sábado, 28 de março de 2015

Para os invernos...

a solidão põe-me a envelhecer junto à mesa do café
restam-me inertes a outra xícara, o outro prato 
e o mundo subtraído de ti

peço a eloquência da saudades a explicar-me tua ausência
por compaixão ao luto, visitam-me as tristezas.
brindam-me com flores à boca 
ao falar de ti para as paredes

admirou-se a beleza de minha condição
mandou-me continuar

calei,
rezava apenas para os invernos.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Remendos...

costuro na palavra a poesia para fechar feridas.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Angustiado...

De que adiantava me ocupar? Pois quanto mais eu me ocupava, mais descobria tempo livre na agenda para lutar com meus monstros e meus medos. Quanto mais eu buscava fugazes levezas, mais me deparava com os inevitáveis pesos que minha tristeza carrega. Quanto mais eu fujo, mais sou convocado pela consciência a me encontrar. Ela me cobra com cada vez mais intensidade e violência, que eu a esclareça e a clareie, despedindo os nós que antes, laços, enfeitavam-me e que não mais me servem porque continuamente me sufocam. Assim, eu resolvi de vez não resistir nem lutar. E confesso que esse continua sendo exatamente o problema. Porque eu mergulhei no escuro de mim, ou melhor, fui para lá atirado, e juro que tentei ainda não acordar nenhum demônio meu em nenhuma esquina minha. Não queria me meter em confusão. Embora eu identifique um por um, e saiba todos pelos nomes e pela cor, não me atrevo a enfrentá-los, mesmo que eu já os enfrente. Acordei-os todos com minhas dores e meus gritos. No final das contas não sei se eram eles que dormiam ou eu, sendo massacrado por distrair-me nos sonhos que cultivei. Doeram-me as inocências todas; a despejar-me sem qualquer cuidado para os longes. Ando ensaiando coragens, mas sem nenhuma emoção. Ando planejando fugas, mas sem nenhum caminho. Ando pedindo perdão, sem qualquer absolvição. Por enquanto, sou provisoriamente um homem angustiado.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Vai pra...

Às vezes mandar alguém pra puta que pariu pode ser um ato pedagógico de amor.

Seja para conduzir e situar o outro ao seu devido lugar, seja de amor-próprio a nos libertarmos e restabelecermos as coisas devidas.

Por vezes cabe praticarmos polêmica compaixão, é revigorante.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Lembra...

Lembra meu amor quando éramos invencíveis? Quando nosso amor era extraordinário? Lembra quando insistíamos no verão ainda que fosse inverno? Quando tínhamos a elegância das nuvens, a leveza dos pássaros, a inocência dos pequenos? Lembra quando éramos imortais? Quando nos cortávamos sem sangrar e amávamos sem doer? Lembra do tempo em que nunca houve naufrágio? Quando aceitávamos as alturas e os inteiros tão-somente? Lembra quando a paz era o nosso cobertor? Quando encanto era rotina, quando descanso era rotina, quando milagre era rotina? Lembra meu amor quando sobravam-nos pés para as primaveras? Quando promessas eram sementes, sonhos eram sementes, sorrisos eram sementes e cultivávamos sem perceber? Por que então resolveu a tristeza nos visitar decorando nossa casa de cansaços? Por que então resolveu tristeza ocupar o espaço no lugar do que lembrávamos? E ela esta aqui, nas janelas, no banheiro, no canto da sala. Já rezei, já chorei, já gritei e ela não nos abandona. Ela, em silêncio nos rebaixa: ao ordinário, ao banal, ao amargo Ela, imponente nos humilha: ao trivial, ao medíocre, ao azedo. Roubou-nos o brilho trancando nossas memórias no porão. Sobrou-nos o som abafado das verdades que guardamos. Intransigente varreu o céu estrelado para fora de casa. Sobrou-nos apenas o quarto frio para dormir. Hoje, dormimos numa cama de espinhos. Sobrou-nos apenas sonhos em branco e preto. Das alturas para os escuros, do imerso para o raso, do imenso para as coerências, da gratidão para as cobranças, do perdão para as desculpas, da entrega para as defesas. Onde colocar o que não precisamos? A tristeza roubou-nos a riqueza, os diálogos e o cenário. A tristeza nos roubou a cena, fazendo do amor mero figurante. Um personagem breve a tentar nos convencer da felicidade, numa fala de língua estrangeira.

domingo, 22 de março de 2015

Calem-nas...

Calem as palavras. Aposentem-nas! Pois não acredito em nenhuma. Prometem aquilo que não somos. Lindas, embriagam-nos. Sinceras, enganam-nos. Basta confrontá-las com a realidade, com a dificuldade, e se estilhaçam, caem por terra, esquecem-se de ser o que prometeram no instante que esquecemos de ser aquilo quando prometemos. Quero uma palavra que me acompanhe por entre as sombras e banque a si sua existência. Quero a palavra que descanse e não me dê apenas a ideia de alívio. Quero a palavra que alivie e não me dê apenas temporária anestesia. Quero uma que valha mais que os silêncios. Amor declarado não é o suficiente. Perdão declarado não é o suficiente. Quero o amor em prática, a sinceridade empírica, o cuidado e a atenção vividos no verbo realizado. Insistimos em sermos aquilo que nos impede de sermos melhores. E falamos sempre o contrário.

