quinta-feira, 28 de julho de 2016

Inocentemente...

Inocentemente defendia-se de si mesma ao boicotar-se; não se permitindo alcançar o lado mais bonito de si e o ponto mais alto do amor por acreditar que irá sempre estragar a felicidade se ela vier; evitando-a para não se convencer do que por alguma razão já se convencera: de que não serve e não lhe cabem as alturas.

Assim, quanto mais busca, mais distante se põe do que é buscado.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Quando nos apaixonamos..

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me. Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte.

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 26 de julho de 2016

O jogo...

Viver vai além do que se quer garantir; do que se deseja controlar; do que se espera acontecer. Apesar da falta e do excesso de sentido desta vida, vive-se. Vive-se apesar de, apesar das: ânsias, angústias, esperas: pelo dia do pagamento, pelas férias, pelo final de semana, pelo final do campeonato, pelo fim do expediente, pelo churrasco de domingo, por um amor qualquer ou por qualquer amanhã onde se espera ser feliz. Viver vai bem além do que reconhecemos como viver. Apesar da ansiedade e do medo que nos anulam no presente, vivemos. Além do que ignoramos e insistimos para não sofrer, do que nos sujeitamos para não sofrer, vivemos. E sofremos exatamente pelo que insistimos, ignoramos, nos sujeitamos. Além do egoísmo que escondemos, da inveja que negamos, dos ciúmes que calamos, das mágoas cultivadas, das culpas cativadas, da impaciência praticada, das verdades aumentadas, das mentiras sustentadas, vivemos. Viver nos acontece além das justificativas de que o erro não é nosso, embora o cativeiro seja. Colonizados pela rotina, pelo espelho, pelas dietas, pelas ausências, pelos cansaços, pelas ocupações que nos distraem das misérias acumuladas nos anos perdidos. Vive-se apesar do celular, da compulsão, do sono interrompido, do sonho posto de lado, da tristeza de estimação, dos remédios usados para se lidar com aquilo que o peito não conseguiu.

O jogo que não aceitamos perder é o mesmo que não pode ser vencido.
E é por isto e só por isto - por não aceitarmos - que vivemos a perder.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A seco...

Ela por bem engoliu a seco as palavras que fariam a diferença. E por bem guardou tanto e tudo porque não queria perder. Ela se sente longe de casa dentro do próprio peito. E não sabe o que fazer com o que sente, e como é não se sentir sempre incômoda, apressada, atrasada e na dúvida se o que viveu até então não poderia dar-lhe algum descanso. Ela quer o que a alivie desta sensação de não se encaixar; no amor que não encaixa, na solidão que não encaixa, na vida que não encaixa. Ela busca o que a salve do caminho sempre tão difícil, do que crê ser improvável, do que já aceitou ser impossível. Sofre das distrações que não alimentam; sofre da falta de sentido; da falta de amor próprio; sofre de boicote; de insônia; de um silencioso e crônico desajuste dentro de si. Cabe onde não lhe cabe mais e insiste. E se prende. E mastiga. E procura: nos romances que não vingam, entre os erros que se vingam, nos livros que devora. Distraindo-se na poesia, nas ansiedades, no sexo, no sono, na sedução, nos elogios dos outros que coleciona no espelho que não se enxerga. Luta contra os medos, contra o tempo, contra a velhice, contra o estresse, contra a tristeza. Conta histórias para acreditar. Conta lembranças para convencer. Conta vantagens para ocultar o tédio, o emprego, o amor e a rotina sem altitude. Não sabe o que é renascer, apenas se remendar. Assim não se perdoa, não esquece, não se aceita, se envenena: de carências, mágoas, frustrações, passados. Ela que agrada a todos queria ser rebelde. Ela tão rebelde não sabe sentir-se amada. Ela não sabe. Ela suspeita, ela planeja, ela deseja. Ela sonha, mas não desperta.

Ela quer ser quem ainda não foi.
E ver se dá certo.

domingo, 24 de julho de 2016

Eu te odeio...

Eu te odeio. Odeio por não conseguir despedir-me do que não deveria pertencer-me mais, e que leva teu nome. As lembranças tuas são de doce insuportável misturadas neste amargo presente. O contraste embrulha o estômago, oprime o peito, dá-me gosto ruim. Odeio-te por cair em todos os buracos que o meu amor próprio permitiu. Eu te odeio por querer-te demais, e há frustrações demais por detrás disto. Querer-te demais é a doença e a punição que sofro enquanto desejo. Odeio-te por caminhar para o abismo. Odeio-te por sua ausência cobrar-me qualquer obrigação. Eu te odeio porque espero que lembres de mim no mesmo grau e intensidade; que sinta o mesmo veneno filho das tristezas. Eu te odeio porque não é isto o que realmente espero e porque de ti não tenho notícias. Odeio-te por não saber o que fazer contigo. Odeio-te por não saber o que fazer com o tempo que sobrou. Odeio-te por perder o norte, o rumo, o lume. Eu te odeio porque não sei mais de mim como sabia. Odeio-te por enterrar certezas, esmiuçar cansaços e calar-me para que só ele fale. Dói-me o orgulho. Doem-me as fraquezas. Odeio-te por não haver palavra que alivie, prazer que alivie, fuga em que eu escape, e então, levo-te comigo a me castigar. Odeio-te por não haver nada bom o suficiente, ainda que seja nítido que tudo possa ser melhor que ti. Odeio-te pelos sintomas todos. Por estes pequenos grandes inúmeros tormentos. Por frágeis e inconstantes previsões. Odeio-te por não ter combinado nada para ser feliz amanhã. Odeio-te porque sangro para sempre. Odeio-te porque fui marcado pelo amor que trouxeste. Odeio-te por não servir para outra coisa senão o amor. 

