucidez.

Apenas uma coisa concede-nos o amor sem de nós retirar. E devo lhe dizer que é a mais preciosa das coisas todas que poderiam ser nos acrescentadas:

O amor mesmo.

domingo, 26 de julho de 2015

Das flores...

Arte das mãos da Carina Boldi.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Lanterna...

O amor fez com que se sujasse todo com o susto de no amor se encontrar. O peito era agora um lençol sacudido. O quadro era evidente: seu medo era intensificado pelos sonhos. Frustrava-se com o desejo estéril de ser genial diante da porta estreita, sem aceitar que para atravessá-la deveria ser metade do seu habitual tamanho. Somente assim seria maior.

Sua dor não era filha deste desejo estéril, mas das coragens que lhe faltavam. Sua dor era a deficiência para descartar suas mesmidades. Sua dor era a facilidade para por-se distante sempre dos paraísos.

Somos heroicos somente perto das perdas. Parece-nos que apenas à beira dos abismos ganhamos a coragem exata para conversões e sacrifícios. O amor pede-nos a morte para dar-nos a vida, tornando-se pequena lanterna a abrigar-nos na queda dos nossos próprios escuros.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Exageros...

Andamos a limpar o peito usando das coisas mais estúpidas com vistas a uma festa que nunca acontecerá, meu filho. Queremos aligeirar fardos criando outros. Veja, nossos movimentos todos são estratégias de sobrevivência, através também do que nos destruirá. Coragem é a exceção dos atos, pois, coragem é morrer para não perdermos a qualidade dos novos dias. Morrer, escrevendo história das coisas que não voltam. Morrer, sem substitui-la com mentiras. Infelizmente, mentimos, evitando os exageros até para sermos felizes.

terça-feira, 21 de julho de 2015

A iludir-nos...

As pessoas parecem-nos melhores quando longe, meu filho, estejam elas de nós separadas pelos passos ou pelo tempo. As distâncias atenuam feiuras e não sei se é questão dos olhos por iludir-nos de perto ou de longe, tornando-nos severos se perto, generosos se longe. A única coisa a parecer-me corrigir isto são as saudades. As saudades, seja a pessoa como for, fazem com que pareça-nos sempre melhor quando perto. 

A saudade embora amarga, filho, traz consigo oculta seus carinhos.

domingo, 19 de julho de 2015

Algumas regras...

Acreditou que escolher o certo era o certo a se fazer.
Acreditou que de ilusões sofriam somente os outros,
não soube até ontem que isto era a ilusão de que sofria.
Acreditou que coração depois do estilhaço não se consertava,
depois viu que estilhaço no coração se remendava.
Acreditou que coragem era matar o medo,
depois viu que era coisa apesar dele.
Acreditou que ser interessante era ser gostoso,
depois soube que gostoso era ser interessante.
Acreditou ser o último da festa.
Acreditou ser o primeiro a chegar.
Acreditou não ser convidado.
Acreditou não ser bem vindo,
mas depois se apercebeu que não se convidou.
Acreditou que não deveria morrer nem de raiva nem de amor,
e descobriu que não havia vivido por não nunca morrer.

Acreditou que para ser livre deveria seguir algumas regras,
haveria de descobri-las
quais.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A vitória da flor...

A dor não parte de nós arrancando-a à força de dentro do peito. A dor não se retira com simpatia, convite, súplica ou reza braba. A dor não se convence por qualquer conversa ou estratégia de fuga. Atalhos não são caminhos. A dor é grau de realidade a convocar-nos, empurrando-nos para fora das habituais zonas de conforto. A dor grita-nos verdades sem conveniências ou filtros de entendimento. Celebra seu ciclo para então em nós se despedir, desalojando-se somente quando nossa luz retorna de viagem, trazendo na bagagem inevitável amadurecimento. A dor se dispensa por sua própria conta, pelo cansaço em ser dor e não outra coisa. Devemos, assim, permitir que o tempo dissolva seu viço em nosso céu e desencrave sua raiz do nosso chão, deixando-nos finalmente expostos aos recomeços. Preciso é exercitar equilíbrio com paciência e resignação, a manter-nos uma vez mais em pé e continuarmos, ainda que mancos e desajeitados, nos primeiros novos passos nossos. Preciso é juntarmos os pedaços que ainda doem e no amor-próprio voltarmos a fazer um inteiro de nós. Não é fácil: se conseguíssemos não afundar enquanto pelo medo nos agarramos às angústias e outros medos mais; se conseguíssemos praticar palavras que tão facilmente usamos para aconselharmos os outros talvez pudéssemos ver a alternância das estações que nos invernam e nos amanhecem, bem como o rearranjo das cores, dos amores, dos destinos e a inevitável vitória da cicatriz sobre as feridas. É uma pena que na maioria das vezes nos encontremos caindo dentro de nós mesmos; e desorientados na nossa lucidez, lutemos contra dores com dores maiores ainda. À beira do precipício mantemo-nos mais atentos à queda do que à glória das asas. Atentamo-nos no que seria e não no que poderá ser; projetando futuro que morreu no passado; repetindo passados com medo de errar no futuro. E boicotados, sentimo-nos um vaso rachado condenado a nunca mais matar a própria sede. 

Quem sabe se diante disso, fazendo o contrário de tudo o que somos, não sentiríamos o avesso daquilo que não gostaríamos de sentir?