Toda desculpa é palavra.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Cabide...

Às vezes, e digo às vezes porque 'sempre' seria pedir muito, deveríamos dar trégua aos cansaços pendurando nossa individualidade cheia de si no cabide, nossa independência de nariz empinado no mancebo, para nos aconchegarmos no sofá das vulnerabilidades. Engana-se aquele que pensa ser isso um engano. Sem vulnerabilidade o amor não acontece, sem abertura o encanto não se apresenta, sem disposição o milagre não é revelado. Via de regra o amor toca a campainha quando distraídos não esperamos visita. Mania a nossa de nunca nos encontrarmos em casa, pela agenda cheia de compromissos a confirmar nossas certezas. Armados e de pé atrás, exigimos que o futuro amor preencha infinitos requisitos - ou nós os dele - exatamente para mantê-lo distante de nós, evitando que tenhamos que já lidar com a insegurança de nos machucarmos uma vez mais como sempre fazemos. Aconteça ele no agora, nem ele nem nós estaremos prontos para sermos felizes. Quanto há para despedirmos antes de arriscarmos o risco de darmos certo? Garantimos então que nada dê, para que amanhã e somente lá estejamos mais bem preparados. Adiamos a vida com condições, esperando que o amor nos aconteça no final da tarde dum outono de céu parcialmente encoberto. Prendemo-nos nas previsões do improvável, descartando os prováveis. Eis o óbvio: ao nos concentrarmos numa direção, deixamos de enxergar as outras e a vida acontecendo ao redor. Estratégia pura de boicote! Aí o amor poderá esbarrar e pedir desculpas, sentar ao nosso lado e oferecer chiclete, nos parar na calçada e pedir informações. Não daremos ouvidos, não responderemos à gentileza. E tudo porque temos encontro marcado com a procura, não com o encontro. Mais do que esperar o amor chegar, deveríamos antes acreditar na possibilidade que o amor possa vir, inesperadamente, ainda que abra a porta de serviço e nos flagre nus na sala de estar.

É exatamente por estarmos nus que o amor decidirá ficar.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Ritual...

estava espalhada pelos dias toda a tua falta,
arrastando nos pés o peso da tua ausência.
a saudade me era uma oferenda das manhãs e de todas elas

percebi: a tristeza era um ritual

quarta-feira, 11 de março de 2015

Inocência...

A inocência, meu filho, faz do coração morada para pequenas alegrias. Não lhe cabem outras maiores. A pureza tem dimensões estreitas e veja que, não sei se isto é obra do acaso ou de distantes deuses, nosso tamanho corresponde ao do próprio coração, tal qual nós a cabermos na exata medida das nossas sombras. Para que no peito entrem maiores alegrias e a felicidade - que dizem ser a maior delas - faz-se essencial acolhermos os sofrimentos, inéditos e graúdos mais que a inocência, vindo a lacear coração aumentando-nos os espaços. Apenas assim, meu filho, estaremos prontos para bençãos e amanhãs. Os amanhãs serão sempre maiores do que o que nos cabe hoje.  

terça-feira, 10 de março de 2015

Textura...

Um dia desses, minha mulher no meio de uma prosa nossa veio me perguntar qual é o cheiro da sua pele. Inesperadamente, como num interrogatório de uma só pergunta. Se doce, salgado, floral, frutado, azedo. Assim, à queima-roupa, emudeci, como se um calouro de engenharia precisasse explicar à banca sobre genética. Restou a minha cara de paisagem e uma garantia: casei-me com ela para desaprender minhas certezas. Descobri-me alheio à exatidão, um descatalogado dos sentidos, um órfão das classificações. No improviso dos meus vocabulários, só pude dizer a ela a verdade que sabia. E lhe disse: seu cheiro é o meu alfabeto, o meu braile, o meu baile, a casa pronta pra festa. É o seu cheiro que me abraça e me põe para dormir; que me beija e me chama a despertar. É o seu cheiro que me amansa e me excita, me deu batismo e primeira comunhão, deixando-me pronto para os pecados. É o seu pescoço a rua que passeio, suas coxas são o passeio que desfruto. A minha manhã de sábado, meu início de férias. Seu cheiro é a redenção do vento, a rendição do tempo, a celebração do meu olfato, minha graduação na poesia. É no antes e no pós banho, minha colônia de aconchego. É o seu cheiro quem me cheira a dar-me existência, e eu só existo na fragrância dos teus frutos. Cheiro-te como café, como amante, como amado. Imerso-me, bebo-te, farejo-te. Confundo seu cheiro com a minha paz. Cheiro-te como uma prece, como ritual. Seu cheiro é a textura do meu amor.

Não sei se me expliquei.