Eu te odeio por isto, justamente porque te amo.

sábado, 23 de julho de 2016

Mais sábio...

Descobriu ela com certo alívio que era tanto a inquilina das suas alegrias quanto das suas tristezas. E que não haveria como insistir em uma ou resistir a outra. 

Assim, tornou-se o peito mais sábio por aceitar suas próprias impermanências.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ansiedades...

Ansiedade é tropeçar no futuro que ainda não alcançou os pés; é adiantar relógio para chegar cedo na festa. Ansiedade é a descortesia com o presente que nos hospeda; querer acordar sem deitar para dormir. Boicote de quem não se aceita e por isso corre para não se alcançar, ansiedade é o comum sintoma que confessa só sabermos viver melhor entre os amanhãs.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Da gratidão...

A gratidão é dimensão essencial à vida, possuindo relação direta com as prosperidades e com a apreensão da beleza em nosso cotidiano. 

A gratidão nos imensa, agigantando-nos diante do nosso próprio tamanho.

A gratidão liberta-nos do passado, que entalado permaneceu no peito, ao aceitá-lo integralmente e apresenta-nos ao futuro, por nos atualizarmos no milagre do momento presente.

A gratidão dá-nos a oportunidade de escolhermos o melhor caminho que se faz o melhor caminho porque nos tornamos gratos a ele. 

A gratidão há de convocar sempre as nossas ocultas riquezas.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O fim...

Quem disse que no amor há final ou mentiu ou se enganou, fosse para enganar a si mesmo e salvar-se da dor. Ninguém está à salvo de um final que não acaba, vez que o amor continua sendo o que é, ainda que tenhamos deixado de ser o que éramos. A verdade é que o fim nem sempre é o final, mas apenas doloroso e cansativo recomeço. Obrigação dolorosa de impormos distâncias, abraçarmos a contragosto as ausências, lembrarmos do que se gostaria de esquecer, pois, mudamos do plural para um inevitável e apertado singular. Cansativo porque abrimos mão dos planos, sonhos e cuidados colecionados ao longo da convivência: entre o que éramos e o que seremos, continuamos vivos mesmo depois de morrermos; vivendo precária existência a espera de nos sentirmos menos do que uma metade. Ânsia angustiada para que voltemos às cores; para que o interesse nos desperte e que nada mais doa quando nos toquem. Que deixemos de nos sentir estrangeiros na própria vida, desconfortáveis em nós mesmos, quando qualquer luz ainda incomoda e cega, ao invés de ajudar-nos verdadeiramente a enxergar. O que nos dói na morte mesma é que nem sempre morremos de amor; ficamos como intervalo entre o que sentimos e o que buscamos abandonar e dissolver, a um passo do abismo interior e da desordem emocional, carregando o gosto amargo e um peso no meio do peito, da alma, do caminho, imperceptível para os pedestres. O amor não nos pede justificativas para continuar sendo, independente de nós. Por isto doemos quando não mais se é, ainda que distante continue a ser.

Mentimos que há um fim para podermos novamente começar.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Prometo levar-te flores...

Depois de tudo e tanto meu amor, não precisarei matar-te dentro de mim. Lamento informar somente agora, mas havias morrido desde muito. O erro, confesso, foi não declarar antes teu óbito. Hoje o que está a doer-me não é o final - eu já esperava o dia para me livrar do teu cadáver - e sim a necessidade de encarar-me e abandonar o peso do passado que carrego. O que está a doer-me é voltar aos inteiros quando neles não caibo mais. O mofo, a mágoa e o medo que tua alma tornou a minha ocuparam o espaço das janelas para sair. A questão é que me desacostumei com a luz por conta da tua escuridão. Saiba, meu bem, enquanto me sufocavas com a tua demência eu te asfixiava com meu desinteresse. Por isto não choro qualquer adeus. Não há por quem chorar ou partir. Partido estou eu e, se nascem-me as lágrimas são por um passado que não aconteceu e pelo medo de encarar-me no que sobrou a colar os cacos. Choro, sim, de raiva por ter me tornado moribundo entre as tuas violências. O que me restou? Exorcizar-te e não lhe contar. Enganei-me acreditando ser ainda amor, enganei-te ao permitir teus passos ao lado de um homem vazio como defesa pelas dores que me deste. A tristeza não ocorre pela despedida, mas porque não sei para onde ir a encontrar-me com uma paz que hoje não alcanço. Tu te tornaste o fantasma do fantasma que me tornei. Sou eu agora a pagar o preço para ressuscitar, reanimar o amor próprio depois de acimentar doçuras e consignar levezas. E tudo para ficar contigo sem ficar comigo mesmo. Emprestei belezas que jamais poderia ter a ti emprestado, porque tu nunca devolveste. O que mais me dói é ter que recobrar a sanidade e encarar a vergonha de permitir-me perder tempo e ter sido o que jamais teria permitido-me ser. E ainda que eu seja toda esta aridez a lhe confessar, prometo levar-te flores. Num passado em que conseguimos nos amar porque nem no túmulo hoje mereces tu a minha visita.